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Sobreviver no limite

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Filipe Ferreira

O que se passa na Antártida pode ter implicações em todo o planeta e na vida do Homem. Todos os anos, milhares de investigadores de todo o mundo rumam ao extremo sul. A região pode dar respostas a múltiplas questões, desde a origem da vida na Terra à possível vida fora do Planeta, passando pelos efeitos das alterações climáticas, que atualmente representam uma das áreas mais estudadas. Mas também há quem queira estudar como vivem as pessoas  em ambientes gelados e inóspitos. Reportagem SIC / Visão

Carla Castelo (SIC)

As mochilas azuis amontoadas no hall de entrada da base chilena Professor Julio Escudero, na ilha do Rei Jorge, pertencem ao pessoal do PROANTAR, o programa antártico brasileiro, recém-chegados de Punta Arenas, no Chile, a bordo de um voo da Força Aérea Brasileira (FAB). Uma hora antes, outra equipa de investigadores brasileiros e um grupo de militares equatorianos em trânsito, vindos da estação científica do Equador na ilha de Greenwich, tinham partido para embarcar em voos da FAB e da Força Aérea Chilena, respetivamente.

Por aqui há sempre gente que chega e gente que parte. Entre os recém-chegados está Nelson Barretta, paulista de 45 anos de idade e mais de 20 anos de vindas regulares à Antártida a prestar apoio a missões científicas brasileiras. A primeira vez que veio foi em 1992. Depois do incêndio da base brasileira Comandante Ferraz (que funciona agora com módulos de emergência, pois ainda não começou a ser reconstruída), em 2012, esteve dois anos sem vir, “porque precisava de descanso mental”.  Não estava presente na altura, mas a tragédia afetou-o e precisou de “dar um tempo”.

Enquanto carrega as grandes caixas brancas que contêm os mantimentos para a estada em Escudero, explica que tem sentimentos ambivalentes em relação a este ponto do globo. “Tenho prazer físico em estar aqui porque prefiro o frio, mas também tenho dores sentimentais”, diz. E depois concretiza: “Se há vento, há vento, mas as pessoas é que me podem fazer feliz ou triste, e se vens feliz de Portugal beleza, se vens de mal com o mundo aqui potencia tudo”.

Filipe Ferreira

Curiosamente, um dos projetos de investigação dos brasileiros que chegaram à base é precisamente sobre saúde física, psicológica e relações interpessoais na Antártida. A investigadora principal do projeto “Sobrevivendo no limite: a medicina polar e a antropologia da saúde na Antártica”, Rosa Maria Arantes, do  Departamento de Patologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Minas Gerais, é professora e médica. Vem acompanhada por Paulo Roberto Ceccarelli, psicanalista, e por Sandra Amenomori, arqueóloga e antropóloga. Nesta primeira campanha do projeto, a ideia é visitar algumas das bases e fazer entrevistas com os utilizadores: investigadores, trabalhadores logísticos e militares que passam largas temporadas neste ambiente frio e isolado.

“O que me atraiu mais foi a curiosidade de saber como será a vida lá. E quem fica muito tempo ficará deprimido?”, explica Paulo Roberto, na Antártida pela primeira vez. O psicanalista também se interessa pelas questões da sexualidade e das relações de género. “Porque há cada vez mais mulheres na Antártida.” Ainda que nalgumas bases, como na russa e na chinesa, continuem a ser raras.

Emanuele Kuhn já está familiarizada com o terreno antártico. Especialista em microbiologia ambiental, a investigadora da Universidade de São Paulo vem regularmente à Antártida em expedições do programa antártico brasileiro. Nos últimos anos, tem estado envolvida no estudo dos microorganismos que vivem no solo debaixo dos glaciares e no que acontece quando essas comunidades são expostas ao ar devido ao recuo dos glaciares.

Num dos locais do mundo onde a temperatura média anual mais aumentou desde 1950, há uma série de fenómenos que os cientistas estão a estudar, como o derretimento dos glaciares, o aumento do nível médio do mar, a menor salinidade da água do oceano, mudanças na circulação das correntes oceânicas, o impacto das mudanças ambientais nas comunidades de microrganismos que vivem tanto na terra e como no mar, e a reação em cadeia até ao topo da cadeia alimentar, ou seja, ao Homem.

Emanuele considera a Antártida “um dos melhores modelos que a gente tem na Terra em relação ao estudo da vida e possível vida fora do planeta”. Em 2010, a investigadora participou na equipa da Universidade de Nevada (EUA) que descobriu microrganismos a viver em condições extremas de baixa temperatura, falta de luz e elevada salinidade num lago na Antártida. Esses seres, denominados extremófilos, vivem em condições inóspitas para a vida tal como a conhecemos à superfície, o que leva os cientistas considerar que, se existir vida noutros planetas, também ela poderá desenvolver-se em condições extremas.

Mas, para a bióloga, a Antártida não é só um local onde vem trabalhar. “É o meu lar, doce lar e como tal quero que seja respeitada e preservada”, diz a bióloga, que este ano ficou alojada na base chilena Professor Julio Escudero.

Carla Castelo

A ilha do Rei Jorge é um dos mais movimentados locais da Antártida, onde existem bases de nove países, um aeródromo e até uma pequena povoação, com uma igreja, uma escola e casas onde vivem cerca de 70 pessoas. Para os chilenos, a ilha do Rei Jorge faz parte da região da Antártida Chilena. Mas desde a entrada em vigor do Tratado da Antártida, em 1961, todas as reclamações territoriais a sul do paralelo 60º S estão suspensas.

Atualmente, a Antártida é uma reserva natural dedicada à investigação científica, onde é proibida a exploração de recursos minerais. Para o chefe da base chilena, o biólogo Javier Arata, a Antártida deverá manter-se assim, como “um lugar especial em que a natureza continue a ser a protagonista”.

Praticamente desabitado, o mais frio, mais seco e ventoso local do planeta ainda é o mais selvagem e menos contaminado pela presença do Homem. Contudo, num território quase vez e meia maior do que a Europa, há locais que há muito deixaram de ser puros e intocados. Na maior ilha do arquipélago das Shetland do Sul, o petróleo é a única fonte de energia usada, as águas residuais são tratadas de forma incipiente e a maioria do lixo é incinerado. Há sucata que se acumula à espera de ser transportada para o Chile por via marítima. “Ficaria muito caro transportar todo o lixo de navio”, explica Rafael Castillo, inspetor do Ministério da Defesa do Chile. 

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    A Antártida é um dos locais do mundo onde as alterações climáticas se estão a fazer sentir de forma mais rápida e intensa. Mas o que se passa no extremo sul poderá ter implicações globais. Os efeitos do aumento da temperatura, do recuo dos glaciares ou da acidificação dos oceanos são algumas questões que estão a ser estudadas na Antártida, um continente dedicado à investigação científica e à cooperação internacional e onde os portugueses também têm ido fazer Ciência