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Maria de Lourdes Levy. Morreu a matriarca da pediatria portuguesa

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A pediatra Maria de Lourdes Levy (1921-2015)

D.R.

Segunda mulher a doutorar-se em Medicina em Portugal, tinha 93 anos e dedicou a vida às crianças. Foi múltiplas vezes premiada e envolveu-se em inúmeras organizações ligadas à saúde dos mais novos

Morreu no sábado, em Lisboa, a pediatra Maria de Lourdes Levy, antiga diretora do serviço de pediatria do Hospital de Santa Maria e referência na medicina portuguesa. Nascida há 93 anos em São Tomé e Príncipe, Maria de Lourdes Levy veio para Lisboa com 14 meses de idade. O local de nascimento deveu-se ao facto de o pai, também médico, estar no arquipélago de passagem para Luanda. Grande defensora da humanização dos cuidados hospitalares, foi a segunda mulher doutorada em medicina em Portugal, em 1958 depois de Cesina Bermudes.

Moderna e independente, sofreu, então, “as agruras de ser uma mulher” a querer ascender a tal grau académico, contou ao Expresso o seu filho, o também pediatra António Levy Gomes. Embora aprovada com classificação média, ouviu o professor Almeida Lima, membro do júri, dizer que faria melhor em ser dona de casa. Só depois do 25 de Abril de 1974 assumiu um papel mais proeminente, quando convidada a prosseguir a carreira académica pelo amigo – e também pediatra – Mário Cordeiro e por Carlos Salazar de Sousa, outro vulto da pediatria. Veio a ser uma figura respeitadíssima dentro e fora do país, quer pelo seu percurso profissional quer pelas qualidades humanas e a afabilidade que o autor destas linhas (declaração de interesses) teve a sorte de testemunhar desde criança.

Professora catedrática na Universidade de Lisboa, Maria de Lourdes Levy deu a cara pela Carta da Criança Hospitalizada, um documento que defendia perante os seus alunos e que visava, nomeadamente, melhorar as condições das visitas e do acompanhamento que os pais podiam dar aos filhos internados. A criança maltratada e a degradação da qualidade dos serviços em tempos de cortes orçamentais foram outras grandes preocupações suas. Foi pioneira ao dedicar-se à Medicina dos Adolescentes, Genética e Pediatria Social.

Reforma não a fez parar
A pediatra reformara-se em 1991 e, já depois disso, recebeu o grau de grande oficial da Ordem de Mérito (entregue em 1992 pelo Presidente Mário Soares), a medalha de prata do Ministério de Saúde e a medalha de Mérito da Ordem dos Médicos (2003), entre outras distinções. Também foi dirigente da Revista Portuguesa de Pediatria e duas vezes presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria, além de fundadora da Liga Portuguesa contra a Epilepsia e da Sociedade de Doenças Metabólicas. Pertenceu ao Conselho das Ordens de Mérito Civil durante a presidência de Jorge Sampaio.

Sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Maria de Lourdes Levy foi membro de um grupo de trabalho para a Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança e do Grupo de Trabalho. “A minha maior motivação é ajudar os outros, porque não gosto de ver a vida parada. Custa-me ver as coisas à nossa mão e as pessoas não olharem nem se servirem delas”, disse à revista Activa quando nomeada por esta para mais um galardão. O IAC e a Escola Superior de Educação João de Deus, a cujo Conselho Científico presidiu, foram as instituições a que mais se entregou nos últimos anos. “Foram muito importantes para se sentir útil e ainda ligada a esta vida”, garante o filho António Levy Gomes.

Maria de Lourdes Levy foi casada com o médico António Ferreira Gomes, precocemente falecido em 1974. Mãe de António Levy Gomes e da também pediatra Leonor Levy Gomes, teve quatro netos e três bisnetos. Apesar da origem judaica do seu apelido, dizia-se sem religião e nunca quis militar em partidos políticos. Deixou vasta obra publicada aquela a quem o também pediatra José Miguel Ramos de Almeida chamou, apropriadamente, “matriarca da pediatria portuguesa”.