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Maria Barroso. Uma vida cheia e de liberdade

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Maria Barroso encontrou em Mário Soares a mesma vontade de intervir no mundo

A ex-primeira-dama, que recentemente fez 90 anos, faleceu esta madrugada na sequência de um “coma profundo”. Não foi só na hora do casamento que a sua vida se cruzou com a liberdade

A mulher do ex-Presidente da República Mário Soares faleceu esta madrugada na sequência de um “traumatismo craniano complicado por hematoma subdural”, devido a queda sofrida em casa, na noite de 26 de junho. Maria Barroso foi internada no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa.

A antiga primeira-dama celebrou em maio 90 anos (66 dos quais casada com Mário Soares, num matrimónio celebrado por procuração, pois o noivo encontrava-se preso no Aljube). Mas não foi só na hora do casamento que a sua vida se cruzou com a liberdade (ou, melhor, a falta dela), num país onde até 1974 imperou a ditadura.

Nasceu em Olhão, em 1925, sendo a quinta de sete filhos de um oficial do Exército e de uma professora primária. O pai, contestatário, foi várias vezes detido; passou mesmo o 74º aniversário nos calabouços da PIDE, sujeito à tortura do sono. Um irmão de Maria de Jesus, professor de Matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa, seria afastado da universidade por razões políticas.

Foi em recitais de poesia pelo país fora, quando iniciativas culturais eram por vezes a melhor forma de resistência ao fascismo, que Maria Barroso se destacou nos meios da oposição.

D.R.

Nem mordaças nem algemas
Um dos textos mais declamados era “Prometeu”, do poeta Joaquim Namorado. “Abafai meus gritos com mordaças,/ maior será a minha ânsia de gritá-los!/ Amarrai meus pulsos com grilhões,/ maior será minha ânsia de quebrá-los!/ (...) Que aqui ninguém se entrega/ — isto é vencer ou morrer”, disse muitas vezes Maria de Jesus.

Outros dos hinos mais vezes entoados (como recentemente lembrou no “Público” o jornalista e académico António Valdemar, velho amigo da família Soares) eram “Ode à Liberdade”, de Jaime Cortesão, e “Soneto Imperfeito”, de Sidónio Muralha. Deste, muitas vezes gritou Maria Barroso: “Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas/ que possam perturbar a nossa caminhada,/ em que os poetas são os próprios versos dos poemas/ e onde cada poema é uma bandeira desfraldada”.

Tanta notoriedade tinha de chamar a atenção da polícia política. Foi interrogada duas vezes, embora sempre em liberdade. “Fazia-lhes confusão os poemas que eu dizia, que eram de revolta contra o regime. Então o ‘Prometeu’, não lhe digo nem lhe conto, irritava-os de morte. Um verdadeiro panfleto”, afirmou na mais recente entrevista de fundo publicada (a Luís Osório, no “i”, nos inícios de maio).

Em 1944/45, a par da Faculdade de Letras de Lisboa, onde cursa Histórico-Filosóficas, frequenta o Conservatório, o que lhe abriria as portas do teatro. Em 1948, em “A Casa de Bernarda Alba”, de Lorca, estica a corda. Os palcos ficam-lhe vedados.

Nuno Botelho

Ao lado de Soares
Apesar do sólido percurso individual, o protagonismo de Maria Barroso na oposição é, naturalmente, indissociável da caminhada que passa a fazer ao lado de outro estudante da faculdade, Mário Soares. Casam-se em 1949, quando o noivo está mais uma vez à guarda da PIDE, no Aljube.

Maria de Jesus acompanha o marido quando este está deportado em São Tomé (1968). Depois, no exílio de Soares na Europa, fica de início em Portugal. No Colégio Moderno, faz o que pode — e faz muito. Impedida de dar aulas, trata da logística e economato da escola, madrugando muitas vezes para se abastecer na praça de peixe e fruta. Os natais são passados em família, em Paris: os filhos (Isabel e João Soares) acompanham a mãe no reencontro com o pai.

Em 1969, é candidata a deputada pela Oposição Democrática. Em 1973, participa no III Congresso da organização, em Aveiro, tendo sido a única mulher a fazê-lo.

É também a única mulher fundadora do PS, em 1973, na Alemanha. Vai de Portugal para Bad Munstereifel como depositária dos votos dos elementos da Ação Socialista Portuguesa (ASP) que ficam no nosso país.

O mandato que leva e a sua opinião são claros: rejeitar a transformação da ASP num partido. Assim, vota contra a opinião defendida por Mário Soares. Maria Barroso reconheceria mais tarde que o marido “tinha razão”.

O 25 de Abril de 1974 encontra o casal Soares em Bona. É Maria de Jesus quem atende o telefonema da notícia há muito esperada: caída a ditadura. Em democracia, é eleita quatro vezes deputada nas listas do PS (entre 1976 e 1983). 

Não é só na defesa da liberdade que Maria Barroso tem uma vida cheia.  Após a saída de Soares de Belém, dá expressão à solidariedade, na presidência da Cruz Vermelha Portuguesa, primeiro, e na Fundação Pro Dignitate, atualmente. Nas últimas décadas, e até ao presente, envolve-se na luta contra a xenofobia, a exclusão social e a violência.

O futuro permanece na mira dos seus olhos. “Apesar de o meu passado ser já tão longínquo (...), só penso [nele] para ver o que não fiz e ainda posso fazer”, disse recentemente, na entrevista ao “i”.

E termina: “Estou preocupada. Preocupada com o nosso país, com a Europa e com o mundo. Mas tenho sempre a esperança de que seja possível melhorar a situação para que as gerações futuras possam viver em sociedades tolerantes, solidárias e pacíficas”.

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