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Milhões de pessoas no mundo já conversam, riem e amam assim

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É a linguagem que mais depressa cresce em todo o mundo e até já há livros traduzidos em emoji. Não percebe nada disto? Então o melhor é ler este artigo, que nos deu uma trabalheira a fazer

Ninguém gosta mais de mandar corações do que os franceses, como que a fazer jus à fama de incorrigíveis românticos. Já os latino-americanos parecem padecer muito de males de amor e, como se vivessem numa novela, não se cansam de corações partidos. Por cá, também se enviam corações. A duplicar, a bater ou com lacinhos. O coração vermelho é mesmo o símbolo mais usado pelos portugueses. Mas mais do que em qualquer outro país, os portugueses também recorrem a ícones relacionados com drogas (a lista vai de medicamentos, seringas a cigarros). Para os vizinhos do lado, nada como um aceno de hasta luego. E por alguma razão difícil de entender, os canadianos distinguem-se por gostarem da figura de um dejeto sorridente.

Por esta altura, já deve ter percebido que falamos da parafernália de bonecos e símbolos que, nos últimos anos, invadiu SMS, tweets, posts e emails. A Swiftkey, uma empresa que produz aplicações de teclados digitais para smartphones e que tem acesso à maior base de utilização de emojis (é este o nome técnico), analisou 1,5 mil milhões de símbolos utilizados por falantes de 31 línguas espalhadas pelo mundo. Para concluir que esta é uma nova linguagem universal, mas que, tal como nos costumes e modos de ser, tem especificidades regionais.

“Os emojis tornaram-se, talvez, a forma de comunicação, que cresceu mais rapidamente em toda a história”, afirma Vyvyan Evans, professor de Linguística na Universidade de Bangor (Reino Unido) e que tem estudado esta linguagem, criada no Japão no final dos anos 90 e que acabou por se estender ao resto do mundo. Nos anos mais recentes, foi potenciada pelos smartphones que passaram a incluir emojis nos teclados. Evans chama-lhes “hieróglifos modernos”. Na verdade, não são mais do que ícones que representam ideias, sentimentos, estados de espírito, eventos ou atividades.

Ao todo existem mais de 800 emojis, certificados pelo Unicode, um consórcio de grandes empresas do mundo digital, que decide quais os símbolos oficiais, após um longo processo de análise. É como se fosse uma espécie de regulador internacional desta linguagem. Que nem que fosse pelo número limitado de ‘palavras’ e ausência de tempos verbais ou regras gramaticais, está longe de poder substituir os alfabetos existentes.

“Este tipo de ícones começou a ser usado para suprir as insuficiências que a escrita tem. A pontuação não consegue dar conta de todas as emoções que queremos colocar naquilo que dizemos e que queremos que o nosso interlocutor entenda. Sobretudo em mensagens muito curtas. Na linguagem oral, a duração, a altura, a musicalidade cumprem essa função. Na escrita é mais difícil”, explica Inês Duarte, professora da Faculdade de Letras de Lisboa.

Curiosamente, sublinha Inês Duarte, foi a partir da combinação de três sinais de pontuação — dois pontos, travessão, parêntesis — que surgiram os primeiros emoticons (distinguem-se dos emojis por poderem ser feitos utilizando um teclado clássico), e que formam os omnipresentes smiles. “Um professor de Informática propôs que esse fosse o sinal para indicar que o que foi escrito se tratava de uma brincadeira e acabou por ser universalmente aceite. Uma experiência científica concluiu que a área do cérebro onde se processa o reconhecimento destes bonecos é a mesma onde se processa o reconhecimento dos rostos.”

A verdade é que esta é uma forma de comunicação que não esbarra em fronteiras nem em idiomas. Um coração é amor, uns confetti a sair de uma pinhata são uma festa, três zês valem para dormir. É assim em qualquer parte do mundo — se tiver dúvidas e não quiser correr o risco de ser mal interpretado pode consultar o dicionário online de emojis em www.emojipedia.org. A preocupação em chegar a todo o lado é tal que o Unicode sentiu necessidade de diversificar os bonecos originais, todos com ar caucasiano, e passou a integrar vários tons de pele, do mais pálido ao mais escuro. E incluiu casais do mesmo sexo.

Os números dão conta do sucesso. Num inquérito da Talk Talk Mobile a dois mil residentes no Reino Unido, mais de 80% disseram usar regularmente os símbolos coloridos. Os maiores adeptos têm entre 18 e 25 anos. E 72% destes assumiram que é mais fácil expressar as emoções recorrendo aos emojis, sublinha Vyvyan Evans. Outros números impressionantes são os que se podem ver no contador em tempo real dos emojis que estão a ser usados no Twitter (emojitracker.com): a cara que chora de tanto rir é de longe a mais popular com números a ultrapassar os 800 milhões. Na rede social do Instagram, 40% dos textos publicados têm estes ícones.

Talvez por isso, multiplicam-se as (tentativas) de tradução de textos. Já o fizeram com o clássico “Moby Dick” (adaptado para “Emoji Dick”) e mais recentemente com o discurso do Estado da Nação de Obama. A ministra australiana dos Negócios Estrangeiros deu ao site “Buzzfeed” aquela que terá sido a primeira entrevista política em emojis. E o próximo destino será Hollywood, com a Sony a anunciar um filme de animação sobre os bonecos amarelos.

Os mais críticos falam em “infantilização” da comunicação, por causa de todos os corações, macaquinhos e até cocós. Inês Duarte tem outra opinião: “Desde os primeiros poemas visuais de há mais de dois mil anos, passando pela publicidade, até aos livros de BD, que há combinações da escrita com linguagem visual. É recorrente. E nunca ninguém se preocupou com a possibilidade de infantilização ou empobrecimento da escrita.”

O facto é que, tal como está escrito no título desta peça, há milhões de pessoas no mundo que falam, riem e amam assim. E muitas mais o farão no futuro: “Acredito que os emojis vão invadir a comunicação digital também em contextos profissionais, como e-mails de trabalho”, prevê Vyvyan Evans.

com Sofia Miguel Rosa

MÁRIO JOÃO