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Portugueses convidados a sentir os perigos da obesidade

Campanha de prevenção aposta na experimentação sensorial de algumas das consequências negativas do excesso de peso. Equipamento permite viver por momentos com mais dez quilos ou ter a mobilidade reduzida na sequência de um AVC. A ação vai estar em várias praias do país até ao final de agosto

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

A subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas, veste o equipamento que simula a perda de mobilidade e de audição típicas após um AVC. É ajudada por Ana Macedo, médica e autora da projeto

A subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas, veste o equipamento que simula a perda de mobilidade e de audição típicas após um AVC. É ajudada por Ana Macedo, médica e autora da projeto

Mário João

Diga-se o que se disser, não há nada como experimentar e vários peritos de Saúde decidiram levar a ideia à letra. Querem ver se assim conseguem passar a mensagem sobre as consequências amargas da obesidade. A praia foi o local escolhido para levar os banhistas, mais despidos e com as eventuais gorduras à vista, a sentir, literalmente, a perda de mobilidade devido ao aumento de peso ou às sequelas de um acidente vascular cerebral.

"O meu problema é a barriga", explicava candidamente uma senhora ao elemento da equipa que transcrevia para ficha os 117 quilos exibidos pela balança logo no primeiro dia da ação, segunda-feira na praia da Torre, Oeiras. Aquele alheamento sobre os perigos da obesidade não passou despercebido aos responsáveis pela iniciativa - a consultora em Saúde Keypoint e a Johnson, com o apoio da Direção-Geral da Saúde e de várias autarquias - , que sabem que aquele não é um caso único.

“Gordinhas mantêm autoestima

"Temos tidos cerca de 40 participantes por dia. Na maioria, são mulheres com mais de 50 anos e peso a mais", diz João Martins, um dos elementos da equipa do programa "Peso da Saúde". Apesar das 'gordurinhas', "dizem sentir-se bem com o seu aspeto, não condicionam a atividade diária nem têm qualquer interferência na relação com o cônjuge", acrescenta. Por outras palavras, são mulheres que não evitam ir à praia, que não têm complexos por causa do peso e que garantem não se cansarem facilmente.

Quem entra na tenda montada no areal, que até ao final de agosto vai viajar entre praias a norte e a sul do país (ver mapa), passa por quatro etapas: três de avaliação e uma de experimentação. "Começamos com um questionário sobre os hábitos e sobre o que se está disposto a fazer para perder peso, depois é feita a medição e a pesagem e por último o cálculo de vários rácios, como o índice de massa corporal, o nível de gordura visceral, a gordura corporal ou a taxa metabólica basal (as calorias consumidas em total repouso)", enumera João Martins.

A quarta etapa, a final, é a vivência sensorial: sentir o que é ter mais quilos e ainda uma perna quase sem mobilidade e a audição reduzida como se tivesse sido vítima de um AVC. "Nem pensar, isto é muito mau", diz de rompante Rosária Carvalho assim que tenta caminhar com o equipamento de experimentação vestido. Com 61 e reformada há dois meses, a antiga funcionária do Instituto Português do Sangue garante preocupar-se com o peso e a imagem.

"Gosto de sentir-me leve e não quero ver pneus quando me olho ao espelho; fecho a boca muitas vezes", afirma. Estar em casa fê-la ganhar "gordura na zona da barriga", mas já começou a fazer caminhadas e a ir ao ginásio duas vezes por semana. Menos atenta à balança, outra veraneante, 69 anos, exclama: "64 quilos? Não tinha ideia. É muito."

Um elemento da equipa mede e pesa Rosária Carvalho, 61 anos

Um elemento da equipa mede e pesa Rosária Carvalho, 61 anos

Mário João

Obesidade tira 9 anos às mulheres e 12 aos homens

Os dados mais recentes mostram que mais de metade dos adultos portugueses têm peso a mais ou são obesos. Nas crianças, uma em cada três está acima da linha do peso adequado. As consequências vão para além da 'barriguinha', do 'pneu' ou da roupa grande: a obesidade tira nove anos à esperança média de vida das mulheres e 12 aos homens.

Fausto Brito, 79 anos, está em minoria na tenda. São poucos os homens que tomam a decisão de participar na campanha. "Tenho três quilos a mais e combato o peso com caminhadas e natação", explica o antigo militar da Força Aérea Portuguesa. O seu caso destoa da maioria dos homens da sua idade.

Fausto Brito, 79 anos, foi um dos poucos homens que têm aderido à iniciativa, mais procurada por mulheres acima dos 50 anos

Fausto Brito, 79 anos, foi um dos poucos homens que têm aderido à iniciativa, mais procurada por mulheres acima dos 50 anos

Mário João

"Os portugueses convivem muito bem com a gordura, e desde bebés; quem não nascia gordinho até era chamado de raquítico", salienta a subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Ela própria, apesar de médica, confessa só ter começado a preocupar-se com o peso quando chegou aos 40 anos. Na sua opinião, "mais do que falta de informação, falta conhecimento sobre os efeitos do excesso de peso e consciência sobre o poder que tem a alimentação".

Ana Macedo, autora da campanha e responsável pela consultora científica Keypoint (dedicada a estudos clínicos e à educação para saúde), dá razão à subdiretora-geral da Saúde. "Que a gordura faz mal já todos sabemos, é preciso viver a experiência" das consequências dessa gordura. "Não é igual pegar em um garrafão de cinco litros e pesar mais cinco quilos. Por isso, surgiu a ideia de recorrer ao equipamento para experimentação. É muito realista e as pessoas saem da tenda a dizer que a sensação é horrível."

A médica acredita que a experiência sensorial pode fazer a diferença na mudança de comportamentos, mais ainda quando se tem 20 anos e é muito difícil imaginar como estará o corpo aos 60 se a alimentação não for cuidada. Mas não só. Ana Macedo revela que "este equipamento pode ser adaptado para outras áreas, por exemplo o risco cardiovascular, a doença de Parkinson, a esclerose múltipla ou a dor osteoarticular".

Japão é o país com mais magros

As doenças do aparelho circulatório, onde se inclui o AVC, continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, representando 30% da mortalidade geral em 2013, segundo dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde. A alimentação incorreta é uma das causas. Aliás, no que diz respeito aos anos de vida saudável é mesmo o aspeto mais determinante. Comer menos de três peças de fruta é mais nocivo para a manutenção da saúde do que fumar. Têm igualmente relevância a reduzida ingestão de hortícolas e de frutos secos e sementes e o excesso de sal ou de carne processada.

Dados da Organização Mundial da Saúde sobre a percentagem de pessoas com um índice de massa corporal igual ou superior a 25, colocam Portugal no sétimo lugar (54%) da tabela mundial, liderada pelos EUA que tem 67% da população com peso em demasia. O Japão é o país com menos cidadãos 'pesados' (23%).

Participantes na campanha durante a sessão, na quarta-feira, na Praia de Santo Amaro, em Oeiras

Participantes na campanha durante a sessão, na quarta-feira, na Praia de Santo Amaro, em Oeiras

Mário João