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Léxico emocional de uma crise: palavras que se transformam, conceitos que se reinventam

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“Oxi”, um dos termos sujeitos recentemente a interpretações distintas - para a Europa prejudicava a posição negocial grega, para Varoufakis e Tsipras era precisamente o inverso. 61,3% dos gregos concordaram com o seu governo e votaram “não”

YANNIS KOLESIDIS / EPA

Vamos falar sobre “dignidade”, “bom senso”, “chantagem”, “terrorismo”, “regras”, “sacrifícios”, ruturas” e também de “coração” - porque o  “script” do debate em torno do referendo e da crise grega inclui termos carregados e de sentido variável consoante quem os pronuncia. E também tem proporcionado alguns neologismos

Luís M. Faria

Jornalista

Todas as crises têm o seu léxico. A da Grécia trouxe para o nosso quotidiano expressões antes obscuras ou até inexistentes: "grexit", teoria dos jogos, "haircut", ESM… Juntaram-se a outras (troika, exposição, resgate) com que a nossa própria crise já nos familiarizara. E há termos que, não sendo específicos do assunto em causa, adquirem um sentido particular em contextos como o atual. Vários deles, aliás, foram usados por ambas as partes agora em confronto, referindo coisas diferentes conforme quem os usou. Exemplos:     

DIGNIDADE

Após o referendo de domingo passado, a presidente argentina louvou o triunfo da "democracia e dignidade" na Grécia. Essa ideia de uma "lição de dignidade" que terá sido dada ao mundo no domingo foi ecoada por vários líderes estrangeiros e pelo poeta Manuel Alegre, entre outros. O próprio primeiro-ministro grego a tinha invocado com frequência antes e depois do voto, pedindo aos seus compatriotas “um orgulhoso 'não' aos ultimatos". Mas houve gregos para quem o verdadeiramente digno, segundo disseram, é pagar na íntegra o que se deve. Uma ideia ecoada por altos responsáveis alemães e pelos tabloides desse país, talvez esquecidos das depredações em tempos infligidas pela Alemanha a países como a Grécia e que nunca foram pagas por um valor remotamente próximo dos danos causados.

SENSO COMUM / BOM SENSO

"O bom senso manifestou-se na Grécia", disse um político de extrema-direita francês no domingo à noite. Sentimento repetido pelo britânico Nigel Farage, outro conhecido antieuropeu. Mas no debate em torno do referendo, a expressão 'bom senso' foi geralmente empregue pelos que defendiam o ‘sim’. O ministro Varoufakis foi dos poucos líderes a dizer, em tom caracteristicamente professoral, que o senso comum recomendava não continuar a sobrecarregar a Grécia com dívida que jamais poderá ser paga e impede o país de voltar a crescer.

CHANTAGEM

Uma das acusações mais ouvidas ao longo de quase seis meses de negociação. Várias vezes os credores acusaram Atenas de usar estratégias de chantagem ou mesmo extorsão ao colocarem Bruxelas, essencialmente, na posição de ter de escolher entre manter intacto o euro (fazendo quaisquer cedências para a Grécia não sair) ou quebrar as suas regras (dando aos gregos facilidades que as regras do euro não permitem e outros países em dificuldade não tiveram). O governo grego, por sua vez, acusou os credores de estarem a fazer uma chantagem inadmissível ao forçarem o encerramento dos bancos na semana que precedeu o referendo e ao defenderem que o “não” no referendo prejudicava a posição negocial grega.

TERRORISMO

Uma variante da ideia da chantagem. Empregue por Varoufakis, a propósito do medo deliberadamente provocado nos pensionistas gregos, e não só, com os controlos de capital a que o governo foi obrigado pela decisão do Banco Central Europeu de não lhes continuar a fornecer liquidez.

REGRAS

Na Europa existem muitas. Desde a regra básica da solidariedade, sempre invocada pela Grécia, até às regras sobre défices, contabilidade, etc, que os gregos infringiram muitas vezes ao longo dos anos. Não foram os únicos, obviamente (a própria Alemanha pecou nessa matéria, acompanhada da França e outros), mas levaram o desrespeito a extremos que tornaram impossível a situação continuar na mesma. Infelizmente, durante décadas, a regra foi mesmo essa: não levar demasiado a sério as regras. 

SACRIFÍCIOS

Não há quem não os invoque. Entre os sacrifícios dos gregos que perdem o emprego e os que passam mesmo a ter de dormir na rua, e os sacrifícios dos contribuintes alemães ou holandeses que estão fartos de subsidiar povos de outros países, a linguagem é a da vitimização (própria) e da censura (aos outros). Acompanhada de uma histeria que talvez deva um pouco à má-fé, aqui e ali.

EUROPA E EURO

Os valores que alegadamente justificam tudo. Para os países ricos, significam um continente estável onde eles podem manter e aumentar a sua prosperidade, exportando para os vizinhos e circulando à vontade. Para os países pobres, a "convergência" - isto é, a aproximação entre os níveis de riqueza dos diversos países, inclusive por via de transferências financeiras - é um aspeto essencial da União Europeia. Com a entrada de mais países, o prolongar da crise iniciada em 2008, e a perda de importância relativa da Europa, esta tensão original surge cada vez mais à vista.

CORAÇÃO VS. CABEÇA

Entre quinta e domingo da semana do referendo, a decisão a tomar pelos gregos foi apresentada como um dilema entre duas partes igualmente vitais do corpo – e do processo deliberativo. Mas também aqui são possíveis interpretações diversas. Embora pareça mais normal pensar que quem votasse "sim" o fazia por um cálculo de sobrevivência e quem votasse "não" podia estar a ceder à raiva, para Tsipras e Varoufakis o "não" tinha motivos racionais, visando reforçar uma posição negociadora (Bruxelas disse que seria exatamente o contrário).

RUTURA

Quem tomou a iniciativa? Foram os credores, ao apresentarem um ultimato no momento em que se aproximava a data crucial de 30 de junho - quando devia ter sido feito um reembolso ao FMI - ou foi Alexis Tsipras, quando anunciou subitamente que ia submeter a referendo o acordo que lhe era proposto? Ninguém quer assumir a responsabilidade pela eventual rutura, até por ela poder vir a implicar o fim da Europa tal como é suposto estarmos interessados em mantê-la. Quer dizer, inteira.