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“Sócrates não foi decisivo em nada”

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Marcos Borga

Entrevista a Joaquim Paulo da Conceição, presidente do Grupo Lena

É a primeira entrevista que Joaquim Paulo da Conceição dá a um órgão de comunicação nacional depois de José Sócrates e de o seu amigo Carlos Santos Silva terem sido detidos por suspeitas de corrupção. Ouvido há três semanas como testemunha pelo Ministério Público, o presidente do Grupo Lena refuta a tese de que este conglomerado de empresas de construção tenha sido beneficiado pelo ex-primeiro-ministro. O Expresso foi recebido no edifício-sede da Quinta da Sardinha, uma aldeia nos arredores de Leiria. A 200 metros dali, um dos donos do grupo, Joaquim Barroca Rodrigues, também suspeito de corrupção, continua em prisão domiciliária.

O Grupo Lena está com quatro mil milhões de euros de obras em carteira, mas apenas 1% dizem respeito a Portugal. Algum desse sucesso lá fora se deve a José Sócrates?

Não, de maneira nenhuma.

Refiro-me ao contributo enquanto primeiro-ministro para a internacionalização do grupo, ao abrir portas...

O engenheiro José Sócrates teve um papel importante na diplomacia económica do nosso país. Há governantes que têm perfil para isso e outros que nem por isso. O dr. Paulo Portas também tem esse perfil. Esse é um dos papéis principais que um governante deve ter, agarrar as competências que existem no país e promovê-las lá fora.

Não é verdade que um ano antes de Sócrates ter sido eleito primeiro-ministro o peso dos mercados internacionais na faturação do grupo era apenas de 3,5%?

Essa abordagem aborrece-nos. Porque põe em causa as competências dos trabalhadores do Grupo Lena. Antes da chegada do engenheiro Sócrates [a primeiro-ministro], a Lena já era um grande grupo. Há uma falácia que se criou, e que temos de desmontar de uma vez por todas, de que a Lena era uma empresa do regime. Com base nos dados da AECOPS, a associação do sector, nos sete anos antes de Sócrates o grupo teve 2,93% de todas as adjudicações de obras públicas. E nos sete anos de Sócrates teve 2,54%. Tivemos meio por cento a menos de quota no tempo de Sócrates, o que significou menos 100 milhões de euros. Só por maldade é que podem dizer que antes de José Sócrates o Grupo Lena era uma pequena empresa de província.

Li que a Lena foi o grupo com o maior volume de obras para a Parque Escolar, com 138 milhões de euros.

Os dados do Portal Base não estão completos e têm de ser cruzados com os dados da AECOPS. A Lena aparece em quinto lugar nas obras da Parque Escolar [no ranking dos grupos de construção mais beneficiados]. E nas PPP aparece em 16º, com 1,9% das concessões. Quando somos a terceira ou a quarta maior construtora em Portugal.

E na Venezuela? Sócrates foi ou não decisivo para convencer Hugo Chávez a fazer um acordo no valor de três mil milhões de dólares com o Grupo Lena para a construção de 50 mil casas?

Sócrates não foi decisivo em nada. Que o homem fez o seu trabalho de diplomacia económica para mais de 100 empresas que apareceram na Venezuela, fez. Mas o trabalho e a capacidade de inovação foram nossos. Além do mais, dos projetos de obras públicas que havia disponíveis, a Lena ficou com a habitação social, que é o parente pobre da construção em qualquer país do mundo. É uma construção subsidiada que parte de um preço extremamente baixo. Houve alguém que ficou com portos, alguém que ficou com estradas, e nós ficámos com as casinhas. Mas inventámos um processo novo. Quisemos ensiná-los a fazer casinhas rapidamente, com um projeto construtivo inovador. Foi essa competência que permitiu fechar esse negócio. E assinar um contrato de 12.500 casas durante o Governo do engenheiro Sócrates e mais dois contratos de 12.500 já com o dr. Paulo Portas.

Que papel teve Carlos Santos Silva nesse negócio?

Teve um papel fundamental. É o dono da empresa, a Proengel, que construiu todo o projeto connosco. Foi muito importante na operação e no trabalho efetivamente feito.

E na angariação do contrato?

Teve um papel técnico com o Joaquim Barroca Rodrigues [dono do grupo e na altura presidente executivo da Lena Engenharia e Construções]. Quando se vai para uma negociação, tem de se levar um projeto. Um croqui. E foi sempre ele que esteve na charneira, desde o início. Esse é um papel que Carlos Santos Silva tem com o Grupo Lena há 30 anos. É um tipo muito inteligente.

Quando Santos Silva foi detido, no entanto, fez questão de afirmar que ele não trabalhava no grupo.

E é verdade.


Santos Silva é administrador de uma empresa detida pelos donos do grupo e responsável por angariar obras lá fora para o grupo. Isso não significa que ele trabalha no grupo?

