Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Alterações climáticas: obra humana que ofende a obra divina, diz o Papa

  • 333

A encíclica "Laudato Si", escrita por Francisco e apresentada esta quinta-feira no Vaticano, fala do ambiente e aquilo que os homens lhe fazem

Franco Origlia / Getty Image4s

A encíclica "Laudato Si" (Louvado Seja) toma posição clara no debate sobre o aquecimento global. Já se sentem as consequências políticas

Luís M. Faria

Jornalista

Jeb Bush não perdeu tempo. O agora candidato republicano à presidência dos Estados Unidos é um católico convertido, mas pelos vistos não acha ter obrigação de seguir o chefe da sua Igreja em tudo. 

Mal lhe chegou indicação do que dizia a enciclica papal "Laudato Si", apresentada esta quinta-feira no Vaticano, que fala do ambiente e aquilo que os homens lhe fazem - incluindo a nossa contribuição decisiva para as alterações climáticas - Bush manifestou a sua discordância: "Espero não ser castigado por dizer isto à frente do meu padre, mas não vou buscar a minha política económica aos meus bispos ou aos meus cardeais ou ao meu Papa". 

Um seu rival igualmente católico, Rick Santorum, declarou mesmo que Francisco não devia meter-se em assuntos científicos.

Compreendem-se as reações, sendo o aquecimento global um daqueles pontos em que nenhum republicano com ambições a vencer primárias nacionais se pode desviar da linha ortodoxa no seu partido, a qual nega a intervenção humana na matéria, pondo em causa o largo consenso científico há muito estabelecido. 

Em "Laudato Si", Francisco propõe-se abordar "a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta". Nunca um Papa terá declarado de forma tão explícita e completa que o aquecimento global existe, que é fruto da ação humana, e que as populações dos países em desenvolvimento são as suas principais vítimas

Em "Laudato Si", Francisco propõe-se abordar "a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta". Nunca um Papa terá declarado de forma tão explícita e completa que o aquecimento global existe, que é fruto da ação humana, e que as populações dos países em desenvolvimento são as suas principais vítimas

MAX ROSSI / REUTERS

Curiosamente, no tempo de João Paulo II e mesmo do seu sucessor Bento XVI, os católicos conservadores norte-americanos usavam a expressão "católico de cafetaria" para designar aqueles fiéis que aceitavam o ensino da Igreja apenas nalgumas coisas (digamos, a ressureição de Cristo, ou o dogma da Trindade) e não em outras (rejeição do aborto, do sexo fora do casamento, das relações gay, etc.). Um católico a sério tinha de aceitar tudo, alegavam. 

Agora que têm um Papa com posições mais próximas daquelas que são tradicionalmente as da esquerda numa variedade de aspetos, muitos deles encontram-se perante um dilema. Sobretudo nos EUA, onde a identidade socio-política se define por um conjunto de posições contrastantes em relação a um elenco mais ou menos estabelecido de assuntos, nos quais a religião e a ciência por vezes se opõem.   

Convergência entre líderes religiosos 
Em "Laudato Si", Francisco propõe-se abordar "a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso".

Não sendo nova a crítica ao capitalismo desenfreado, feita pela Igreja há bastante tempo, nunca um Papa terá declarado de forma tão explícita e completa que o aquecimento global existe, que é fruto da ação humana e que as populações dos países em desenvolvimento são as suas principais vítimas. Mas é isso mesmo que diz "Laudato Si", e o facto de o dizer pode ter uma influência decisiva nas discussões sobre a matéria daqui para a frente. 

A encíclica "Laudato Si" diz claramente: "O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana"

A encíclica "Laudato Si" diz claramente: "O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana"

JAGADEESH NV / EPA

Com efeito, embora 97% por cientistas reconheçam o papel humano nas alterações climáticas (a informação - que podemos encontrar no site da NASA, por exemplo - baseia-se em estudos publicados em revistas de referência), a percentagem de americanos que não aceita essa visão aproxima-se da metade. E entre a classe política pode tornar-se dominante, comprometendo o destino de quaisquer acordos internacionais na matéria.    

O Papa não está isolado entre os líderes religiosos. Há dias, o Dalai Lama referiu como "as alterações climáticas e a economia global nos afetam a todos". Esta terça-feira, o chefe da Igreja Anglicana, Justin Welby, publicou uma "declaração verde" onde refere o sofrimento dos pobres do mundo em resultado das subidas de temperatura. E a própria "Laudato Si" atribui lugar proeminente ao líder da Igreja Ortodoxa, o patriarca Bartolomeu, que se tornou conhecido como Patriarca Verde pelos seus esforços ecumémicos no combate ao materialismo desenfreado que arruina o planeta. Em setembro, numa encíclica de sua lavra, Bartolomeu criticou os "poderosos do mundo" pela sua visão de curto prazo e louvou a "sabedoria divina" da biodiversidade. 

Não mero "romantismo irracional"
As organizações ambientais esperam que essas contribuições ajudem a criar um clima favorável para a cimeira internacional sobre alterações climáticas que terá lugar em Paris, no próximo mês de dezembro. 

"Laudato Si" diz claramente: "O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana". E acrescenta: "Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenómeno particular. A Humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam".


Certas passagens da encíclica adotam um tom evocativo, visual, nos antípodas da abstracção teológica: "A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo", escreve o Papa Francisco

Certas passagens da encíclica adotam um tom evocativo, visual, nos antípodas da abstracção teológica: "A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo", escreve o Papa Francisco

BESO GULASHVILI / Reuters

Certas passagens da encíclica adotam um tom evocativo, visual, nos antípodas da abstração teológica: "A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. Em muitos lugares do planeta, os idosos recordam com saudade as paisagens de outrora, que agora veem submersas de lixo". 

Não se imagina maior contraste com a experiência de natureza a que associamos São Francisco de Assis, o inspirador do atual Papa. Como diz a encíclica agora publicada: «A reação de Francisco, sempre que olhava o Sol, a Lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo a pregar às flores, 'convidando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da razão'.". 

"A sua reação ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho", continua a encíclica. "Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento. (...) Se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. (...) A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio". 

  • O Papa é verde? Os ecologistas dizem o que pensam

    A primeira Encíclica de Francisco é dedicada ao Ambiente. O Papa apela a uma “conversão ecológica”, em defesa dos mais pobres e das gerações futuras. Os ambientalistas portugueses aplaudem e esperam que as palavras do Papa tenham consequências