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Como é que um pano se transforma numa bandeira?

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Verde e Rubro. Estas duas cores foram usadas pela primeira vez em 1385, por D. João I (a quarta bandeira, na fila de cima)

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Esta quarta-feira, 10 de Junho, assinala-se o Dia de Portugal. Eis a história da bandeira nacional, que à semelhança da roupa também teve as suas modas. E descubra que o vermelho não representa o sangue dos heróis, nem o verde a cor dos mares desbravados pelos marinheiros dos Descobrimentos portugueses

Há quem morra para defender um bocado de pano. Ou pelo menos o que ele representa. E isto acontece porque esse bocado de pano provoca em muitos uma intensa vibração. Uma pulsão patriótica. Identitária. Em Portugal, muitos julgam que as cores da bandeira nacional simbolizam a esperança e o sangue derramado dos heróis. Mas isso é um mito. O verde tem pouco a ver com a esperança ou com a cor do mar que foi desbravado pelos afoitos marinheiros dos Descobrimentos. É "a cor que Auguste Comte destinava à ordem e ao progresso das nações futuras" e que assim "inscreve a sua matriz ideológica e cultural positivista". O vermelho é "a cor dos movimentos populares e revolucionários, da Revolução de 1848 à Comuna de Paris de 1871" e que "inscreve no símbolo nacional a matriz política democrática do republicanismo".

Era assim a bandeira içada no dia 5 de Outubro de 1910 na Câmara Municipal de Lisboa

Era assim a bandeira içada no dia 5 de Outubro de 1910 na Câmara Municipal de Lisboa

IMAGENS DO LIVRO "HERÓIS DO MAR - HISTÓRIA DOS SÍMBOLOS NACIONAIS"

Num Portugal que não nasceu com a República mas em 1143, "a esfera armilar e o escudo das quinas, inscrevem na bandeira a tradição histórica e os mitos das origens e da idade de ouro: a Fundação e a Expansão. No fundo, os dois momentos históricos que a propaganda republicana contrapunha à decadência da Monarquia Constitucional e que inscrevem no símbolo nacional a matriz nacionalista e colonial do republicanismo".

Por isso, era vermelha e verde a bandeira içada na Câmara Municipal de Lisboa quando foi proclamada a República, a 5 de Outubro de 1910. Tal como era verde e encarnada "a primeira bandeira da República desfraldada em Portugal" a 31 de janeiro de 1891, aquando da primeira tentativa de derrube da monarquia.

Capa do livro do historiador Nuno Severiano Teixeira que conta a história do hino e da bandeira nacional. Edição Esfera dos Livros

Capa do livro do historiador Nuno Severiano Teixeira que conta a história do hino e da bandeira nacional. Edição Esfera dos Livros

IMAGEM DO LIVRO "HERÓIS DO MAR - HISTÓRIA DOS SÍMBOLOS NACIONAIS"

É desta evolução que nos fala o livro "Heróis do Mar - História dos Símbolos Nacionais", do historiador Nuno Severiano Teixeira, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, que agora chega às bancas. Um livro que conta a história política do hino e da bandeira, os nosso símbolos nacionais, recordando que o poeta Guerra Junqueiro, republicano inflamado, queria que a República mantivesse o azul e branco como cores da bandeira nacional. "Verde e vermelha é uma bandeira de pretos", assim consta que terá comentado... vá lá saber-se porquê. Talvez por um traço de ancestral ou cromossómico porte aristocrático, porque em tudo o resto Guerra Junqueiro era um democrata.

Projeto de bandeira apresentado por Guerra Junqueiro em 1910

Projeto de bandeira apresentado por Guerra Junqueiro em 1910

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À semelhança da roupa, as bandeiras também têm modas. Eram quadradas na Idade Média, retangulares no período moderno e contemporâneo. A República recupera as cores da bandeira do Mestre de Avis e, neste século, o desporto, sobretudo o futebol, têm um papel determinante na popularização deste símbolo da nação.