É uma empresa dos donos do grupo e do próprio Carlos Santos Silva. Nós não tínhamos capacidade aqui para fazer orçamentação para o mercado internacional. A opção da Lena foi ter uma empresa à parte com acionistas comuns e envolvendo as pessoas que podiam ajudar nesse processo. E a opção foi constituir em 2007 a XMI, que no início até se chamava Lena Management. Essa foi a estratégia pensada por Joaquim [Barroca] Rodrigues para abordar os mercados internacionais e construir propostas.

Como é que, com tudo isso, essa não é uma empresa do grupo?

Isso não é importante para mim.

Mas permite-lhe dizer que Santos Silva não é administrador da Lena.

Quando eu cheguei à presidência executiva [do grupo, em 2010], essa XMI já existia, e eu não entrei para a empresa. Se fosse para ser gerida no âmbito da gestão executiva do grupo, então eu seria o presidente dessa empresa, como sou de todas as outras. Mas não foi assim. Só entrei na XMI em 2012, porque disse que não estava para ter apenas algum feedback [do que era discutido lá]. Eu queria participar no processo desde o início. De qualquer forma, o principal papel que a XMI teve foi na Venezuela. A importância que teve na Argélia e em Angola é absolutamente reduzida. É zero.


Mas porque é que, então, foi a XMI a fazer um contrato para a Argélia em 2014 com o patrão de Sócrates, Paulo de Lalanda e Castro?

Estamos a fazer cinco hospitais na Argélia, e alguns são de regime chave na mão. Um dos nossos colaboradores na Argélia, Hugo Gancho, é também colaborador da XMI. E identificou uma questão: “Temos aqui um problema com equipamentos médicos que não conseguimos resolver. Das duas uma: ou admitimos pessoas para o resolver ou arranjamos alguém de fora que o faça.” Na XMI foi posta essa questão: há alguma empresa para fazer isso? E o engenheiro Carlos Santos Silva disse: “Talvez eu arranje alguém.” Ponto final.

Quanto é que o grupo pagou a Santos Silva ao longo dos anos? Há um comunicado que refere pouco mais de três milhões de euros. É esse o valor?

Esse foi o valor que pagámos até 2011. E de 2011 a 2015 pagámos mais dois milhões de euros.

Como explica então o facto de ele ter recebido 17 milhões de euros de Joaquim Barroca Rodrigues através de contas na Suíça em 2008 e 2009?

A minha convicção profunda é que a conclusão que se vai tirar, mais cedo do que se pensa, é que o Joaquim [Barroca] Rodrigues está absolutamente inocente de qualquer pagamento que não tenha uma justificação legal. Mas isso é um assunto que tem de ser ele e a sua defesa a trabalhar.

Perguntou a Barroca Rodrigues que transferências foram essas?

Não perguntei e não tenho de perguntar. Ele é que tem, se quiser, de abordar o assunto. Essa é uma matéria à parte. O Grupo Lena não fez pagamentos a Carlos Santos Silva que não fossem por trabalhos executados.

Foram transferências feitas por aquele que era na altura o presidente executivo da Lena Construções. Como é que isso não tem diretamente a ver com o grupo?

Essas transferências têm seguramente uma justificação legal. Mas quem tem de falar sobre isso é o Joaquim Barroca Rodrigues no local próprio.

Conhece Hélder Bataglia?

Não.

Alguma vez empresas do grupo tiveram negócios ou conversas sobre negócios com Bataglia?

Se tiveram, eu não conheço.

Não tem explicação para os 12 milhões de euros que Bataglia transferiu para Barroca Rodrigues?

Não, não tenho.

E que relações teve o grupo com Vale do Lobo, um resort no Algarve de que Bataglia é acionista?

Tivemos uma obra de quatro milhões de euros relacionada com as infraestruturas de um loteamento. É um projeto de pequeno montante.

Ficou surpreendido com todo o dinheiro que Carlos Santos Silva entregou a Sócrates nestes anos?

Aos 15 anos tive de ir trabalhar e passei fome para conseguir estudar. Quem valoriza o trabalho como fonte de riqueza tem uma perceção própria sobre outras formas de obter dinheiro. E tem uma grande hostilidade a tudo o que seja fenómenos de corrupção. Mas não se podem misturar assuntos.

Esta semana foi detido um ex-administrador de uma empresa do Grupo Lena, a propósito de um processo-crime sobre uma alegada burla com subsídios do Estado. O que se passa?

Não sei exatamente o que está em causa. Essa empresa, a Resipower, foi nossa participada, mas vendemo-la há mais de três anos. E esse ex-administrador saiu do grupo há dois anos. Mas pelo que percebemos o problema nem é na Resipower. Acho que é numa empresa ao lado.