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“Eu não publicaria essas imagens.” Olhando o sofrimento dos outros

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Até que ponto se deve mostrar o horror? Se o ocultarmos, se não o mostrarmos, não estamos a sonegar informação relevante para se perceber esse mesmo horror? Especialistas em media analisam e respondem, a propósito de mais um vídeo chocante divulgado pelo Estado Islâmico

Luís M. Faria

Jornalista

O autodenominado Estado Islâmico (Daesh) continua a inventar formas novas e cada vez mais horríveis de matar prisioneiros, documentando as execuções em vídeos colocados na internet. O último mostra cinco homens numa jaula que vai sendo metida dentro de água até ficar completamente submersa. Nas imagens seguintes, filmadas debaixo de água, surgem os homens a debater-se enquanto se afogam. Pelo mundo fora, alguns jornais publicaram imagens do vídeo, o que deu origem a polémicas e ao regresso de uma questão recorrente - até que ponto se deve mostrar o horror?

O jornalista e ensaísta Joaquim Vieira, que preside ao Observatório da Imprensa, exprime uma posição clara: “Não tenho interesse em ver essas imagens, e acho que seria contra a publicação delas caso dirigisse um jornal ou uma revista. A liberdade de informação dá o direito de o fazer, mas eu não o faria. Por defesa da civilização. Divulgar imagens desses vídeos é fazer propaganda aos seus autores, contribuir para divulgar a sua propaganda. Cada um tem a opção de fazer o que quer, e a autocensura aí é legítima. Trata-se de uma questão de gosto, e para mim seria de mau gosto, uma crueldade tremenda”.

Não se poderá alegar que uma renúncia liminar a publicar as imagens em causa afeta a transmissão de informação? Vieira diz que não. “A informação pode estar no conteúdo, no texto. Mostrar imagens é apenas gratuito.” E faz uma comparação com imagens obscenas, que por vezes também são tema de notícia. “Nunca vi nenhum jornal que fizesse link para sites pornográficos.” Mostrar gente a morrer é bastante pior, e no entanto há quem não tenha pruridos. “O público pode fazer uma seleção dos orgãos de comunicação em função disso”, diz Vieira. 

Os “nossos” mortos e os outros

Luís Santos, professor de comunicação na Universidade do Minho, tem uma posição um pouco menos absoluta. Nota já existirem empresas que não replicam esse tipo de conteúdos, sejam fotos ou vídeo, e diz: “Mais tarde ou mais cedo, será consensual na generalidade dos media tradicionais”. O problema, para tais empresas, é a quantidade de media não tradicionais hoje em dia. “Os media tradicionais têm certos códigos deontológicos que nem sempre há noutros. Portanto, as imagens continuarão a encontrar forma de chegar aos nossos tablets, telemóveis, etc. Ora, se essas imagens já se andam a replicar, é uma situação complicada.”

Luís Santos refere que nos principais media norte-americanos é nítido o respeito por indicações superiores em assuntos desse género – indicações que emanam de autorregulação. E nota que algo de semelhante acontece com os incêndios em Portugal. “Mais ou menos foi acordado que se teria muito cuidado na replicação das imagens, para não despertar os pirómanos.”

Quanto aos vídeos do Daesh, lembra, “há uma estratégia de comunicação muito inteligente, muito bem pensada, que joga na necessidade dos meios terem conteúdos com força. A atitude mais jornalística será escrever sobre eles, mas explicar que isso faz parte de uma estratégia. Explicar mesmo que tipo de técnicas são usadas, que tipo de equipamentos, etc. É o modo de fazer com que as pessoas já olhem para aquilo como um produto e não como uma imagem do real. Os atos são reais, mas o que vemos é uma encenação”.

Referindo o cuidado com o sofrimento humano que hoje em dia informa a estética da publicação de fotos, Santos lembra a catástrofe provocada pelo terramoto no Haiti. “O jornalismo debatia-se com a questão: será necessário continuar a mostrar pilhas de corpos? Não”. Até pela discriminação que por vezes é nítida entre o tratamento dados aos “nossos” mortos e aos outros, o ideal será proceder com sensibilidade. Por exemplo, isolando “uma foto que dê imagem de sofrimento, mas não mais”.

Em conclusão, como faria Luís Santos no caso do vídeo do Daesh que deu origem à nossa conversa, no qual surgem imagens de gente prestes a morrer afogada? “Teria dificuldade em justificar pôr essa foto na primeira página. Não tenho apego à censura. Mas acho que na maioria dos media em Portugal há gente com suficiente competência para avaliar.”

A descrição é mais do que suficiente

António Granado, um professor de jornalismo (na Universidade Nova de Lisboa) que, tal como Vieira, beneficia de uma longa experiência jornalística, tem uma posição semelhante à dele: “Eu não publicaria as imagens. Acho que só servem a propaganda do Daesh. Nada acrescentam à informação. A descrição delas é mais do que suficiente. Há um livro da Susan Sontag, 'Olhando o Sofrimento dos Outros', que fala disso. Os jornalistas devem ter o cuidado de não banalizar a violência. Ao mesmo tempo, têm a obrigação de não sanitizar - passe o anglicismo - uma guerra. Quando há uma proibição de publicar fotos de caixões americanos, isso é um extremo. Penso que a BBC também não mostra cadáveres de soldados britânicos. A certa altura parece que ninguém morreu”.

“Não estou a dizer que se tenha de pôr pessoas cobertas de sangue em primeiro plano”, continua Granado. “Mas isto aqui é o horrível pelo horrível. Não tem justificação. Os jornalistas devem seguir a máxima ‘não faças aos outros o que não queres que te façam a ti’. Eu ouvi-a ao Óscar Mascarenhas, não deve ser dele. Se fosse a tua mãe atingida por uma rajada de metralhadora, tu punhas a imagem?”.