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Carga rápida na estrada até ao final do ano

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Preveem-se 49 postos de carregamento rápido para carros elétricos. Apenas 58 dos 187 vendidos até maio beneficiaram da fiscalidade verde

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Finalmente as “fichas” vão sair dos armazéns onde têm estado fechadas. O ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, anunciou ao Expresso que, até ao final do ano, serão instaladas 49 estações de carregamento elétrico rápido — 15 em cidades e 34 em autoestradas — de norte a sul do país.

O objetivo é ter pontos que permitam carga em 30 minutos e não em seis ou sete horas como os convencionais, e que não distem mais de 50 quilómetros uns dos outros, tendo em conta que a maioria destes veículos não tem autonomia para mais de 100 quilómetros. Assim, diz o ministro, “passa a ser possível ir de Vila Real de Santo António a Bragança ou de Lisboa a Castelo Branco sem correr o risco de ficar pelo caminho”.

Os 49 pontos resultarão da reconversão de postos de Mobi.E convencionais já instalados, “seguindo uma estratégia de liberalizar a rede de carregamento na via pública, transferindo para as câmaras municipais e para estações de serviço a gestão e manutenção”, explica o ministro (ver entrevista nesta página). Atualmente há 1074 pontos Mobi.E no país, pouco distribuídos pelo país e em estado degradado ou desativado.

Os proprietários e os vendedores deste tipo de veículos amigos do ambiente consideram a medida positiva. “É pena é terem precisado de quatro anos para anunciá-la”, afirma Guilherme Castro, diretor da Mitsubishi. “Os postos de carregamento rápido estiveram em banho-maria nos últimos três anos”, reforça António Pereira Joaquim, da Nissan, lembrando que para dinamizar o mercado destes automóveis “não bastam as medidas da fiscalidade verde introduzidas no início do ano”.

Com eleições legislativas a 4 de outubro, ver-se-á o que acontece a seguir. Para já, sabe-se que o programa político do PS prevê “reabilitar e redimensionar” a rede Mobi.E, “travada a fundo por preconceito político”.

Apesar de as vendas de veículos elétricos e híbridos plug-in ter mais do que duplicado nos primeiros cinco meses de 2015, face ao período homólogo — até maio venderam-se 187 elétricos ligeiros e 100 híbridos plug-in, o que representa um aumento de 145% e 285% respetivamente — atualmente, estes automóveis pesam pouco mais de 0,3% nas vendas em Portugal. E segundo a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), estes valores correspondem a metade do registado na União Europeia (0,7%). Num parque automóvel com 4,5 milhões de veículos, apenas existem perto de 900 elétricos, 500 híbridos plug-in e 15 mil híbridos convencionais (estes são carregados por motor de explosão e não por ligação à corrente).

€257 mil em incentivos

“O mercado nacional de veículos elétricos e híbridos tem registado um crescimento assinalável, em linha com o observado na União Europeia, mas o peso de venda destes veículos em Portugal é ainda metade do da UE”, afirma o presidente da ACAP, Helder Pedro.

A nova fiscalidade verde, em vigor desde janeiro, permite colocar um veículo em fim de vida para abate em local certificado e comprar um elétrico novo, beneficiando da devolução de €4500 sobre o preço-base. Enquanto que a compra de um híbrido plug-in concede uma redução de €3250 no imposto sobre veículos.

Até agora a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) analisou 80 pedidos de incentivo ao abate em 187 elétricos vendidos de janeiro a final de maio e pagou €257.500 relativos a 58 processos. Está em vias de pagar mais €45 mil, relativos a outros 10 pedidos, indica fonte oficial desta entidade tutelada pelo Ministério do Ambiente. Já as contas da Autoridade Tributária, relacionadas com o incentivo aplicado nos híbridos plug-in, estão por esclarecer. O Ministério das Finanças não deu qualquer resposta ao Expresso até ao fecho da edição.

E contribuíram os incentivos da fiscalidade verde para o salto nas vendas? “A efetividade destas medidas é reduzida”, considera Helder Pedro, uma vez que “a burocracia e as dificuldades de acesso dos consumidores aos incentivos geridos pela APA representam um obstáculo ao crescimento do mercado”. Quanto aos incentivos à aquisição de híbridos plug-in, “o valor é muito reduzido e os consumidores acabam por não encontrar vantagem no programa”. Segundo o presidente da ACAP, os incentivos relacionados com a tributação autónoma e o IVA “são dirigidos às empresas, que estão gradualmente a tomar consciência das vantagens da mobilidade elétrica em termos de economia de custos operacionais”.

Empresas beneficiam

A ideia de que estes “incentivos beneficiam sobretudo as empresas, que representam 90% dos compradores em Portugal” é igualmente sublinhada por Guilherme Castro, diretor da Mitsubishi. Porém, “são sempre valores simbólicos e diferidos no tempo, com impacto no próximo ano”. Guilherme Castro adverte também para “o receio de algumas empresas de que a lei seja alterada com a mudança de Governo” e para “a falta de sensibilização dos empresários para as questões ambientais e as alterações climáticas”.

Os transportes, sobretudo os individuais, continuam a ser os principais responsáveis pelo aumento das emissões de gases com efeito de estufa, contribuindo para 33% do consumo de energia. Por isso, Mafalda Sousa da associação ambientalista Quercus, sublinha que “falta as pessoas mudarem de mentalidade no uso do automóvel, já que a nossa frota é dominada pelo gasóleo altamente poluente, e perceberem que os elétricos têm emissões praticamente zero, porque a energia é de origem renovável”.

Admitindo que “o efeito da fiscalidade verde é difícil de quantificar”, António Pereira Joaquim, da Nissan (líder mundial nos veículos 100% elétricos), considera que “a estratégia do Governo na mobilidade elétrica teve efeitos positivos” e que “estamos a assistir a uma transição no tipo de consumidor: dos entusiastas pioneiros àqueles para quem esta solução é uma escolha racional, que representa uma economia real e substancial”. O diretor da Nissan lembra também que “não podemos ter uma verdadeira mobilidade elétrica sem uma rede de carregamento capaz de dar resposta às necessidades”. Só é preciso é ter cuidado com o uso abusivo da carga rápida pois pode viciar as baterias.