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Técnicas de procriação médica elevam taxa de risco de leucemia infantil

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Ana Baião

Investigadora avaliou os dados de todas as crianças nascidas na Noruega entre 1984 e 2011, com e sem o apoio de técnicas médicas, e verificou que os bebés de laboratório correm um risco acrescido de desenvolver cancros. O que falta explicar é se a culpa é da infertilidade ou dos tratamentos

Os filhos de mulheres que se submeteram a técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA) têm um risco acrescido de desenvolver doenças cancerígenas? Esta foi a pergunta de base do estudo que cruzou o registo de todos os bebés nascidos na Noruega, entre 1984 e 2011, com o registo nacional de cancros daquele país. 

Das mais de 1,6 milhões de crianças avaliadas, 25.782 nasceram de mães que se submeteram a tratamentos contra a infertilidade. Destas, 51 (0,20%) desenvolveram alguma forma de cancro, sobretudo leucemias (33%). Também foram identificados cancros no sistema nervoso central (12%) e nos tecidos moles (10%), tendo sido registados linfomas de Hodgkin em 6% dos casos. Os restantes 25% foram doenças cancerígenas variadas.

Das crianças que nasceram sem o recurso às técnicas de PMA, 4503 (0,28%) desenvolveram algum tipo de cancro, com percentagens da mesma ordem. Mas a diferença é que a idade média em que o cancro foi diagnosticado é de 3,2 anos nas crianças nascidas com o apoio da medicina e de 8,8 anos nas demais. Assim, as taxas de risco (cálculo que leva em conta, entre outros factores, a evolução relativa do risco dos indivíduos, tendo em consideração a passagem do tempo) de todos os tipos de cancro nas crianças nascidas com suporte médico é 1,21 superior à generalidade, e, segundo a investigação, no caso da leucemia e do linfoma de Hodgkin aumentam "significativamente" para 1,67 e 3,63, respetivamente.

Laboratório de Embriologia no Hospital de Santa Maria

Laboratório de Embriologia no Hospital de Santa Maria

Ana Baião

Marte Reigstad, autora da investigação e integrada na Unidade Norueguesa de Aconselhamento da Saúde da Mulher, explica ao Expresso que "a razão do elevado risco de cancros hematológicos em crianças nascidas após tecnologias de reprodução assistida ainda não está clara". As hormonas administradas às mães durante os tratamentos, a manipulaçã dos ovócitos, espermatozóides e embriões durante o período da fertilização in vitro são algumas das hipóteses em estudo. A terceira tese é de que seja justamente a própria infertilidade a estar na base do problema. Na pesquisa foram tidos em consideração fatores como a idade materna, a ordem de nascimento, o sexo, o peso ao nascer e a idade gestacional.

Estes dados e a sua ligação a outras pesquisas já realizadas na Dinamarca, na Suécia e na Grécia, afirma Reigstad, "geram algumas preocupações" e a autora afirma "ser importante que estas crianças continuem a ser acompanhadas enquanto crescem". Em causa, explica, está a necessidade de alargar o universo de crianças estudadas e tentar identificar subgrupos que apresentem riscos específicos.

Esta mesma investigadora já havia estudado a incidência do cancro na mama entre as mulheres tratadas à infertilidade e já havia encontrado indicações de que, independentemente do tratamento utilizado, algumas apresentavam um risco elevado de desenvolver esta neoplasia.

Caixa com embriões

Caixa com embriões

Ana Baião

Os números da investigação norueguesa vieram reforçar a associação que já se suspeitava existir entre os problemas de fertilidade maternos e os cancros desenvolvidos durante a infância, com especial relevo no caso da leucemia. 

O resumo do estudo norueguês explica que há algum tempo surgiram as primeiras dúvidas sobre as possibilidades de a utilização de técnicas laboratoriais provocarem mudanças hereditárias na expressão dos genes, durante a divisão celular e que não eram causadas por alterações na sequência do DNA, ainda durante o desenvolvimento fetal. E seriam estas mudanças que estariam na origem de um aumento do risco de cancro. 

Uma pista paralela, contudo, aponta para que seja a própria situação de infertilidade um fator de risco decisivo no surgimento da doença. Embora os resultados não sejam absolutos, várias investigações conjugavam-se para apontar um aumento do risco no surgimento de leucemia nas crianças concebidas com o apoio das técnicas de PMA.

Questionado sobre esta investigação, Sérgio Soares, diretor do centro IVI de combate à infertilidade, confirma que "os potenciais riscos associados à utilização de técnicas de PMA têm sido exaustivamente estudados e, ainda assim, algumas perguntas continuam sem respostas definitivas". Este médico, doutorado em Biologia Celular e Imunologia na Universidade Autónoma de Barcelona, afirma que "a maior parte dos estudos sobre o tema não evidencia um aumento na incidência de cancro nas crianças nascidas dos tratamentos médicos". 

Em relação ao risco acrescido de leucemia, Sérgio Soares diz que "há indícios importantes de que hábitos de vida paternos associados à infertilidade, como o tabagismo, estão vinculados a um aumento da incidência de cancro na descendência". E alerta para a necessidade de se continuar a estudar estas ligações.

Este estudo foi apresentado esta segunda-feira no 31.º encontro Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, que se realiza este ano em Lisboa e reúne mais de 10 mil especialistas na área. 

Existem no mundo mais de cinco milhões de crianças que nasceram em resultado da utilização de técnicas de PMA, sendo que o chamado primeiro bebé proveta nasceu há 37 anos no Reino Unido e, em Portugal, a primeira criança que resultou de fertilização in vitro nasceu em 1986 (Carlos Saleiro, futebolista, antig jogador do Sporting e da Académica).

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