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Risco de propagação de incêndios. 2015 é o terceiro ano mais grave desde 2000

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FOTO MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

Incêndios duplicaram e a área ardida mais do que triplicou face a 2014, de acordo com a Proteção Civil. Depois de 2005 e 2012, Portugal volta a assistir a um aumento do índice de severidade meteorológica. Junho, por exemplo, foi o quinto mês mais quente dos últimos dez anos. "Tivemos um inverno seco e uma primavera quente", destaca especialista do IPMA.

Raquel Pinto

Raquel Pinto

Jornalista

Quatro ondas de calor marcaram os primeiros seis meses do ano e os três maiores incêndios coincidiram nessa altura. Tempo extremamente quente e seco marcou o mês de junho, o mais quente dos últimos dez anos e o quinto desde 1931. No arranque do Verão, a 29 de junho, a propagação de um incêndio em Mangualde, Viseu, levou ao corte da linha ferroviária da Beira Alta, atingiu habitações, e a área ardida de 855 hectares foi a terceira mais elevada. Apesar do tempo quente, ficou abaixo do maior registo do ano: 1574 hectares arderam em Sever do Vouga (Aveiro) a 2 de abril. A primeira onda de calor do ano verificou-se de 27 de março a 7 de abril. A temperatura e a precipitação são apenas duas das variáveis que entram na análise ao risco de propagação de incêndios.

Entre 1 de janeiro e 31 de julho, o balanço não é animador. Pelo contrário. Em 2015, os incêndios duplicaram e área ardida mais do que triplicou em comparação com 2014. Vamos aos números: 10695 incêndios face aos 4165 fogos que deflagraram no mesmo período do ano anterior; as chamas lavraram 27921 hectares, muito acima dos 7575 hectares consumidos do ano transato.

O comandante nacional de operações da Proteção Civil José Manuel Moura anunciou os dados na conferência de imprensa desta terça-feira para fazer o ponto de situação do número de incêndios. E destacou a "notável" prontidão dos operacionais no terreno e "sucesso" nas missões. "Em nenhuma ocorrência tivemos um incêndio com mais de 24 horas".

Os valores mensais de precipitação têm sido, desde o início do ano, sempre inferiores ao respetivos valores médios, segundo o boletim climatológico sazonal do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O primeiro semestre foi "muito quente e seco".

"Tivemos um inverno seco e uma primavera quente. Foi um ano atípico. Não tínhamos tanto vento", descreve ao Expresso a especialista Ilda Novo do Insituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Existe um índice de severidade meteorológica, que é medido em Portugal desde a década de 80. Os cálculos são efetuados todos os dias.

"Reflete a gravidade das condições meteorológicas que acabaram por criar condições para a secura dos combustíveis e propagação do incêndio", explica, acrescentando que "parâmetros como a precipitação, vento, temperatura, humidade vão favorecer ou não para que esses combusíveis ardam mais depressa". Ao risco é somado ainda as previsões meteorológicas diárias.

"Pode não ser um ano muito quente, mas pode ser gravoso. Basta ter mais vento, por exemplo. No caso de Portugal, as ondas de calor normalmente concidem com a situação crítica para os incêndios". Na meteorologia é tido em conta ainda o cruzamento com a parte estrutural: as condições do terreno, o declive, a vegetação, a parte urbana. "Tendo em conta as medições feitas a partir de janeiro, este o terceiro ano mais grave desde 2000", frisa ao Expresso Ilda Novo, depois de 2005 e 2012. "Desde o início do ano que estamos em seca. Temos tido preciptações baixas e temperaturas muito elevadas".

A fase de combate Charlie, acionada a 1 de julho e que estende até 30 de setembro, é a mais crítica e a que envolve mais meios operacionais. De acordo com a Proteção Civil, mais de metade da área ardida ocorreu fora deste período. No mês de julho, houve 3500 fogos, um número próximo da média, mas a área ardida foi a quinta mais baixa do decénio.

Apesar da chamada de atenção da Proteção Civil para as condições meteorológicas favoráveis em Portugal para a propagação dos incêndios, existem outras variáveis que não se controlam. Os atos dolosos estiveram na origem de 16% dos fogos deste ano, adiantou posteriormente o comandante José Manuel Moura à TSF, que deixou um alerta. É preciso mudar práticas sociais, já que os comportamentos negligentes foram a causa de 40% dos incêndios.