Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Portugueses convidados a sentir os perigos da obesidade

  • 333

Campanha de prevenção aposta na experimentação sensorial de algumas das consequências negativas do excesso de peso. Equipamento permite viver por momentos com mais dez quilos ou ter a mobilidade reduzida na sequência de um AVC. A ação vai estar em várias praias do país até ao final de agosto

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

A subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas, veste o equipamento que simula a perda de mobilidade e de audição típicas após um AVC. É ajudada por Ana Macedo, médica e autora da projeto

A subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas, veste o equipamento que simula a perda de mobilidade e de audição típicas após um AVC. É ajudada por Ana Macedo, médica e autora da projeto

Mário João

Diga-se o que se disser, não há nada como experimentar e vários peritos de Saúde decidiram levar a ideia à letra. Querem ver se assim conseguem passar a mensagem sobre as consequências amargas da obesidade. A praia foi o local escolhido para levar os banhistas, mais despidos e com as eventuais gorduras à vista, a sentir, literalmente, a perda de mobilidade devido ao aumento de peso ou às sequelas de um acidente vascular cerebral.

"O meu problema é a barriga", explicava candidamente uma senhora ao elemento da equipa que transcrevia para ficha os 117 quilos exibidos pela balança logo no primeiro dia da ação, segunda-feira na praia da Torre, Oeiras. Aquele alheamento sobre os perigos da obesidade não passou despercebido aos responsáveis pela iniciativa - a consultora em Saúde Keypoint e a Johnson, com o apoio da Direção-Geral da Saúde e de várias autarquias - , que sabem que aquele não é um caso único.

“Gordinhas mantêm autoestima

"Temos tidos cerca de 40 participantes por dia. Na maioria, são mulheres com mais de 50 anos e peso a mais", diz João Martins, um dos elementos da equipa do programa "Peso da Saúde". Apesar das 'gordurinhas', "dizem sentir-se bem com o seu aspeto, não condicionam a atividade diária nem têm qualquer interferência na relação com o cônjuge", acrescenta. Por outras palavras, são mulheres que não evitam ir à praia, que não têm complexos por causa do peso e que garantem não se cansarem facilmente.

Quem entra na tenda montada no areal, que até ao final de agosto vai viajar entre praias a norte e a sul do país (ver mapa), passa por quatro etapas: três de avaliação e uma de experimentação. "Começamos com um questionário sobre os hábitos e sobre o que se está disposto a fazer para perder peso, depois é feita a medição e a pesagem e por último o cálculo de vários rácios, como o índice de massa corporal, o nível de gordura visceral, a gordura corporal ou a taxa metabólica basal (as calorias consumidas em total repouso)", enumera João Martins.

A quarta etapa, a final, é a vivência sensorial: sentir o que é ter mais quilos e ainda uma perna quase sem mobilidade e a audição reduzida como se tivesse sido vítima de um AVC. "Nem pensar, isto é muito mau", diz de rompante Rosária Carvalho assim que tenta caminhar com o equipamento de experimentação vestido. Com 61 e reformada há dois meses, a antiga funcionária do Instituto Português do Sangue garante preocupar-se com o peso e a imagem.

"Gosto de sentir-me leve e não quero ver pneus quando me olho ao espelho; fecho a boca muitas vezes", afirma. Estar em casa fê-la ganhar "gordura na zona da barriga", mas já começou a fazer caminhadas e a ir ao ginásio duas vezes por semana. Menos atenta à balança, outra veraneante, 69 anos, exclama: "64 quilos? Não tinha ideia. É muito."

Um elemento da equipa mede e pesa Rosária Carvalho, 61 anos

Um elemento da equipa mede e pesa Rosária Carvalho, 61 anos

Mário João

Obesidade tira 9 anos às mulheres e 12 aos homens

Os dados mais recentes mostram que mais de metade dos adultos portugueses têm peso a mais ou são obesos. Nas crianças, uma em cada três está acima da linha do peso adequado. As consequências vão para além da 'barriguinha', do 'pneu' ou da roupa grande: a obesidade tira nove anos à esperança média de vida das mulheres e 12 aos homens.

Fausto Brito, 79 anos, está em minoria na tenda. São poucos os homens que tomam a decisão de participar na campanha. "Tenho três quilos a mais e combato o peso com caminhadas e natação", explica o antigo militar da Força Aérea Portuguesa. O seu caso destoa da maioria dos homens da sua idade.

Fausto Brito, 79 anos, foi um dos poucos homens que têm aderido à iniciativa, mais procurada por mulheres acima dos 50 anos

Fausto Brito, 79 anos, foi um dos poucos homens que têm aderido à iniciativa, mais procurada por mulheres acima dos 50 anos

Mário João

"Os portugueses convivem muito bem com a gordura, e desde bebés; quem não nascia gordinho até era chamado de raquítico", salienta a subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Ela própria, apesar de médica, confessa só ter começado a preocupar-se com o peso quando chegou aos 40 anos. Na sua opinião, "mais do que falta de informação, falta conhecimento sobre os efeitos do excesso de peso e consciência sobre o poder que tem a alimentação".

Ana Macedo, autora da campanha e responsável pela consultora científica Keypoint (dedicada a estudos clínicos e à educação para saúde), dá razão à subdiretora-geral da Saúde. "Que a gordura faz mal já todos sabemos, é preciso viver a experiência" das consequências dessa gordura. "Não é igual pegar em um garrafão de cinco litros e pesar mais cinco quilos. Por isso, surgiu a ideia de recorrer ao equipamento para experimentação. É muito realista e as pessoas saem da tenda a dizer que a sensação é horrível."

A médica acredita que a experiência sensorial pode fazer a diferença na mudança de comportamentos, mais ainda quando se tem 20 anos e é muito difícil imaginar como estará o corpo aos 60 se a alimentação não for cuidada. Mas não só. Ana Macedo revela que "este equipamento pode ser adaptado para outras áreas, por exemplo o risco cardiovascular, a doença de Parkinson, a esclerose múltipla ou a dor osteoarticular".

Japão é o país com mais magros

As doenças do aparelho circulatório, onde se inclui o AVC, continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, representando 30% da mortalidade geral em 2013, segundo dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde. A alimentação incorreta é uma das causas. Aliás, no que diz respeito aos anos de vida saudável é mesmo o aspeto mais determinante. Comer menos de três peças de fruta é mais nocivo para a manutenção da saúde do que fumar. Têm igualmente relevância a reduzida ingestão de hortícolas e de frutos secos e sementes e o excesso de sal ou de carne processada.

Dados da Organização Mundial da Saúde sobre a percentagem de pessoas com um índice de massa corporal igual ou superior a 25, colocam Portugal no sétimo lugar (54%) da tabela mundial, liderada pelos EUA que tem 67% da população com peso em demasia. O Japão é o país com menos cidadãos 'pesados' (23%).

Participantes na campanha durante a sessão, na quarta-feira, na Praia de Santo Amaro, em Oeiras

Participantes na campanha durante a sessão, na quarta-feira, na Praia de Santo Amaro, em Oeiras

Mário João