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Perder um filho. Da revolta à superação

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Centenas de pessoas acompanharam em Murça, na terça-feira, o funeral dos três irmãos que perderam a vida no acidente em Zamora, Espenha. Ao choque frontal com um camiãosobreviveram o pai e uma outra criança, amiga da família

ESTELA SILVA/ LUSA

Não há manuais de instrução para lidar com a morte de um filho. Não há forma de evitar a dor, nem receitas infalíveis para ajudar. Mas quem passou pela experiência diz que é possível aprender a viver com a saudade. Sim, aprender a viver

Podemos começar pelo lado menos negro: “É possível dizer que todos temos estruturas para aguentar e de alguma forma superar.” Ao afirmá-lo, o psicólogo Carlos Céu e Silva não pretende aligeirar um processo que “é lento, difícil, nada linear e muito doloroso”, sempre que está em causa o luto por um filho, mas constata aquilo que os próprios pais acabam muitas vezes por perceber, com surpresa. É possível sobreviver, reencontrar um novo equilíbrio, refazer a vida. Outra vida, pelo menos.

O percurso para a alcançar é o lado sombrio que cada pai ou mãe vive à sua maneira, em profundo sofrimento. Casos como o recente acidente de Zamora, onde três irmãos menores morreram de uma assentada, são o tipo de “acontecimento avassalador”, apenas assimilável “em contextos de guerra ou catástrofes comparáveis”, para os quais ninguém está preparado, sustenta Carlos Céu e Silva, também presidente da associação de apoio “Laços Eternos”. E para o pai, o condutor do veículo onde as crianças seguiam, não é difícil adivinhar “o provável sentimento de culpa que vai carregar”, maior do que o já habitual neste tipo de perdas.

“Por agora, não adiantará nada tentar aliviar-lhe essa culpa”, continua o psicólogo clínico. Sem particularizar - cada caso é um caso - a primeira fase a ultrapassar é sempre a do choque. “A primeira vivência passa pela negação ativa, ainda não se acredita no que aconteceu, a pessoa cai num torpor que é ao fim e ao cabo um processo de defesa”, explica outro especialista, José Eduardo Rebelo, biólogo de formação e autor de vários estudos sobre o luto.

O professor universitário, com vários livros publicados sobre a matéria e fundador (entre outras) das associações Apelo e Espaço do Luto, sabe bem do que fala. Ele próprio perdeu, há mais de 20 anos, a mulher grávida e as duas filhas num acidente de viação. Foi também numa “perspetiva de autoajuda” que se voltou para a psicologia, motivado pelo desejo de acabar com o tabu. “A pressão para a não expressão do luto é muito grande na sociedade e pareceu-me que tentar a transformação pela via académica seria um bom ponto de partida”, diz José Eduardo Rebelo. Falar mais sobre o tema, estudá-lo, preparar pessoas para poderem ajudar foi o objetivo traçado, uma via para “normalizar” a forma como o luto é olhado e tratado.

No caso dos pais que perdem os filhos, o biólogo deu inclusivamente nome a um sofrimento por batizar, criando a expressão “defilhar”. “Porque podíamos ser órfãos, viúvos ou viúvas, mas nem sequer havia designação onde fazer caber este luto concreto”, recorda.

Partilhar, para receber ajuda e ajudar

José Eduardo Rebelo percebeu também como o luto estava ausente dos currículos: “Não existiam especialistas.” A este propósito faz questão de ressalvar: “É preciso não esquecer que mais de 90% dos lutos são normais e saudáveis, dolorosos como se sabe, mas apesar de tudo processos onde não há necessidade de terapia ou supervisão psiquiátrica”, afirma. A ideia não é ter apenas terapeutas - necessários para os casos dos lutos doentios - mas formar conselheiros, capazes de acompanhar quem precisa apenas de ser ajudado. Atualmente, O Espaço do Luto, em Aveiro, forma uns e outros.

