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Maria Barroso. Uma vida com várias vidas e o sonho de um mundo melhor

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Maria Barroso encontrou em Mário Soares a mesma vontade de intervir no mundo

Com 90 anos comemorados em maio deste ano, Maria Barroso sofreu uma queda na noite de 25 de junho. Horas depois entrou em coma. No dia da sua morte, republicamos este perfil; escrito no dia em que os portugueses souberam da gravidade do seu estado de saúde

No aniversário recente, comemorado no início de maio, Maria Barroso completou 90 anos, sem que o acumular do tempo denunciasse (segundo confessava António Valdemar, no texto publicado no "Público") a vontade de se apartar da vida ativa e implicada que sempre a caracterizou: "Os olhos continuam despertos para o mundo que a rodeia e exige a partilha de compromissos de solidariedade para transpor a incerteza, a violência, a desigualdade e estabelecer uma cultura de justiça, de tolerância e diálogo." 

A mulher que acompanha Mário Soares há mais de 60 anos, desde que o conheceu quando frequentava a Faculdade de Letras de Lisboa e com ele casou logo a seguir, em 1949, tem uma vida onde cabem várias vidas, e muitas lutas, artísticas, pessoais e políticas.

Maria Barroso declama poesia em 1975

Maria Barroso declama poesia em 1975

Arquivo "A Capital"

Nasceu em Olhão, a 2 de maio de 1925, filha de Alfredo José Barroso, oficial do Exército, e de Maria da Encarnação Simões, professora primária. Maria Barroso é a quinta de sete filhos. Quando tinha um ano o pai foi colocado em Setúbal, mas já foi Lisboa que conclui a quarta classe.  

Na capital, estudou Arte Dramática, na Escola do Teatro do Conservatório Nacional (1951) e Ciências Histórico-Filosóficas. Ainda jovem estreou-se na companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, sedeada no Teatro Nacional D. Maria II. Entre 1944 e 1948 subiu a palco em mais de uma dúzia de espetáculos, destacando-se em "Benilde", de José Régio. O mesmo texto que inspira Manoel de Oliveira, e o leva a fazer o filme "Benilde Ou A Virgem Mãe), e ao qual ela volta quase vinte anos depois. No cinema, estreia-se com Paulo Rocha ("Mudar de Vida", 1966) e repete Oliveira: "Amor de Perdição" (1979) e "Le Soulier de Satin" (1985).

Maria Barroso tem tido uma atitude ativa na política e na sociedade, mesmo depois de deixar de ser primeira-dama

Maria Barroso tem tido uma atitude ativa na política e na sociedade, mesmo depois de deixar de ser primeira-dama

Rui Ochôa

O castigo para quem tem coragem de se desviar da norma vigente conhece-o muito cedo, através do pai, e da deportação para Açores de que este foi vítima. Não repudia o modelo paterno, a luta pela liberdade e pela democracia, e por não o esconder é impedida de representar. 

Antes mesmo de se casar com Mário Soares, e enquanto este está na prisão, obrigam Maria Barroso a demitir-se do Teatro Nacional D. Maria II. Os poemas revolucionários que diz para dar voz ao descontentamento levam-na a ser interrogada na PIDE.  

Em Mário Soares, Maria Barroso encontra a mesma coragem, o mesmo desejo de lutar por um mundo melhor. Tal como a mãe, experimentará a deportação do marido, quando Soares é enviado para São Tomé, em 1968. Segue-o, deixando para trás o Colégio Moderno, em Lisboa, que havia fundado. Mas, mais uma vez, o regime não tem vontade de lhe facilitar a vida, e Maria Barroso é impedida de se empregar como professora. Com Mário Soares tem dois filhos: João Soares e Isabel Soares.

Maria Barroso foi várias vezes eleita para a Assembleia da República

Maria Barroso foi várias vezes eleita para a Assembleia da República

Rui Ochôa

Em 1969, apresenta-se como candidata a deputada pela Oposição Democrática e participa no II Congresso em 1973, onde é a única mulher a intervir. Participa na fundação do PS, na Alemanha. É eleita deputada da Assembleia da República em 1976, 1979, 1980 e 1983, e torna-se primeira-dama de Portugal entre 1986 e 1996. 

A sua presença na política e na sociedade civil manteve-se interventiva. No ano seguinte ao fim do mandato de Mário Soares, Maria Barroso assume a presidência da Cruz Vermelha Portuguesa, e recebe a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. 

Em todos estes anos envolveu-se na luta contra o racismo, a xenofobia, o antissemitismo, a exclusão social, a violência. Mas para sabermos de que qualidade é o sangue que lhe corre nas veias, é bom lembrar que o pai comemorou os 74 anos na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, a sofrer os horrores da tortura do sono. Talvez esta memória seja apenas uma daquelas que faz com que esta mulher pequenina, charmosa, e bonita não se permita a apartar dos desarranjos do mundo, mesmo quando conta 90 anos.