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Essa coisa estranha de ressuscitar textos

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Gosta do Facebook e detesta o Twitter. Diz que não escreve para ganhar dinheiro, mas para ser lido. Reuniu num livro - “A década dos psicopatas” - duzentas crónicas das quase duas mil que publicou entre 2005 e 2015 no Expresso (semanário, site e Diário). O único tema sobre o qual Daniel Oliveira nunca escreveu é a sua vida privada, o único tema sobre o qual só escreveu uma vez é a agricultura

Toquei à campainha três minutos antes da hora marcada. Abriu a porta a falar ao telemóvel e fez-me sinal para entrar e ir para o jardim nas traseiras da casa. É aí que habitualmente escreve e lê e viaja na internet. Viaja muito na internet. Na noite anterior tinha estado a celebrar a vitória do Sporting na Taça de Portugal e agora estava a escrever uma crónica sobre fé e Deus. Pelo meio tinha encontrado espaço mental para falar sobre a eventual candidatura de Rui Rio à presidência da República e já tinha enviado o texto para o Expresso Diário - tudo controlado, tempo para ser entrevistado. “Mentalmente sou muito disciplinado, preciso de disciplina para escrever todos os dias.” 

Há um conto famoso de Melville sobre um homem contratado como escrivão que prefere não escrever. Perante a tarefa de redigir, Bartleby prefere não trabalhar, não cumprir o dever, não fazer. Daniel Oliveira é o oposto, prefere sempre escrever. Seja para apresentar um livro, participar numa conferência, qualquer coisa que implique expor as suas ideias, Daniel escreve-as sempre primeiro. 

Há ano e meio que todos os dias escreve uma coluna no Expresso Diário e há dez anos que escreve uma vez por semana no jornal Expresso. Colabora também com o Record, e de quinze em quinze dias lança um texto num blogue sobre a Grécia. Há muitos, muitos anos, quando a blogosfera começou a fervilhar em Portugal, ele estava lá. Agora está nas redes sociais. Daniel Oliveira atualiza a sua página no Facebook várias vezes ao dia. “Escrevo para ser lido e ter feedback.” Convém dizer que recebe muito feedback - dezenas de emails e de comentários por dia - e que responde a muitos, muitos, muitos deles. Mesmo. 

Daniel dorme mais ou menos seis horas por noite e esse é o tempo que passa realmente offline. Depois acorda e liga-se à internet. Às vezes, quando quer concentrar-se e sentir-se “desligado”, reúne todo o material que precisa para escrever e vai até uma esplanada. Offline. Gente real, contacto visual. A maior parte das vezes, contudo, é mais provável apanhá-lo online. “Estou a tentar reduzir o tempo que passo na internet. O computador tem um problema, a pessoa dispersa-se.” 

O único tema sobre o qual nunca escreveu é a sua vida privada. O único tema sobre o qual só escreveu uma vez é a agricultura. Em geral escreve a crónica na véspera de ser publicada, mas se acontece alguma coisa importante na manhã desse dia, Daniel muda de planos e escreve novo texto. Já falhou algumas crónicas no Diário, “mas poucas”. No semanário é que nunca falhou. Vai em seiscentas e tal semanas de colaboração (um ano tem cinquenta e duas). 

“Essa coisa estranha de ressuscitar textos”
No início da semana envia um e-mail para si próprio com os temas que quer explorar, mas raramente cumpre o plano. Orgulha-se de nunca ter escrito aquela típica crónica sobre a falta de tema, pois tem sempre uma ideia na gaveta. Há temas sobre os quais demora mais de um dia a escrever e, por norma, é desses que mais gosta. “Os textos que me dão mais prazer são os que dão mais trabalho. Sinto-me mais à vontade a escrever sobre política, mas prefiro temas existencialistas.”

Sempre quis escrever, mas nunca teve um diário. Diz que é pouco ligado às coisas e aos textos e por isso demorou quase dez anos a decidir publicar o seu primeiro livro. “A década dos psicopatas” reúne perto de duzentas crónicas das quase duas mil que escreveu entre 2005 e 2015. “O livro tem essa coisa estranha de ressuscitar textos”, mas “também não temos aqui um conjunto de dispersos”. “Há fios de raciocínio que acompanham as crónicas ao longo dos anos, por isso fez sentido publicá-las em livro.”  

Num futuro não muito distante, Daniel Oliveira gostaria de conseguir publicar um livro sobre a crise e os media, mas para isso tem de arranjar tempo. “É o problema de escrever todos os dias. Ficámos sem tempo e sem disponibilidade mental para escrever textos de maior fôlego.” O colunista tem também planos para regressar ao jornalismo lá para o outono. Quer fazer reportagem, mas não quer regressar ao barulho da redação. Habituou-se ao jardim caseiro e aos dois gatos que se espreguiçam ao seu lado - Tobias, corpo preto e olhar desconfiado, e Simão, pelo branco e feitio generoso.