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Da lixeira para o sótão: 155 esqueletos ímpares no mundo encaixotados em Coimbra

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Tiago Miranda

Coleção única no mundo está há seis anos armazenada numa casa em Coimbra e corre o risco de nunca ser mostrada aos portugueses. Apenas investigadores têm acesso ao material, que revela como eram tratados os primeiros escravos negros a chegar a Portugal. Mas há quem considere a coleção demasiado chocante

Numa rua residencial de Coimbra passa-se pela moradia sem a identificar. Tão discreta é a casa que não se para à primeira. Encontrado o destino, os visitantes são recebidos à porta e levados até ao sótão.O sol entra pela claraboia e incide no crânio de uma mulher de origem africana, com 600 anos. Ao lado, na mesa, um copo de vidro com as escovas de dentes usadas pelos investigadores para limpar os ossos. Empilhadas no chão, dezenas de grades, repletas de saquinhos de plástico transparentes, cheios de fragmentos ósseos devidamente identificados.

Em 2009 foram encontrados em Lagos, no Algarve, os esqueletos de 155 homens, mulheres e crianças, revelando o mais antigo espaço já identificado no mundo e o único na Europa com aquelas características. Ou seja, uma lixeira onde foram depositados há seis séculos os corpos de escravos africanos. Hoje, o terreno está ocupado por um estacionamento e um minigolfe e é alvo de divergências entre a autarquia e historiadores. E as ossadas foram enviadas para Coimbra para serem estudadas.

Tudo começou porque a Câmara de Lagos decidiu construir um estacionamento subterrâneo nas imediações das muralhas quinhentistas da cidade. A zona era conhecida como Vale da Gafaria e era previsível que ali fosse encontrado um cemitério de doentes com lepra, ou gafos, como eram então chamados. Mas, no século XV, Lagos foi um dos centros económicos mais relevantes no comércio associado aos Descobrimentos, o maior mercado de escravos em Portugal e um ponto de apoio às incursões militares em África. Os primeiros escravos a chegar desembarcaram na cidade em 1444 e os historiadores estimam que, em meados do século XVI, existissem no Algarve cerca de seis mil escravos, o equivalente a 10% da população da altura.

Talvez por isso, no terreno de quatro mil metros quadrados foram descobertos, misturados com lixo, 99 adultos e 56 esqueletos de indivíduos com menos de 20 anos. Maria Teresa Ferreira, professora na Universidade de Coimbra que participou nas escavações preventivas, ainda recorda o susto da equipa de arqueólogos e antropólogos quando uma máquina levantou um crânio do chão. "Há algo de errado, não é de um português", gritou a investigadora, assim que olhou para os ossos.

Tiago Miranda

Da lixeira para o sótão

Passados seis anos, os ossos estão nas instalações da Dryas Arqueologia, em Coimbra, empresa responsável pela escavação em Lagos, à guarda dos investigadores que participaram na descoberta. É lá que continuam a estudar a coleção e, juntamente com uma equipa da Universidade de Coimbra, recebem os académicos nacionais e estrangeiros que querem analisar a coleção.

Os esqueletos pertencem a escravos traficados para Lagos entre os séculos XV e XVI, que, quando morriam, eram "simplesmente descartados e depois cobertos por lixo", explica Maria Teresa Ferreira. Há corpos que revelam algum cuidado na deposição, reproduzindo posições mortuárias tipicamente africanas e até uma mulher com um bebé de cerca de 40 semanas nos braços. Mas há esqueletos que indiciam terem sido abandonados ainda amarrados.

As análises caracterizaram a idade de morte dos indivíduos, o sexo e os "marcadores de stresse fisiológico", que, como explica a investigadora, são "lesões esqueléticas que testemunham períodos de carência de nutrientes", porque muitos revelam problemas de crescimento relacionados com fome ou alimentação deficiente. Análises morfológicas, métricas e genéticas comprovaram que a maior parte dos adultos (92%) morreu com menos de 40 anos e que, dos mais jovens, 29,4% teriam no máximo nove anos.

Confrontada com o valor da coleção, Maria Teresa Ferreira desabafa: "Merecia ter mais verbas para ser estudada. Estou orgulhosa do que conseguimos fazer, mas o que foi feito foi por amor à camisola e com financiamentos estrangeiros". De verbas nacionais, apenas um apoio inicial recebido da Fundação Gulbenkian. A arqueóloga Maria João Neves participou nas escavações e sublinha que o material é "ímpar no mundo", discordando do destino dado ao terreno: "Quem lá esteve ficou com a sensação de que ali se cometeram crimes contra a humanidade."

Insatisfeita está também Isabel de Castro Henriques, historiadora e representante em Portugal da UNESCO no projeto Rota dos Escravos. A especialista chegou a assinar um protocolo com a Câmara de Lagos para a criação na cidade de um Museu da Escravatura e um memorial no local onde as ossadas foram encontradas. Há cerca de um ano, discordou da decisão da autarquia de concessionar o terreno para a construção de um minigolfe. "Inicialmente, estava previsto o memorial, o museu e um centro de estudos sobre a escravatura", explica.

Tiago Miranda

Museu sim, museu não

A vereadora da Cultura de Lagos diz que o projeto do minigolfe foi herança do anterior executivo e assume que o protocolo com a historiadora "não foi cumprido". Mas Maria Fernanda Afonso afirma ser "completamente inviável alterar a situação", embora avance com a possibilidade de construir o memorial num terreno ao lado do minigolfe. Garante que o núcleo museológico está praticamente pronto no edifício da antiga alfândega. O conteúdo das exposições não está, contudo, acordado com Isabel de Castro Henriques, que diz que o projeto terá sempre de contar com o seu parecer.

Seja qual for a conclusão, Maria Fernanda Afonso garante que a autarquia não vai expor os esqueletos por considerar a coleção demasiado chocante: "É um tema muito sensível. As ossadas serão entregues à Universidade de Coimbra". Para o historiador Diogo Ramada Curto, "os vestígios materiais do tráfico e do modo de tratamento dos escravos nas sociedades do Atlântico não abundam. Por isso, a criação de um museu a partir dos 155 esqueletos é um objetivo que deverá ser concretizado". O diretor da coleção "História e Sociedade" diz ainda que "fazer de Lagos e do Museu da Escravatura um centro de reflexão, onde se cruzam histórias de África, Europa e das Américas, seria uma forma de projetar internacionalmente a cidade".

João Pedro Marques, historiador, defende que as ossadas deveriam ser reunidas num núcleo museológico, sublinhando que já existem museus da escravatura em cidades com importância na história do tráfico negreiro, como Bristol, Liverpool ou Nantes. No Rio de Janeiro existe um memorial onde estão expostos fragmentos de ossos encontrados num espaço semelhante ao algarvio, e em Nova Iorque as ossadas de escravos descobertas foram estudadas e reenterradas no mesmo local, com a proibição de voltarem a ser mexidas.

Maria Teresa Ferreira, antropóloga que participou nas escavações de Lagos, afirma que "a execução do museu seria muito relevante para a prossecução do acervo do Vale da Gafaria, enquanto polo dinamizador para novos projetos científicos e de divulgação dos achados na zona". Mas, para já, os esqueletos permanecem no sótão de uma casa discreta em Coimbra.