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Homens europeus cada vez menos férteis

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A perda de qualidade do semen, com uma menor concentração de espermatozoides, é considerada um indicador do aumento da fragilidade reprodutiva dos homens europeus

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Um estudo dinamarquês alerta para o enfraquecimento da fertilidade masculina na Europa. As perspetivas para o novo milénio não são boas: cada vez mais, os casais precisarão recorrer a técnicas laboratoriais para conseguirem se reproduzir. Preparem-se: vêm aí europeus de laboratório

Niels Jogersen é um médico preocupado. Este andrologista dinamarquês teme pelo futuro da fertilidade masculina. Ontem, deixou um sério alerta no Encontro Europeu da Sociedade Europeia de Reprodução e Embriologia, que se realiza até amanhã em Lisboa e reúne mais de dez mil especialistas na área. Na raiz dos seus receios, a qualidade do sémen no Velho Continente. 

“Estamos com os mais baixos níveis das três últimas gerações. Esta é uma questão de saúde pública, que tem de ser debatida por toda a sociedade. Rapidamente”, explicou Jogersen ao Expresso, à saída da apresentação da pesquisa, intitulada “Qualidade do Sémen no Próximo Milénio: Estudos Prospetivos na Europa”. A investigação liderada por Jorgensen, da Universidade de Copenhaga, reúne dados de vários países e conclui que este é um problema urgente.

Um decréscimo de mais de 20% na contagem total na concentração de espermatozoides dos finlandeses, entre 1998 e 2006, e de 15% nos espanhóis. Os franceses apresentaram uma diminuição de cerca de um terço da quantidade total de espermatozoides. Os suecos revelaram uma estabilidade na contagem realizada entre 2000 e 2010. Mas também houve países onde se registou crescimento, como a Dinamarca (12%, entre 1996 e 2010). Mas, apesar das diferenças entre os países e das tendências individuais, todos os Estados registaram um decréscimo se o horizonte de comparação for 1940.

O debate sobre a qualidade do sémen começou a suscitar atenção em 1992 quando, como explica Jorgensen, uma pesquisa revelou que a qualidade do material biológico dos europeus perdera 50% da qualidade em cerca de cinco décadas. Desde então, tem estado sob o olhar dos especialistas, apesar de, segundo o investigador dinamarquês, não serem conhecidos números específicos para países do Sul da Europa, com exceção de alguns dados parciais sobre os espanhóis. Em Portugal não há nada estruturado e, apenas a partir do próximo ano, deverão começar a surgir dados relativos aos homens brasileiros.

A questão da quantidade e da qualidade do sémen é tão mais relevante quanto está diretamente associada à fertilidade masculina, embora a quantidade não seja o único critério — também a morfologia e a capacidade de movimentação dos espermatozoides devem ser consideradas. Os estudos revelam que as possibilidades de fertilização aumentam quando a concentração de espermatozoides é superior a 40 mill/ml (40 milhões de espermatozoides por mililitro de sémen).

A mais recente recolha de dados realizada por Jorgensen nos países com números divulgados é preocupante: Estónia 62, Suécia 53, França 50, Finlândia 50, Dinamarca 48, Suíça 47, Espanha 44 e Alemanha 44. O investigador acrescenta ainda os números mais recentes da China: 50 mill/ml. E, feitas as contas à quantidade, é preciso avaliar a qualidade e também aqui as perspetivas não são positivas.

Na Dinamarca, depois de avaliados 4867 homens, com a idade média de 19 anos, estima-se que cerca de 20% dos homens jovens registaram um decréscimo severo da qualidade do sémen e apenas 23% dos participantes revelaram uma qualidade ótima de concentração e da morfologia dos espermatozoides. Em resumo, cerca de 15% dos dinamarqueses poderão ter de passar por um tratamento de fertilidade no futuro.

Modo de vida perigoso
Feita a constatação, há que se perceber as razões desta tendência e Niels Jogersen não tem dúvidas: o estilo de vida contemporâneo. “A humanidade está exposta a uma grande quantidade de químicos com elevado potencial disruptivo endócrino. Sobretudo a exposição do feto ao que é consumido pelas mães pode comprometer o desenvolvimento testicular, o que determina a redução da quantidade e da qualidade do sémen na vida adulta, aumenta o risco de cancro nos testículos e reduz a capacidade de produzir testosterona”, explica o andrologista dinamarquês.

Uma dieta rica em gorduras saturadas, o consumo excessivo de álcool, maus hábitos de sono, falta de atividade física são alguns dos fatores que aumentam o risco de empobrecimento da qualidade do sémen. Confrontado pelo Expresso, Jorgensen explicou que ainda não há dados sobre os efeitos da utilização de aparelhos eletrónicos, como telemóveis, computadores e ambientes wi-fi e que começa a ser cada vez mais difícil encontrar grupos de controlo, que não se encontrem expostos a este modo de vida. O que os investigadores já perceberam é que este não é um problema de origem genética, portanto resulta da influência ambiental.

“Esta é uma pergunta que temos de nos fazer todos os dias. Cada vez que uma mulher coloca químicos sobre o rosto para se maquilhar, que uma mãe expõe a sua criança a um ambiente saturado de componentes artificiais, que um homem recusa-se a fazer exercício, são decisões diárias que tomamos e temos de nos indagar se realmente as devemos tomar. Será que precisamos de tantos químicos para viver?”, indagou Niels Jogersen, em conversa com o Expresso, garantindo que ele mesmo o faz diariamente.

Um em cada seis casais em todo o mundo confrontam-se com algum problema de infertilidade durante a vida reprodutiva e entre 20 e 30% devem-se a problemas encontrados nos homens. Desde 1978, quando nasceu a primeira criança resultado de uma fertilização in vitro, que mais de 5,4 bebés já nasceram com recurso a técnicas de Procriação Medicamente Assistida.