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Como o Expresso inspirou Danae Stratou, mulher de Varoufakis

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FOTO Rui Duarte Silva

Durante a conferência de apresentação das duas instalações vídeo que irão figurar na Bienal de Cerveira, Danae Stratou revelou esta quarta feira que a sua obra Black Boxes surgiu nos bastidores de uma entrevista do marido ao Expresso, em Atenas, em Julho de 2011.

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

"Vital Spaces" e "The Globalizing Wall- Cut 7 Dividing Lines", com textos de Yanis Varoufakis, são as duas obras em suporte digital que Danae Stratou irá expor na próxima Bienal de Cerveira, entre 18 de julho e 19 de setembro.

A artista natural de Atenas, casada com o mediático ministro das Finanças grego, conhecida pelas suas obras de larga escala de comunhão com a natureza, como "Desert Breathe", um dos maiores projetos de "land art" mundial e que cobre 100 mil metros quadrados do deserto do Saara, converteu-se nos últimos anos a instalações audiovisuais, como as apresentadas, esta quarta feira,  no Forúm Cultural de Cerveira.

Numa conferência em inglês que teve por tema central "The Production anda Musealization of the Artwork in Digital Format", Danae Stratou disponibilizou-se a responder ao público presente e aos jornalistas mas "apenas para falar de arte e do seu trabalho" e não da crise grega ou de política, talvez para não se expor a controversas como a da polémica reportagem do Paris Match, em que surgiu ao lado do marido no terraço do seu espaçoso nas imediações da Acrópole, em Atenas.

FOTO Rui Duarte Silva

Apesar das cautelas, Danae Stratou acabou por confessar que é impossível para um artista ser apolítico ou indiferente ao contexto social, económico e político em que vivem. "E o mundo atual, tal como se existe, não é um lugar melhor para viver", observou, referindo-se a si própria como uma artista "mãos na massa", que gosta de experimentar e vivenciar no terreno cada etapa dos seus trabalhos. 

Em "Vital Spaces", que tem Istambul como primeiro palco de megametrópoles que pretende filmar, a ideia central é o contraste entre o formigueiro da multidão filmada à escala real "a partir do no chão" e as imagens captadas por drones do alto de um helicóptero. "A ideia é transmitir as diferentes ordens e desordens dos centros históricos e subúrbios de cidades tão populosas como Istambul ou Xangai em que se torna difícil coexistir nelas", sustenta, advertindo que as suas obras não pretendem apontar soluções mas lançar questões e fazer pensar para onde vamos.

Em "The Globalizing Wall - Cut 7 Diving Lines", o cariz político da obra de Dane é ainda mais evidente, concebida ao longo de uma viagem de um ano, parcialmente acompanhada pelo marido, por sete zonas de conflito separadas ou que já estiveram divididas por barreiras físicas, como o Kosovo, Belfast, a linha de confronto de Caxemira, a Palestina, ou Juarez entre o México e EUA. 

A obra, apresentada em vídeo, como se estivesse a ser observada através de uma janela de comboio.

Confrontada com a questão se deixou para trás as suas obras de "land art" que a tornaram famosa para se tornar numa artista de intervenção política, Danae Stratou respondeu com tato mas sem deixar de ser assertiva: "Os meus trabalhos fazem parte de um percurso de 20 anos, é natural que esteja mais madura, mais interventiva, mais contagiada pelo contexto difícil em que vivemos".

A título de exemplo, revelou que uma das suas obras com uma mensagem mais política será possivelmente Black Boxes, uma instalação de 100 caixas negras, criada há quatro anos e que teve por inspiração uma conversa a que assistiu antes de uma entrevista a um jornalista português do Expresso (Micael Pereira) a Yanis Faroufakis, em 2011, quando este era já um popular economista, professor e investigador de Economia Política, na Universidade de Atenas.


Black Boxes teve por inspiração uma conversa a que assistiu antes da entrevista de Varoukis ao jornalista do Expresso Micael Pereira

Black Boxes teve por inspiração uma conversa a que assistiu antes da entrevista de Varoukis ao jornalista do Expresso Micael Pereira

"Falámos das peritagens do avião da Air France que caiu entre o Rio e Paris e morreram mais de 400 pessoas e do wikileaks e da prisão de Assange, quando pensei como seria bom antecipar as respostas escondidas nas caixas negras", lembrou Danae, que desafiou os gregos a enviarem-lhe mensagens para colocar dentro das caixas com uma palavra simbólica daquilo que mais receavam perder. "Dignidade, foi a palavra mais vezes repetida", adianta, desafio que pretende agora lançar à escala global através da criação de um portal da obra. 

Em 2010, iniciou e co-fundou a organização sem fins lucrativos Vital Sapce, a que se associou o marido, uma plataforma de arte global, interdisciplinar e multimedia que aborda as questões mais prementes da atualidade.

A crise, afirma, tem afetado muito os jovens artistas gregos e a cultura do país, mas Danae acredita que as dificuldades podem ser um acelerador para um maior compromisso criativo. Danae Starou chegou ao Porto segunda feira à noite, regressa a Atenas amanhã e voltará em julho para a XVIII Bienal de Arte de Cerveira, a vila das artes onde diz ter sido muito bem acolhida. Por que aceitou o convite? "É uma mostra com prestígio e os seus responsáveis muito profissionais", responde.

Outra das surpresas foi nunca ter imaginado "ser tão famosa em Portugal", enquanto olhava de frente as câmaras de filmar e fotografar.