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Bordallo dá vida a figurões do cartoonista António

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São em barro as novas caricaturas do cartoonista António, feitas pela Fábrica Bordallo Pinheiro

LUÍS BARRA

Fábrica desafiou, António aceitou: fazer peças de cerâmica de figuras ou personalidades atuais, na linha que consagrou o grande Rafael Bordallo Pinheiro

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

Do desafio resultaram para já cinco peças: Mário Soares, Eusébio, o Papa Francisco, Angela Merkel e Barack Obama. Cada um no seu estilo, mais mordazes e irreverentes uns, maldosos mesmo, ou mais simpáticos e abrangentes. Todas são caricaturas e quando feitas em cerâmica, mais complexas ainda: “Têm de ser a caricatura da caricatura”, a síntese perfeita do retratado, resume António, o cartoonista.

No ano em que fez 100 anos da morte do grande artista-humorista-jornalista-caricaturista, a equipa da fábrica quis assinalar a efeméride com uma homenagem: encontrar “o cartoonista mais bordaliano da atualidade” e propor-lhe criar, em figurões atuais, os figurões que Rafael Bordallo Pinheiro tão bem retratou. E foi assim que a escolha recaiu em António, que aceitou a proposta como “uma aventura”.

A fábrica, agora, está a trabalhar em pleno. A saída para as lojas já se iniciou, depois da exposição feita na “casa dos figurões“ – a Assembleia da República, pois claro, para usar a expressão do próprio António. As peças estarão sempre em linha, embora não em produção industrial. Os preços variam entre os cerca de 170 e os 240 euros.

Um exemplar de Obama-borboleta em artes finais

Um exemplar de Obama-borboleta em artes finais

LUÍS BARRA

A complexidade técnica é muita e a Bordallo teve de disponibilizar todos os recursos para esta empreitada. Cada peça foi moldada em barro pelo próprio António, a qual, depois de reproduzida em moldes – um verdadeiro “kit” de peças – há de ser montada, cozida no forno várias vezes, finalmente pintada, a vidrado ou a frio, a última etapa antes de sair para o escaparate. E se é complicado!

Nelson, de 41 anos, um dos principais pintores a frio da fábrica (é ele que costuma pintar o icónico Zé Povinho), pinta com mil minúcias o recorte das gengivas de Obama, um pormenor de esmero. Nada pode borrar sobre os seus dentes cintilantes (do vidrado), as orelhas gigantes que fazem dele uma borboleta toda-ouvidos.

A evocação de Bordallo

António não perdoa, evoca assim o escândalo das escutas da National Security Agency (NSA), que Eduard Snowden revelou ao mundo. Esta borboleta de orelhas-asas também se pode pendurar na parede, lembrando irresistivelmente uma outra peça, mas do próprio Bordallo, as orelhas “As paredes têm ouvidos”.

Uma coincidência, seguramente, porque este Obama-borboleta já tinha sido retratado tal qual, mas num cartoon que António publicou em 2013 no Expresso. Ou foi inspiração? Afinal, é o próprio António que reconhece que o genial Rafael “nos marcou a todos (a eles, os artistas)”.

Na fábrica Bordallo trabalha-se em pleno nas caricaturas de António

Na fábrica Bordallo trabalha-se em pleno nas caricaturas de António

Luis Barra

Mário Soares é outra peça de requinte – e de pequenina maldade, convenha-se. O homem que melhor simboliza o cravo da democracia do 25 de Abril, também se protege com ele. Nelson também o pintou a frio, mais de uma hora, diz, só no detalhe do rosto e das bochechas, um sem-fim de tons de pele. Antes de lhe passar para as mãos, tem de ser pintado a vidrado, onde as cores não são as que vemos mas as que a ceramista combina, numa obra de mestre, saber, experiência e paciência.

É assim com esta Merkel também. Célia Tomás, a pintora, dá-lhe os toques de vidrado, é preciso cuidado para que nada borre. De entre todas, é talvez a peça mais cáustica de António, que apurou nos pormenores: no vestido azul da Baviera debruado a estrelas da União Europeia, na águia imperial que segura no braço, mas cujo capuz é encimado pelo bico do capacete do kaizer – tal como, se repararmos bem, o corte de cabelo da chanceler evoca um capacete nazi.

Caricaturas de Eusébio em lista de espera para serem acabadas de pintar

Caricaturas de Eusébio em lista de espera para serem acabadas de pintar

LUÍS BARRA

Sobram as figuras mais simpáticas e abrangentes: o grande Eusébio, de asas de anjo (logo ele, que tão pouco o foi!) mas que transportam o sonho de um país com o mundo a seus pés, sob a forma de uma bola de futebol. E, finalmente, Francisco, o Papa guarda-redes, com luvas, chuteiras e calções de jogador, sob a a indumentária papal.

Foi a paixão incomum pelo futebol do cardeal argentino Bergoglio que chamou a atenção de António. Mas, como diz João Quadros, que escreve um texto sobre ele, “faz todo o sentido convocar um Papa para a baliza”. Também podia ser ponta-de- lança: “É um falso rápido, não adorna as jogadas, mas cria muito jogo sem sair do mesmo lugar”.