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O alho porro é mais velho do que o S. João. E protege da inveja e do mau olhado

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De alho porro na mão e pronto para levar com martelinhos: Mário Soares quando era Presidente da República, em 1993

Sérgio Granadeiro

A tradição do alho porro é anterior à era cristã. Um ritual pagão que, como muitos outros, foi “reciclado” na celebração popular do São João para venerar o solstício de verão

Os martelinhos de plástico tão em voga na noite de S. João têm pouco préstimo para espantar o mau olhado. Já o alho porro é proteção garantida contra pragas e invejas. Se vai passar o São João no Porto esta noite, e mesmo que não seja supersticioso, é melhor respeitar esta tradição milenar na noite de grande folia para os habitantes da cidade nortenha e muitos outros cidadãos do mundo.

A história do alho porro é anterior à era cristã e as fogueiras de São João cruzam fronteiras. Ao contrário do que muitos julgam, há festas populares e fogueiras de São João de Florença ao Brasil. A tradição repete-se um pouco por todo o mundo cristão, que nalgum momento da sua história se cruzou ou herdou o legado da presença celta. 

Os celtas, essas gentes que fundaram o primeiro burgo que haveria de dar origem à povoação romana de Portus Cale [o berço do Condado Portucalense], eram politeístas e correram boa parte da Europa antes de Cristo ter nascido na Galileia. Por isso, não queriam saber da festa de São João para nada. Mas celebravam com pompa e circunstância o Solstício de Verão, que quase coincide no calendário com o dia do santo.

Nessa grande festa de homenagem à Deusa-Mãe Natureza, os celtas faziam fogueiras e ofereciam ervas aromáticas à divindade. Os festejos de S. João [como os de muitos outros santos cristãos] recuperaram este ritual pagão.

As ervas aromáticas que são queimadas variam consoante a latitude do globo - o alho porro pode ser substituído pela alcachofra -, mas a origem do ritual tem um fim comum: espantar o mau olhado, garantir proteção para o ano inteiro e homenagear a fecundidade dos seres humanos e culturas. Tudo em honra da grande Deusa-Mãe: a Natureza que tudo nos dá e garante a sobrevivência das espécies.

Nas fogueiras queimavam-se ervas aromáticas em "louvor do fogo", esse elemento tão necessário à vida quotidiana, lembra o jornalista e estudioso da cidade do Porto Germano Silva.

O tempo foi passando e por cá adotámos o aroma dos manjericos. São João e Santo António partilham a cheirosa planta que abençoa os amores, ou seja, a fecundidade. A carga fálica que mais tarde surgiu associada aos manjericos surge "com a quadra que os acompanha. É a quadra que tem a mensagem que quem oferece o manjerico quer transmitir", explica Germano Silva.

"No século XIX havia muitos terrenos abandonados à volta do Porto onde o alho porro crescia a eito. Na noite de São João, as pessoas colhiam um alho porro e batiam com ele na cabeça daqueles com quem se cruzavam. Era uma forma de saudação, de cumprimento", diz Germano Silva. "Foram as rusgas (canções populares) que lhe deram uma conotação fálica, mas isso é secundário."

Para quem não saiba o que é um alho porro, é o mesmo que o alho francês que consumimos na nossa alimentação; o que se usa para a noite do santo está espigado.

Com o tempo e a industrialização, o alho porro tem sido progressivamente substituído pelo martelinho de plástico. Mas pelo sim pelo não, se andar esta noite pelas ruas do Porto, o melhor é levar um alho porro para casa e colocá-lo atrás da porta. Não vá o Diabo ou o FMI tecer alguma para o ano que vem ....