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Um homem muito feliz não basta

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Relatório internacional sobre a felicidade em vários países garante que a desigualdade entristece

Marcos Borga

Um instituto dinamarquês publicou um relatório internacional sobre os níveis de felicidade em vários países e concluiu que, quanto mais assimétrico é o sentimento de satisfação entre as pessoas, mais infeliz será a totalidade da população.

A Finlândia foi o campeão da investigação desenvolvida pelo think tank com o óbvio nome de Instituto da Felicidade (IF). Portugal aparece num modesto 15º lugar de um ranking com 29 Estados. Os piores resultados vêm do Leste da Europa — Albânia, Bulgária, Kosovo, Ucrânia e Hungria —, mas a Grécia não foi incluída na pesquisa por falta de dados disponíveis.

Mais do que apenas ordenar os níveis de felicidade dos países, o estudo dinamarquês sublinha a importância de o sentimento de satisfação ser distribuído pela maioria das pessoas de forma semelhante. E, apresentada a conclusão, o IF reconhece que o assunto terá de ser investigado de forma mais aprofundada, porque “ainda não é possível determinar se é a felicidade que leva à igualdade ou se é a igualdade que causa a felicidade”.

O que o relatório a que o Expresso teve acesso explica é que, para se conhecer o nível de felicidade de uma população, não basta encontrar uma minoria de pessoas que assuma estar excecionalmente satisfeita, nem criar uma fórmula que calcule um valor médio para a felicidade nacional. O que realmente interessa, defende o IF, é saber quantas pessoas fogem à média. Ou seja, quanto mais próximo de zero for o resultado obtido, menos discrepâncias existirão entre os inquiridos. E mais feliz será a população daquele país. “A desigualdade causa crime, distúrbios sociais e até mesmo conflitos armados”, garante Meik Wiking, presidente-executivo do IF, sublinhando no relatório que, “para aferir a satisfação de uma população, é preciso ir além da perspetiva exclusivamente económica”.

Esta certeza não é nova, apenas ainda não tinha sido aplicada, de forma tão direta, aos estudos sociológicos sobre a felicidade. Há mais de um século, o estatístico italiano Conrado Gini percebeu que era necessário medir e analisar as implicações da desigualdade económica, tendo criado um índice com o seu próprio nome para quantificar as disparidades na distribuição do rendimento. E, inspirado nesta ideia, o IF — uma instituição financiada pelo Governo central, autarquias e organizações filantrópicas dinamarquesas — criou agora o ‘Índice de Igualdade da Felicidade’. Trabalho que foi desenvolvido por uma equipa composta por economistas, sociólogos, filósofos, antropólogos, cientistas políticos e designers.

Foto D.R.

Moda da felicidade

“A medição do bem-estar subjetivo tornou-se mais importante a partir do momento em que se percebeu que o conceito de produto interno bruto (PIB) era insuficiente para avaliar a satisfação das populações. E, para um político, os estudos sobre o sentimento de bem-estar e de satisfação das pessoas deveriam ser uma importante ferramenta no momento de tomar decisões, mas até agora os rankings da felicidade não têm passado de mero show-off”, avalia Rui Brites, sociólogo e especialista na investigação deste tema.

O culpado pela transformação da felicidade numa média para avaliar os estados de alma dos cidadãos de um país foi Nicolas Sarkozy. Presidente de França em 2009 — um ano após a falência do banco norte-americano Lehman Brothers, que simbolicamente marca a entrada do mundo numa grave crise económico-financeira — convocou dois prémios Nobel de Economia (Joseph Stiglitz e Armartya Sen) para integrar as estatísticas económicas e o conceito de qualidade de vida.

Desde então, a avaliação dos níveis de felicidade nos Estados entrou na moda. Multiplicam-se os relatórios e as entidades promotoras de estudos internacionais e há até um Banco de Dados Mundial da Felicidade, organização sedeada na Holanda, que agrega todo o conhecimento científico existente sobre o tema, a cargo do sociólogo Ruut Veenhoven.

Atualmente, o World Hapiness Report, produzido pelas Nações Unidas, mede a satisfação das populações de 158 países. Neste estudo são levados em conta uma série de indicadores, que vão para lá das fronteiras da análise económica. Questiona-se como as pessoas percecionam a corrupção, a liberdade de escolha ou a expectativa de vida. Na Europa produz-se o Relatório Social Europeu, que avalia anualmente as condições de vida e vai além da questão da felicidade, sem, contudo, a deixar de fora. E foram estes os dados utilizados pelo instituto dinamarquês para produzir o novo relatório sobre a distribuição da felicidade.

Mas foi na ONU que o Rei do Butão — um pequeno reino localizado nos Himalaias — conquistou notoriedade ao defender a utilização do conceito de ‘felicidade nacional bruta’ como estatística oficial, em lugar do produto interno bruto e decretou o seu como o país mais feliz do mundo. Em 2013, também por sugestão do Butão, passou a celebrar-se o Dia Internacional da Felicidade, depois de a iniciativa ter sido aprovada por unanimidade nas Nações Unidas, um ano antes.

Estudar fica caro

Apesar de reconhecer a falta de consequências destas análises, o sociólogo Rui Brites defende a sua realização. Diz, por exemplo que, atualmente, a Grécia, devia ser “um caso de estudo muito importante, devido à crise”. O investigador explica, no entanto, que a recolha de dados para a preparação do Relatório Social Europeu é responsabilidade dos Governos de cada país e que os gregos deixaram de financiar as pesquisas. Em Portugal, o financiamento de cerca de 130 mil euros/ano vem da Fundação para a Ciência e Tecnologia, mas a existência de problemas na recolha de informações, irá atrasar a publicação dos números nacionais este ano.

as a moda de avaliar a felicidade não abranda. Brites foi contactado por instituições brasileiras que pediram ajuda a Portugal para desenvolver um trabalho neste âmbito.

Quanto à falta de surpresas nos resultados obtidos pelas várias pesquisas, que colocam sempre os países do Norte da Europa no topo das tabelas, não se mostra surpreendido. “Um dos fatores determinantes é a questão da confiança nas instituições e nos outros cidadãos e estas populações têm profunda crença no sistema. Pagam elevados impostos porque sabem que terão retorno”, explica Rui Brites. “A perceção do próprio bem-estar e a noção de que os países vizinhos têm situações inferiores, sustentam a tendência dos nórdicos em responder afirmativamente quando questionados sobre a sua satisfação”, conclui.