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“Sou perseguido pela Igreja, até por colegas padres”

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Padre Roberto Carlos frente à Sé do Porto,
 na quarta-feira

Rui Duarte Silva

“Fui ameaçado, alvo de difamações: que estava envolvido com mulheres casadas, depois com homens, com crianças...”, diz Roberto Carlos, ex-pároco de Canelas

Há um ano que a polémica teima em não largar o padre Roberto Carlos. Em Canelas, a população continua a ir às suas missas privadas, agora sem o apoio da Igreja. O pároco, que quebrou um silêncio de um ano numa entrevista ao Expresso, trava um braço de ferro com o bispo do Porto desde o último verão. As causas remontam a 2003, quando Roberto Carlos fez uma denúncia interna sobre alegados abusos sexuais a menores por parte de um colega, o padre Abel Maia.

Em 2014, o assunto voltou a ser referido numa carta que enviou ao bispo do Porto, D. António dos Santos, depois de circularem boatos em Canelas de que o pároco seria o autor desses mesmos abusos sexuais. Foi então informado pelo bispo de que iria ser transferido de paróquia e o drama adensou-se. O pároco não aceitou a mudança, argumentando que só iria para outro lugar quando “se fizesse justiça” sobre o seu nome.

O bispo enviou então as denúncias de 2003 ao Ministério Público (MP) que abriu um inquérito. Paralelamente, a Igreja reiniciou uma investigação canónica ao caso. A Justiça civil, soube-se no início da semana, arquivou as denúncias por falta de indícios e prescrição dos factos. E nos últimos dias o nome do padre Roberto Carlos voltou à ribalta.

O MP arquivou as denúncias de alegados abusos sexuais do padre Abel Maia. O que significa para si este desfecho?
Tem havido grande confusão sobre essas denúncias. Fiz a queixa em 2003 aos meus superiores da congregação Dehoniana, a que também pertencia o padre Abel Maia. Tomaram conta do caso e cumpri o meu dever. No ano passado escrevi três cartas ao bispo do Porto, D. António dos Santos, e na última, em setembro, referi-lhe, entre outros assuntos, o caso de 2003. Essa carta foi entregue pelo bispo do Porto ao MP. Não por mim.

Porque referiu na carta um assunto com mais de dez anos?
Em 2014 circulou o boato em Canelas de que eu estivera envolvido num escândalo sexual em 2003. Fiquei perplexo. Pouca gente tinha tido conhecimento do caso. Apercebi-me de que o boato ganhava grandes dimensões e alguém se preparava para o colocar nos jornais. Escrevi a tal carta ao bispo, esclarecendo que estavam a fazer insinuações falsas.

Quem era o autor do boato?
Referi ao bispo que o vigário-geral, o padre António Coelho, e outras pessoas estavam a envolver-me numa história mal contada. Mas as ameaças contra mim vinham de trás, quando em fevereiro desse ano o vigário-geral me ameaçou por causa da estátua do padre Gabriel. Tratava-se de uma homenagem ao falecido padre, feita por alguns dos poderosos da terra. O vigário-geral disse-me para não criar obstáculos aos organizadores. E se os criasse teria problemas. Frisei que não queria fazer parte dela.

E começaram os problemas?
Sim, as ameaças, as difamações: que eu estava envolvido com mulheres casadas, depois com homens, com crianças… Há alguns anos estaria na fogueira da Inquisição.

Fez ou não chantagem ao bispo do Porto nessa carta, dizendo que se o afastassem de Canelas tornaria público o caso do padre Abel Maia?
É tudo mentira. Apenas lhe disse que eu não podia ser acusado de crimes que não tinha cometido. E expliquei: se estes boatos não pararem tenho direito à defesa, e aí terei de tornar isto público. Para que não viesse a público uma notícia sobre algo que não cometi. Esta carta privada foi escrita por mim. Mas foi o bispo que tornou parte do seu conteúdo público.

Estava à espera do despacho de arquivamento do MP?
Sim. Em janeiro fui ouvido pelo DIAP do Porto e disseram-me que as queixas eram muito antigas e que o caso deveria prescrever.

Reitera as denúncias de 2003?
Sim. O facto de o caso prescrever não significa que a pessoa seja inocente.

Como está o processo canónico do caso?
Tenho comigo a inquirição da diocese de Braga, de fevereiro, que revela que em 2003 não foi feita grande coisa para tentar esclarecer a verdade.

Afinal, porque recusou a transferência da paróquia?
Porque queria, antes de mais, justiça.

Sente-se perseguido?
Sim. Sou perseguido pela Igreja. Até por colegas padres.