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As bandeiras do fim

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Quando se celebram os 40 anos das independências da ex-colónias, o Expresso foi à procura das últimas bandeiras portuguesas a serem arriadas. Só uma, a trazida de Moçambique, está exposta permanentemente, no Museu Militar em Lisboa

Quarenta anos depois, o Expresso foi à procura das últimas bandeiras de Portugal a serem arriadas nos seis territórios que foram alvo de descolonização durante o ano de 1975. Quatro estão em dois museus - o Militar e o da Presidência da República -, mas apenas uma, a que foi baixada em Moçambique (completam-se 40 anos esta quinta-feira), está exposta permanentemente. Uma encontra-se nas mãos de particulares. E da que estava em Timor-Leste desconhecia-se o paradeiro - mas que o Expresso irá revelar na próxima edicão semanal...

Na cabeceira da cama do último Governador da Guiné

Comecemos pela primeira em termos cronológicos: a que estava no Palácio do Governo, na Guiné. Após o acordo de Argel, celebrado com o PAIGC, Portugal reconheceu, de jure, a 10 de setembro de 1974, a independência da Guiné-Bissau - que já havia sido declarada mas de forma unilateral a 24 de setembro do ano anterior, na região de Madina do Boé. O governador, coronel Carlos Fabião, manteve-se em Bissau até às primeiras horas de 14 de outubro. A bandeira foi arriada e recolhida ao pôr-do-sol de dia 13 pelo capitão da Força Aérea Faria Paulino, que a entregou ao governador. Fabião trouxe-a para Lisboa e guardou-a, juntamente com mais duas bandeiras, à cabeceira da cama – até morrer, em 2006. A viúva e os filhos do general doaram os três panos ao Museu Militar, que as recebeu em 2010. Mas só no âmbito da pesquisa feita pelo Expresso é que os serviços daquele museu apuraram o historial de cada uma.

Cabo Verde: “um pequeno tesouro”

A de Moçambique foi para Lisboa com o alto-comissário, almirante Vítor Crespo, logo após ter sido arriada na cerimónia de independência, realizada a 25 de junho de 1975 no estádio da Machava, em Lourenço Marques (actual Maputo). Foi entregue, juntamente com a salva de prata em que fora transportada, no Museu Militar. É a única que está exposta, juntamente com a salva, em permanência, na Sala das Bandeiras.

A de Cabo Verde foi a primeira a ser enviada para este Museu. A independência foi a 5 de julho; no mês seguinte, o então tenente-coronel Amílcar Morgado, chefe de gabinete do último alto-comissário, almirante Almeida d’Eça, fê-la chegar a Santa Apolónia. “Perdida” durante décadas nas imensas reservas do principal museu português de carácter militar, só agora foi identificada, juntamente com o ofício que certificava a sua entrega. “Um pequeno tesouro”, foi como o atual director do Museu, coronel Luís Albuquerque, saudou a descoberta.

Ninguém queria a bandeira vinda de Angola

Arriada pelo então capitão Oliveira Patrício na independência de São Tomé e Príncipe, a 12 de julho de 1975, a bandeiras das quinas ficou nas mãos do último alto-comissário, coronel Pires Veloso. Em 2008, quando o general e ex-candidato a Presidente da República publicou as suas memórias (“Vice-Rei do Norte”), escolheu para capa uma fotografia sua ao lado do estandarte, que conservava na casa do Porto. Pires Veloso faleceu no ano passado e a bandeira permaneceu na casa familiar. O filho António Pires Veloso pensa doá-la a uma instituição que lhe assegure “a sua conservação com dignidade e visibilidade”.

A bandeira das quinas flutuou pela última vez em África no dia 10 de novembro. Desceu do mastro da Fortaleza de S. Miguel, em Luanda, horas antes de os três movimentos de libertação declararem, cada um na sua cidade, a independência de Angola. Quando chegou a Lisboa, o alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, contactou com várias instituições, militares e civis, tendo-se queixado que “não havia ninguém que a quisesse receber”… Acabou por a entregar pessoalmente ao Presidente da República, Ramalho Eanes, que, por seu turno, a enviou para o Museu da Presidência – onde aliás pensa que deveriam estar todas as bandeiras oriundas das antigas colónias. Pano com 2,6 metros de comprido, as suas dimensões levam a que não esteja em exibição permanente.

Timor: onde está a bandeira de Díli?

Ignora-se quem arriou a bandeira do mastro do Palácio das Repartições em Díli, a 28 de novembro de 1975, quando a Fretilin declarou unilateralmente a independência de Timor-Leste. Como se ignora se aquele símbolo da colonização portuguesa foi conservado, onde e em que condições. Muito provavelmente, a chave do mistério encontra-se na Indonésia, que a 7 de dezembro invadiu Timor, para uma sangrenta ocupação de 24 anos. A última bandeira que esteve içada em instalações da Marinha portuguesa foi recolhida pelo então capitão-tenente José Leiria Pinto, que, quando a guerra civil entre a Fretilin e a UDT se tornou insuportável, a levou para a ilha de Ataúro. O agora almirante Leiria Pinto conserva a bandeira consigo – tendo voltado a hasteá-la em sua casa, como o faz todos os anos, no passado 10 de Junho.