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Os treinadores de 3ª geração, by Mourinho: “Gestores do seu próprio conhecimento”

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José Mourinho (ao lado de António Veloso): "Não há treinadores bons, maus e assim-assim"; verdadeiramente, "há os treinadores e os destreinadores". Estes, explica o técnico, "são os que pioram os seus jogadores e as suas equipas"

Nuno Botelho

O técnico do Chelsea voltou à casa onde se formou, na Cruz Quebrada, para apresentar o Master Internacional de Futebol em Alto Rendimento. Primeiro, o treinador era o que treinava; depois, passou a ser um gestor de recursos humanos; agora, o paradigma é outro: "É o gestor do seu próprio conhecimento"

Casa cheia esta segunda-feira, ao final da manhã, na Faculdade de Motricidade Humana (FMH), à Cruz Quebrada, em Lisboa, para receber o antigo aluno José Mourinho e vê-lo e ouvi-lo apresentar o Master Internacional em Futebol de Alto Rendimento.

Num momento em que os treinadores portugueses dão cartas pelo mundo como nunca acontecera (campeões em cinco países, além de Portugal), a pós-graduação "é a resposta da FMH ao desafio da internacionalização" que está a ser colocado às universidades nacionais, diz António Veloso, coordenador do curso, em conjunto com Mourinho. Mas é o ex-estudante do então ISEF (Instituto Superior de Educação Física), que em 2009 recebeu o doutoramento "honoris causa" na escola onde se licenciou, quem se torna o verdadeiro patrono do Master.

Numa curta intervenção, de menos de um quarto de hora (na qual começou por quebrar o protocolo ao referir-se a histórias partilhadas com alguns dos seus colegas de curso, presentes na sala), José Mourinho traçou uma breve evolução do que é ser treinador de futebol.

"De início, era aquele que treinava". Já o atual técnico do Chelsea passava as primeiras temporadas no banco de suplentes, chegou-se a novo estádio. "Há 15 anos, começámos a tentar definir um novo perfil de treinador, e começou a falar-se em treinador como gestor de recursos humanos".

Uma conceção que teve o seu tempo. "Ser um treinador principal ('head coach') é ser um gestor de recursos humanos ter passado. Eu já concordei, agora discordo", diz Mourinho.

As razões são de peso e de fundo, pois "já passaram quase mil jogos sentado no banco e muitas noite a dormir pouco, a preparar jogos", explica.

"Agora, antes de ser gestor de recursos humanos, o treinador é gestor do seu próprio conhecimento", afirma o mais conceituado e titulado treinador português da História. O que conta "é ter capacidade de gerir a sua bagagem", diria mais adiante.

Destreinadores, com muito conhecimento
Para ilustrar aquele pensamento e desmistificar outras categorias, Mourinho recorre a uma dicotomia: "Não há treinadores bons, maus e assim-assim"; verdadeiramente, "há os treinadores e os destreinadores". Estes, explica o técnico, "são os que pioram os seus jogadores e as suas equipas".

De seguida, o técnico campeão europeu por clubes de dois países (Portugal e Itália) e campeão nacional em quatro (Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha) lança a pergunta e dá a resposta: "Os destreinadores não têm o seu conhecimento? Têm, se calhar têm até de mais. Não sabem é gerir esse conhecimento".

É a gestão do seu próprio conhecimento que José Mourinho empresta ao Master Internacional em Futebol de Alto Rendimento que a FMH apresentou esta segunda-feira. José Alves Dinis, o presidente da instituição, diz que a pós-graduação pretende "responder aos desafios que são colocados a um treinador de futebol de alto nível". O curso tem, assumidamente, como destinatário um público internacional, dirigindo-se a treinadores já no ativo que queiram ganhar uma especialização.

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) é parceira da FMH nesta iniciativa. Tiago Craveiro, o diretor-geral da FPF, destaca "o futebol como a principal e a mais relevante exportação nacional" e salienta a importância desta pós-graduação como uma alavanca para o país "exportar ainda mais conhecimento".

A pós-graduação deverá iniciar-se em janeiro de 2015. Dirigido a um público internacional, o curso será ministrado em inglês. De mercados como a Europa do Norte, Ásia e América Latina poderão vir muitos dos candidatos. O número máximo de formandos será de 30.

Quem quiser tornar-se melhor treinador pela cartilha de José Mourinho e da FMH deve preparar-se para pagar valores médios "próximos dos nove mil euros". Serão oito módulos (de quatro dias cada), mais um estágio final (numa equipa técnica de futebol, com um mínimo de duas semanas).

O que o futebol me tirou...
José Mourinho licenciou-se no então ISEF em 1987. Em 2009, quando a Faculdade de Motricidade Humana lhe atribuiu o doutoramento "honoris causa", exprimiu, sobretudo junto de alguns mais próximos, a vontade "colaborar" com a sua antiga casa.

Na manhã desta segunda-feira, as suas primeiras palavras foram de agradecimento para a instituição. "O futebol deu-me tanta coisa, mas também me tirou alguma coisa". Que coisa é essa? "A possibilidade de estar perto de amigos de toda a vida".

Num preâmbulo à apresentação do Master, em que confessou estar a usar uma "cábula", as palavras de Mourinho transpareceram emoção: "Estou aqui porque vos quero homenagear. Tenho uma qualidade que o futebol não me conseguiu tirar: não me deixou endeusar e esquecer-me daqueles que não devem ser esquecidos".

E esses, diria de seguida, são os "formadores", aqueles cuja ação consiste em "partilhar e dedicar uma vida à pesquisa", uma tarefa que classifica como "nobre".

Boleia aos "amigos do coração"
A chegada de José Mourinho à faculdade foi muito agitada. Percorreu os corredores quase a levitar. Parecia elevar-se do chão, tal a compressão feita pelo cordão da organização (quatro ou cinco seguranças e o resto alunos da FMH) e pelo autêntico enxame de jornalistas em seu redor.

Depois da sessão de apresentação do Master, novo banho de multidão, embora mais pequeno, quando esteve frente à Parede da Fama. Nela, a FMH perpetua o nome de antigos responsáveis da instituição e de ex-alunos que se distinguiram, como atletas ou como técnicos. A partir desta segunda-feira, a de José Mourinho ocupa um lugar cimeiro. Também já lá está a de Pedro Caixinha, aluno da faculdade numa geração posterior (2003), o treinador recentemente campeão no México.

Cerca de duas horas após a chegada, Mourinho deixou a faculdade onde irá pela primeira vez (quando chegar o seu turno de lecionar alguns conteúdos do Master) exercer uma função docente. Os laços, já se perceberam, são fortes. Ao deixar a Cruz Quebrada, a viatura onde seguia o técnico do Chelsea parou para dar boleia a dois desses "amigos do coração".