É importante respeitar as necessidades de cada pessoa nestes processos, diz o psicólogo Carlos Céu e Silva. Natália Fernandes encontrou a ajuda de que tanto necessitava num grupo de partilha. Quando perdeu o filho mais novo, há cinco anos e oito meses - “ainda conto assim” -, a culpa foi sentida logo no primeiro momento e foi difícil ultrapassar. “Às vezes volta”, confessa, mas conhecer outras histórias, ouvir outros pais, encontrar noutros uma dor semelhante foi o que a fez melhorar. “Não se esquece, claro, mas hoje posso dizer que encontrei o que considero ser uma missão para desempenhar.”

Natália começou por se juntar a um grupo de entreajuda na associação A Nossa Âncora, tendo sido uma das fundadoras da Laços Eternos, quando a primeira se extinguiu deixando alguns pais “um bocadinho à toa”. Grande parte do seu tempo é dedicado a ajudar outros pais, como a ajudaram a si; a atender telefonemas de familiares preocupados; a responder a emails de quem não teve coragem para aparecer ou a tentar conhecer os pormenores de quem se limita a enviar mensagens curtas como “sou uma mãe em luto”, porque “muitas vezes o tamanho do desespero não nos deixa dizer mais nada”.

Natália entende. Tenham as mortes dos filhos acontecido por doença, acidente ou suicídio (como aconteceu no seu caso), tenham levado bebés, jovens ou adultos, a dor que lhe é tão conhecida aproxima-a de todos: “Sinto que até me faz bem desempenhar este papel.”

“Ninguém é especialista no luto de ninguém”

Nunca é demais repetir: não há regras prontas-a-usar, lembram os especialistas, embora se possa ter presentes procedimentos mais adequados. “A melhor forma de ajudar é ouvir incondicionalmente, sem censurar”, diz José Eduardo Rebelo. “O luto é um processo emocional e que não é consciente. Quando algumas partes se tornam conscientes é sinal de estarem a ser resolvidas”, acrescenta o especialista, alertando também para a ineficácia, e até risco, de se recorrer a medicação não prescrita.

O consumo de antidepressivos quando estão em causa os já explicados casos de lutos normais, não doentios, “é completamente desaconselhável”. Muitas vezes é preciso passar por determinadas emoções e expressá-las, para se poder avançar.

Também há palavras que não vale a pena dizer, que não vão fazer sentido. “É preferível dizer ‘não tenho palavras’ ou ‘não consigo imaginar a tua dor...’”, aconselha José Eduardo Rebelo.

“Ninguém é especialista no luto de ninguém”, reforça ainda o autor de “Defilhar: Como viver a perda de um filho”. Mas importa ser um ouvinte atento, que devolva “cada pequeno elemento de superação que se encontre, para que a pessoa se consciencialize de que já consegue fazer alguma coisa que não conseguia antes”.

O luto, como é dito muitas vezes, difere entre homens e mulheres, sendo que os primeiros tendem a vivê-lo de forma menos intimista e mais pragmática. A explicação assenta em aspetos biológicos e sociais, explica José Eduardo Rebelo: “Os homens precisam de estar com os outros, saem e não falam no assunto, mas contam com o apoio tácito de quem está com eles”. As mulheres sentem maior necessidade de falar.

Independentemente da forma de o alcançar, podemos fechar também com uma palavra de conforto. Sim, o “apaziguamento” é possível, depois de ultrapassada a desorientação, a revolta e a ausência física. “A partir do terceiro ou quarto ano após a perda, e em teoria, pode começar a trabalhar-se a saudade”, diz Carlos Céu e Silva.

“A vida não fica igual, escusado será dizer, mas quando os pais percebem que deram ou fizeram tudo o que estava ao seu alcance, conseguem ganhar esse apaziguamento. Há uma espécie de rendição, que resulta de se libertarem do sentimento de culpa” e da sensação de ter falhado no dever de proteger o filho ou a filha, conclui.