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Raquel coleciona amantes

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Desde maio do ano passado, Raquel André esteve com 73 “amantes”. O mais novo tinha 20 anos. A mais velha 83

Numa das fotos de promoção do projeto “Coleção de Amantes”, ela surge de lingerie a abrir a porta de um frigorífico. Noutra, está de pijama no chão, com um homem, também de pijama, deitado nas pernas

Setenta e três. Raquel André sabe perfeitamente quantos amantes teve desde que, em maio do ano passado, começou a colecioná-los. São pessoas de todas as origens e idades, do rapazola de 20 anos à avozinha de 83. Nunca se viram até ao dia em que decidiram encontrar-se numa casa qualquer. Dois desconhecidos que, durante uma hora, têm que ficcionar uma intimidade de alguém que se conhece há vários anos.

O momento é fotografado por Raquel, para o juntar depois à sua coleção de "objetos raros", qual caderneta de cromos. Numa das fotos de promoção do projeto, ela surge de lingerie a abrir a porta de um frigorífico. Noutra, está de pijama no chão, com um homem, também de pijama, deitado nas pernas. Houve quem decidisse que intimidade era ler um livro com ela, contar-lhe um segredo ou comerem juntos. E houve quem escolhesse que deveriam ficcionar um carinho, tomarem um banho ou dormirem. Vale tudo em nome da arte? Onde fica a fronteira entre o real e o ficcionado?

"É esse o grande debate: quando fazes isto a ficcionar, estás ou não a fazê-lo?", provoca a colecionadora obsessiva. Mas não é essa a questão que anda na cabeça de muita gente. "Se há sexo? Essa é a pergunta a que nunca vou responder. É o segredo do negócio", diz a atriz, de 29 anos. "É como uma novela: no auge do episódio, dois amantes vão beijar-se depois de quatro anos sem se verem e... zás, termina o episódio! Cenas do próximo capítulo. Isso é o que move as pessoas a interessarem-se pelo projeto", conta.

Raquel André começou a sua "Coleção de Amantes" no âmbito da tese de mestrado sobre o colecionismo nas artes performativas. Destes encontros nascerá um espetáculo que irá à cena do Teatro Nacional Dona Maria II (Lisboa), em setembro, e do Tempo Festival, no Rio de Janeiro, em outubro. Ela estará sozinha em palco, a falar da sua coleção de amantes."Vou misturar histórias reais com histórias ficcionadas, situações que aconteceram nestes encontros com outras que me contaram. O espetáculo vai dar resposta a essa provocação que é o título", explica.

Raquel vive entre Lisboa e o Rio, onde está a realizar o mestrado. Quando um assunto é mais complexo do que parece, os brasileiros dizem que "o buraco é muito mais embaixo". É o que acontece com cada encontro, garante. "Esta coleção é muito mais sobre aquilo que me falta do que sobre os encontros que já tive. Na verdade, é sobre o que andamos à procura quando nos encontramos com alguém."