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Cigano não entra

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As crianças do bairro das Quintinhas refrescam-se com a água suja que corre na rua

TIAGO MIRANDA

Presidente da Câmara de Estremoz acusado de xenofobia por impedir entrada de ciganos nas piscinas municipais

São três da tarde, os termómetros marcam 39 graus no bairro das Quintinhas, em Estremoz, onde há mais de uma década um grupo de ciganos vai construindo barracas de tijolo, madeira, lona e chapas de zinco. A família de Elias Cardoso está reunida à sombra de uma árvore a observar as crianças que enganam o calor saltitando entre alguidares com água e poças enlameadas. Elias assume que esteve na piscina com a família, no dia em que apareceram dejetos humanos na água.

“Não fizemos aquilo. Qualquer coisa que acontece é logo os ciganos. E agora não nos deixam ir às piscinas, é racismo. O presidente não nos dá condições. Olhem como vivemos. Não temos água. Há racismo em Estremoz.” As frases saem rápidas da boca daqueles que alegadamente terão provocado os distúrbios que levaram Luís Mourinha, presidente da Câmara Municipal de Estremoz (CME), a proibir a entrada nas piscinas públicas dos moradores do bairro das Quintinhas — todos ciganos.

Uma atitude condenada pela associação SOS Racismo que já apresentou queixa à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, considerando a medida “ilegal e xenófoba”.

A situação que gerou esta controvérsia é relatada ao Expresso por alguns dos funcionários que viveram os acontecimentos. Andreia Peixe, diretora técnica das piscinas, conta que no dia 5, um grupo de dez ciganos começou por causar distúrbios na receção ao não querer pagar bilhete. “Depois de conseguirmos que o fizessem, a senhora que acompanhava as crianças entrou vestida dentro da piscina. Quando foi chamada à atenção, deixou-se ficar, insultou os funcionários, até que foi queixar-se à família que estava no bar contíguo ao recinto. Num instante, invadiram a piscina e começaram as ameaças. Entretanto, surgiram dejetos humanos nos dois tanques. Perante aquilo, fomos obrigados a evacuar as piscinas e, no meio da confusão, antes que a polícia os conseguisse identificar, eles foram embora e nunca mais cá apareceram.”

No dia seguinte, as instalações estiveram fechadas para esvaziar os tanques e proceder à desinfestação. Enquanto aguarda o relatório da PSP, com a identificação das pessoas que causaram os distúrbios, Luís Mourinha decidiu impedir a entrada nas piscinas de todos os moradores do bairro das Quintinhas. “Estamos a falar de questões de saúde e ordem pública e enquanto gestores públicos temos obrigação de tomar decisões e salvaguardar os interesses dos estremocenses. A alternativa era fechar as piscinas, prejudicando todos”, argumenta o vice-presidente Francisco Ramos.

Papel da PSP em causa

Segundo Andreia Peixe, esta não é a primeira vez que há problemas naquelas instalações. O ano passado “um individuo, que não é cigano, provocou desacatos, foi identificado pela PSP e ficou proibido de entrar. Mas também houve distúrbios com membros de etnia cigana, nomeadamente um episódio em que duas crianças defecaram no lava-pés”, conta. Perante aquelas situações, a câmara resolveu começar a pagar gratificados à PSP para ter diariamente na piscina, entre as 15h às 19h, um agente de autoridade. “Como cidadão revolta-me e sinto-me humilhado por ser obrigado a colocar um policia para manter a ordem pública”, assume Francisco Ramos. “Mas uma democracia não pode ser sinónimo de anarquia.”

O papel da PSP é o mais criticado, por não ter sido capaz de identificar os últimos prevaricadores. Os funcionários das piscinas são unânimes na opinião de que a agente que estava de serviço naquele domingo, ao ser incapaz de dominar a situação, “devia ter chamado reforços”.

Até esta quarta-feira, segundo os próprios moradores do bairro das Quintinhas, a PSP ainda não tinha aparecido para identificar quem quer que fosse. A diretora das piscinas garante que deu à PSP “o nome de dois dos ciganos” por serem os únicos que conhecia.

Contactado pelo Expresso, um elemento da esquadra da PSP de Estremoz afirmou não ter autorização para falar e remeteu o assunto para o comando de Évora, que até ontem não prestou esclarecimentos. A Procuradoria-Geral da República afirma que “procedeu à recolha de elementos, designadamente das notícias vindas a público, e decidiu enviar esses mesmos elementos, para apreciação, ao MP competente”.

José Falcão, do movimento SOS Racismo, insiste que “é criminoso decidir que toda uma comunidade ou um bairro deve pagar por qualquer coisa que este ou aquele elemento possa ter feito” e acusa a câmara de não estar a fazer o trabalho que lhe compete. Francisco Ramos defende que esta não é uma medida contra a comunidade cigana, mas apenas contra aquele grupo, uma vez que “o concelho tem cerca de 300 ciganos e a maior parte estão integrados”. Dá o exemplo dos “ciganos de Santiago”, um outro bairro de Estremoz, que “continuam a frequentar as piscinas sem problemas”, adiantando que “estes até se sentem envergonhados com o comportamento dos outros”.

Nas Quintinhas, Elias repete que a CME os trata “como animais” e que privilegia os ciganos de Santiago. “Inscrevi-me para trabalhar, mas só dão emprego a eles. Eles têm casa, nós não”. E reafirma que “não houve problemas” na piscina. Questionados sobre o porquê de não terem reclamado da proibição que consideram injusta, desafiam: “Tragam a televisão que nós vamos todos para a porta da piscina manifestar-nos.”

Em Estremoz, apesar de não se falar de outra coisa, o ambiente é tranquilo. Ou melhor, vive-se “uma paz podre” com os ciganos das Quintinhas, admite o vice-presidente. A maioria dos estremocenses está ao lado da câmara, contra o comportamento daqueles ciganos, como demonstram vários comentários feitos nas redes sociais e no próprio livro de reclamações da piscina, onde o número de utentes aumentou nos últimos dias. O vice-presidente considera que “o caso está a atingir uma dimensão absurda” e avisa que “o maior problema com a comunidade cigana é na escola”. Acusa-os de “maltratar professores e alunos, roubarem e não tomarem banho”, o que tem levado alguns pais a preferir que os filhos vão para outras escolas, nos arredores.