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John Legend. Conversas na prisão

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Antes de abrir o festival Marés Vivas, esta quinta-feira, o músico norte-americano e crítico do sistema judicial do seu país passou por Santa Cruz do Bispo, a primeira prisão que visita fora do EUA no âmbito da campanha Free America

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Na última etapa da sua tournée pela Europa, John Legend fez um pedido à Direção-Geral dos Serviços Prisionais: licença para visitar um estabelecimento prisonal português. O cantor-compositor, autor do mediático tema "All of me", chegou quarta-feira ao Porto mas antes de atuar esta noite no Festival Marés Vivas, na Praia do Cabedelo, em Gaia, passou duas horas a conhecer a prisão masculina de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos.

Numa visita guiada, acompanhado de dois guarda-costas, John Legend manteve uma conversa privada com 14 reclusos da Unidade Livre de Drogas, detidos, maioritariamente na casa dos 20 anos, em fase de recuperação de toxicodependência. Crítico do sistema judicial e prisional norte-americano, que considera "demasiado punitivo e com taxas intoleráveis de encarceramento", Legend iniciou este ano um périplo por várias prisões federais nos EUA, integrado na campanha Free America, de defesa da discriminalização da prostituição e consumo de drogas, "à semelhança de Portugal".

"Temos muito a apreender com o sistema prisional fora dos EUA, adotando uma estratégia de verdadeira reabilitação virada para a reintegração na sociedade e menos punitivo", afirmou o cantor, no final da visita.

Entre as críticas ao sistema judicial do seu país, Legend apontou as penas demasiado longas, a sobrelotação das prisões e o "encarceramento de miúdos", que segundo ele deveriam ser penalizados em regime aberto, em instituições vocacionadas para a formação e reeducação, para "lhes permitir mudar de vida no futuro".

Após duas horas no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bisco, que alberga 525 reclusos, mais 50 do que a população ideal, de acordo com o diretor Hernâni Vieira, o músico vencedor do Óscar de melhor canção original com "Glory" não poupou na avaliação negativa ao sistema de Justiça norte-americano, lembrando que o país tem 5% da população mundial, mas 25% da comunidade reclusa está em prisões nos EUA.

Embora não tenha desvendado o teor da conversa mantida com os detidos da Unidade Livre de Drogas, John Legend comentou que falaram das terapias de luta contra a droga, que duram em média dois anos, e dos trabalhos que os detidos executam na prisão. Adiantou ainda que foi questionado sobre como se inspirava para compor as suas canções, respondendo que primeiro lhe surgia a música e só a partir daí parte para as letras.

Também quiseram saber se era adepto de alguma equipa de futebol, ao que retorquiu que o seu clube era a América, confessando-se também um "admirador de Cristiano Ronaldo".

Depois de visitar a Escola de Formação, que engloba aulas temáticas de Inglês, de Artes Visuais, Música e TIC, e a Casa de Transição, única no país e que abriga 30 detidos sinalizados como inimputáveis e acompanhdos pela Clínica Psiquiátrica de Saúde Mental, o compositor de 36 anos observou que, pelo que lhe foi dado ver, Portugal tem "um sistema de prisional mais inteligente do que os EUA".

O trabalho na quinta de 36 hectares de Santa Cruz do Bispo, produtora de 500 litros de leite a cada dois dias, legumes e fruta para consumo e para o Banco Alimentar contra a Fome, também lhe mereceu elogios: ""Têm um modo de vida mais humano e saudável em relação às prisões que visitei no meu país".