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O filho morreu de cancro e o pai dedicou-lhe um videojogo

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Tinha 12 meses quando lhe foi diagnosticado o primeiro tumor. Depois de ter vencido dez, sucumbiu ao cancro. Joel Green pode ter partido, mas o seu pai imortalizou a sua vida e a sua batalha. Num videojogo, que sairá ainda este ano

A personagem está sentada num quarto de hospital, tal como Ryan Green - autor do videojogo - se sentou. No seu rosto não há expressões, cabe ao jogador perscrutar o que o pai sentiu, sozinho num hospital, ouvindo apenas o suave “beep” das máquinas e os gritos de dor do filho que não aguentava mais os tratamentos. O jogador pode premir um botão para fazer o bebé parar de chorar ou um botão para fugir, mas não há nenhum que funcione.

Uma história, um jogo de sobrevivência

Há histórias que não têm um fim feliz. A motivação para “That Dragon Cancer” nasceu de uma dessas histórias. Quando Joel Green, com apenas 12 meses, foi diagnosticado com um tumor teratóide rabdíde atípico - uma forma de cancro rara, degenerativa e agressiva - as chances de sobrevivência eram quase nenhumas. Então o pai decidiu fazer o que melhor sabe para lidar com a doença do filho: um videojogo.

“That Dragon Cancer” não é um jogo para escapar ou para viver fantasias. É um convite para todos os que queiram partilhar o que foi e é estar no lugar de Ryan Green.

Iniciado em 2013, altura em que Joel tinha quatro anos, “That Dragon Cancer” ainda hoje está a ser desenvolvido. A criança que o inspirou veio a morrer em março de 2014, depois de perder a batalha contra a doença.

Na demonstração do videojogo que está disponível ao público, as cenas mostram vislumbres da vida intima de uma família. Não há níveis. Existem memórias, vozes, momentos, dias de uma família que procura juntar os pedaços de uma vida que se parece mais com um sonho, por vezes com um pesadelo, mas que qualquer jogador pode experienciar.

A história de Joel em filme

Ainda com Joel vivo, na Primavera de 2013, Malika Zouhali-Worral e David Osit dirigiram-se à casa dos Green no Colorado. Queriam realizar um filme sobre a criança e o projeto de Ryan. Chamaram-lhe “Thank You For Playing”, um documentário que se cruza em verso com o jogo de Ryan e conta outra perspetiva da história de Joel.

Em entrevista à “New Yorker", os realizadores falaram da sua experiência ao filmar “Thank You For Playing”: “Os Green deram-nos acesso ilimitado durante meses. Algumas cenas são confortavelmente mundanas: almoços e jantares, sessões de captura de som para o jogo. Outras são inimagináveis: as intervenções médicas invasivas, as duras conversas entre pai e mãe consumidos por desgosto”.

Na opinião dos realizadores, o documentário serviu para difundir as mensagens dos Green, para melhor partilharem com o mundo a sua experiência.

O documentário mistura os momentos comoventes, engraçados, tristes e de certa forma existencialistas da vida da família Green. A câmara encontra-se sempre presente, focada em Joel e Ryan, acompanhando o processo metódico pelo qual o pai capta cada som, gargalhada, cada evento da vida do filho. Memoriza com câmaras, com gravadores, cada memória, cada lugar, cada dia para que os possa recriar no mundo digital. A lente de Osit e Zouhail-Worral grava silenciosamente o trabalho permanente de uma família que sabe que não pode ganhar.

O filme não tem, por enquanto, data marcada para estreia nos cinemas portugueses.

Uma história, um conto de esperança

Quando Joel morreu, o foco do jogo mudou. Este não podia ser só um jogo de sobrevivência, partilhou o pai. Para Green, teria de ser “um jogo de aventura que fosse poético, cheio de imaginação e de esperança. É assim que escolhemos honrá-lo e à sua memória”.

Segundo Ryan Green, “decidimos fazer com que o jogo fosse mais sobre como era estar com Joel e viver com ele, em vez de mostrar simplesmente a batalha contra o cancro”.

“Quero mostrar às pessoas como o Joel dançava, como cantava, como se dava com os irmãos, o afeto que nós tínhamos por ele e ele por nós. Acho que o meu desejo é um: que os jogadores gostem tanto do meu filho como eu gostei”, completou Ryan.

“That Dragon, Cancer” inclui agora vários segmentos imaginados misturados com recriações de momentos reais. Nestes episódios, Joel é um cavaleiro enfrentando um dragão. São estas cenas que celebram a vida de Joel, mais do que a sua batalha, e o lembram não como uma vítima, mas como um herói.

O jogo deverá sair ainda em 2015.