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Uma equação por resolver: o que os médicos não sabem sobre o cancro nos bebés de laboratório

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Ana Baião

As pesquisas realizadas até agora não são conclusivas sobre a ligação entre o risco de cancro e os bebés gerados através de técnicas de procriação medicamente assistida. Os especialistas defendem que é preciso continuar a estudar relações de causa e efeito

No maior encontro mundial na área da Reprodução e da Embriologia, que reúne em Lisboa até quarta-feira mais de dez mil especialistas, foram apresentados dois estudos sobre a relação entre o surgimento de cancro nas crianças geradas com recurso a técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA). O tema é um dos focos de atenção das equipas médicas atualmente e, embora ainda não tenham sido encontrados resultados estatiscamente sólidos, todos defendem a necessidade de continuar a investigar. 

O painel era intitulado "Segurança para as crianças nascidas de PMA: além do nascimento" e a primeira investigação a ser apresentada coube a Marte Reigstad, do Hospital da Universidade de Oslo, na Noruega. A investigadora cruzou o registo de todos os bebés nascidos naquele país entre 1984 e 2011, com o registo de diasgnóstico de cancros infantis no mesmo período. Mais de 1,6 milhões de crianças foram observadas. Do total, 25.782 nasceram com o apoio de técnicas de PMA e, destas, 51 desenvolveram alguma forma de cancro (0,20%), com especial destaque para as leucemias (33%). Das crianças que nasceram de mães que não se submeteram a tratamentos contra a infertilidade, 4503 (0,28%) desenvolveram algum tipo de cancro, e, destas, 23% foram leucemias.

As diferenças fundamentais surgiram no que toca à idade do diagnóstico: 64% das crianças com cancro, nascidas com apoio de PMA, identificaram os cancros com menos de cinco anos e apenas 36% das crianças nascidas naturalmente foram diagnosticadas abaixo daquela idade. A autora sublinhou que, se na generalidade dos cancros, a taxa de risco é semelhante entre os dois universos observados, mas disse que o mesmo não acontece com as leucemias e os linformas de Hodgkin, onde o risco dos bebés nascidos com suporte de PMA mostrou-se acrescido: 1,67 para as leucemias e 3,63 para os linfomas. Os números foram recebidos com um pesado silêncio pela audiência de cerca de duas centenas de pessoas e apenas um investigador da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, colocou uma questão metodológica.

O peso do silêncio
À saída da comunicação, Marte Reigstad explicou ao Expresso que "o cancro infantil neste grupo de crianças é uma preocupação e que é preciso investigar de forma mais aprofundada, com uma população de análise mais alargada e durante um período de tempo ainda mais longo para se reunir resultados mais consolidados". A investigadora mostrou-se surpreendida com a reacção da plateia e disse que tal pode ter acontecido em consequência da delicadeza do tema. Disse ainda que as razões deste risco aumentado não são claras, podendo dever-se às hormonas administradas durante o tratamento, à manipulação do material genético ou consequências da própria infertilidade. O seu próximo trabalho segue na linha de investigações anteriores sobre a relação entre os tratamentos contra a infertilidade e o surgimento de cancro nas mulheres a eles submetidas.

Assim que esta apresentação acabou, subiu ao palanque Mandy Spaan, do Instituto do Cancro da Holanda, para apresentar um trabalho sobre o mesmo tema. Neste caso, o período de análise ficou compreendido entre 1983 e 2013 e a autora começou por anunciar que os resultados "não eram conclusivos", sendo necessário continuar a investigar a relação entre o cancro e as técnicas de PMA.

Também nesta pesquisa, os linfomas de Hodgkin apresentaram uma taxa de risco mais elevada, ao contrário do que foi registado com as leucemias. A nota de destaque desta pesquisa diz respeito à amplitude do tempo de observação (16 anos), mais longo do que na maior parte das pesquisas sobre o mesmo tema. No entanto, neste caso, o universo observado era significantemente mais reduzido: 44 mil crianças. A metodologia foi semelhante à do estudo anterior. E o alerta deixado à assistência também: "Apesar da utilização crescente de técnicas de PMA, a informação sobre os riscos potenciais para a saúde destas crianças ainda apresenta lacunas. O que significa que o conhecimento dos médicos para aconselhar os pais que colocam a hipótese de recorrer a estas técnicas é insuficiente. Mas também os pediatras oncológicos precisam de maiores evidências sobre a potencial relação entre a infertilidade e o surgimento de cancros infantis". 

Quando Mandy Spaan acabou a sua apresentação, novo silêncio e, outra vez, não foram colocadas questões à investigadora. Naquela manhã e naquela sala, a nota de maior animação surgiu apenas após a apresentação da investigação que mostrou que as crianças nascidas com recurso a PMA não revelaram pior desempenho académico na adolescência do que aquelas que nasceram naturalmente. Esta investigação foi liderada por Anne Pedersen, da estudante de Medicina no Hospital Universitário de Huidovre, em Copenhaga, na Dinamarca, e teve direito a aplausos entusiásticos e a perguntas no final.