Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O estranho caso do homem que 70 anos depois confessou ter assassinado uma prostituta

  • 333

Foi em 1946, mas só agora o caso foi solucionado. Aos 91 anos, um britânico reformado a viver no Canadá deparou-se com uma crise de consciência após ter descoberto que tinha cancro. E decidiu revelar o crime que permanecera quase 70 anos por resolver. O que lhe acontecerá agora?

Quando souberam do sucedido, dois polícias da Scotland Yard viajaram imediatamente para o Canadá. Já tinham passado quase 70 anos desde aquele dia fatídico na rua Carnaby, no bairro londrino de Soho, que tinha ficado para sempre envolto em mistério.

Recuemos a 10 de novembro de 1946. Uma mulher, vestida com um casaco castanho-amarelado e uma blusa rosa, morta com um tiro no peito, à porta do clube noturno Blue Lagoon. O nome? Margaret, Margaret Cook. Sobre ela não se sabia muito. Apenas algumas peças da sua vida: nascera em Bradford, como Margaret Willis, e teria tido uma infância conturbada - até tinha chegado a dar entrada num centro de detenção de menores.

Um ano antes do assassínio ganharia mais um nome - Cook -, ao casar-se com o jovem de 24 anos Joseph Cook, para o largar pouco tempo depois. Dele nada se saberia até três anos depois da morte de Margaret, altura em que seria levado a tribunal para ser julgado por furto de roupa e comida, no valor de 20 libras. E Margaret não tinha familiares que pudessem contar a sua história ou ajudar na reconstituição dos últimos passos.

Uma mulher "misteriosa", vaticinaram os jornais da época. E procuraram pormenores que dessem conta da vida que levava: os amigos diziam que, nos "últimos tempos", Margaret vivia assustada; os jornais descreviam-na como uma dançarina e cantora exótica. Mas na verdade era uma prostituta.

Naquela noite de novembro em 1946, Margaret terá sido vista a passear pelas ruas perto de Piccadilly. Os detetives fizeram um apelo para que quem a tivesse visto entre as 20h45 e as 21h10 se apresentasse para lhes contar o que vira. Por volta das 21h35, Margaret terá regressado ao Lagoon club e foi aí que, do lado de fora do edifício, foi ouvida a discutir com um homem, dizendo-lhe: "Sei que tens uma arma, afasta-a de mim".

Do Reino Unido ao Canadá...

De regresso à atualidade. Os polícias britânicos vão passando fotografias, a preto e branco, de várias vítimas. Doze no total. O suspeito vai analisando-as cuidadosamente, até escolher uma única - e a imagem correspondia a Margaret Cook. Fora esta mulher que matara há quase 70 anos.

Só assim foi possível fazer a ligação entre o assassino e a vítima. Há um ano, o homem (agora com 91) foi, por iniciativa própria, à esquadra da polícia local para confessar o crime que escondera durante tanto tempo: matara a tiro uma mulher, cujo nome já não se recordava, com uma pistola russa da II Guerra Mundial. Ela tinha-o enganado com questões de dinheiro, ele matara-a. Em Londres. As autoridades canadianas acabariam por alertar os ingleses, e a Scotland Yard reabriu o caso, realizando uma investigação no sentido de encontrar a tal mulher, morta na capital inglesa.

Do Reino Unido os polícias viajaram até ao Canadá, país que o homem escolheria para recomeçar a vida, cinco anos depois do crime. Tem sido aí, em Ontário, que tem vivido desde então, criando uma família e acabando por adquirir a nacionalidade canadiana. Agora vive num lar para idosos, mas se tivesse sido 'apanhado' na altura poderia não estar aqui (à data, a pena de morte ainda vigorava no Reino Unido, tendo sido abolida apenas em 1965).

Atualmente com 91 anos, foi há dois que a sua consciência falou mais alto. Ao ser-lhe diagnosticado um cancro de pele e confrontado com a possibilidade da morte, debateu-se interiormente com um dilema: confessar ou não o crime que tinha cometido. Acabaria por fazê-lo, no ano passado.

… e do Canadá ao Reino Unido?

A história poderia fazer parte de um episódio da série de ficção "Casos Arquivados" ("Cold Case"), mas é real e foi revelada esta quinta-feira pelo jornal "The Sun" - que classifica este caso como o mais longo na história criminal britânica, ou seja, aquele que tardou mais desde que o crime foi cometido até que um suspeito começasse a ser investigado. Após 69 anos, o mistério foi solucionado.

Mas esta história ainda não acaba aqui. Depois das perguntas que ficaram sem resposta durante quase setenta anos, surgem agora novas questões: o que fazer com este homem (cuja identidade não foi revelada) e sua confissão? Confrontado com estes factos, o Reino Unido pediu no ano passado a sua extradição do Canadá, mas a Justiça canadiana ainda não tomou uma decisão em relação a este pedido.

A questão que agora se coloca é outra: será que é moralmente correto acusar este homem, tantos anos depois e quase no final da sua vida, com a sua saúde debilitada? Esta é uma pergunta para a qual a Justiça canadiana terá que encontrar resposta.