"Alegoria à República". Litografia de Roque Gameiro

"Alegoria à República". Litografia de Roque Gameiro

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Ao contrário do regime monárquico, em que "o rei tem um corpo físico, uma imagem que os súbitos conhecem e reconhecem", a república "é uma ideia abstrata, intangível". Uma ideia que precisa de símbolos para chegar aos cidadãos.
Exímios na arte da propaganda, aquilo a que hoje se chamaria "marketing político", o Partido Republicano desenvolve uma "estratégia da construção imagética e da simbólica" política que defende. "Primeiro, a República ganha uma imagem feminina. Depois, essa 'república mulher' traja sempre de verde e vermelho".

Bandeira da dinastia de Avis durou 96 anos

Bandeira da dinastia de Avis durou 96 anos

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Ao longo dos sete séculos em que Portugal foi governado por reis, "apenas uma vez, e de forma marginal, verde e vermelho apareceram em conjunto"; foi na bandeira de D. João I, o rei aclamado pelo povo, quando a crise de 1383-1385 fez perigar a independência nacional, dando assim início à dinastia de Avis.

Era quadrada a bandeira da dinastia de Avis, à semelhança de todas as bandeiras de matriz medieval. Este estandarte perdura até ao reinado de D. João II, o Príncipe Perfeito, o homem que planeia e programa toda a aventura dos Descobrimentos.

Bandeira da Restauração da independência. 1º de Dezembro de 1640

Bandeira da Restauração da independência. 1º de Dezembro de 1640

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O verde e o vermelho voltam a surgir em 1640, outra data crítica da história da nação portuguesa. A bandeira da Restauração - proclamada a 1 de Dezembro de 1640 no Palácio da Independência, em Lisboa - tinha um fundo verde e uma cruz branca e vermelha, e havia de inaugurar a última dinastia reinante em Portugal, a dos Bragança. Recorde-se que a primeira bandeira portuguesa, aquela que terá sido usada por Afonso Henriques em 1143, era branca com uma cruz azul.

Primeiro projeto de bandeira que a comissão encarregue da sua elaboração apresentou ao Governo. Foi chumbado em outubro de 1910

Primeiro projeto de bandeira que a comissão encarregue da sua elaboração apresentou ao Governo. Foi chumbado em outubro de 1910

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Feita a revisão dos momentos chave em que se recorreu à utilização do verde e do vermelho como cores representativas da identidade nacional, passemos à polémica e participada história da atual bandeira portuguesa, que este ano completa 105 anos.

A 15 de outubro de 1910, o Diário do Governo publicou um decreto que instituía a comissão que iria escolher este símbolo da pátria, e que teria de trabalhar depressa e de preferência bem. A comissão "era composta por cinco elementos, todos eles figuras de relevo da vida pública portuguesa". O pintor Columbano Bordalo Pinheiro, irmão de Rafael, o 'pai' do Zé Povinho, o jornalista João Chagas, o romancista Abel Botelho, e os militares Ladislau Parreira e Afonso Palla.

Postal alusivo à escolha da bandeira. 1910

Postal alusivo à escolha da bandeira. 1910

Coleção particular António Pedro Vicente

A 30 de outubro o Conselho de Ministros de então chumbou o primeiro projeto apresentado. A 6 de novembro foi enviado um segundo projeto. "Não se chegou a consenso. A polémica foi longa e furiosa. Por todo o lado, continuavam as propostas para a nova bandeira. A 28 de novembro, a Sociedade de Geografia de Lisboa sobre bandeiras históricas". Teve seis mil visitantes.

Por fim, "a 29 de novembro para gáudio dos defensores do verde e rubro e indignação dos partidários do azul e branco", como era o caso do republicano Guerra Junqueiro, o Governo aprovou o projeto apresentado pela comissão da bandeira "pela escassa maioria de um voto". Era preciso andar depressa porque a bandeira do novo regime iria ser hasteada no dia 1º de Dezembro, celebrando em simultâneo a jovem República e os 270 anos da restauração da independência nacional.

A bandeira nacional 'sobreviveu' e faz 105 anos em dezembro. Já atravessou três regimes políticos

A bandeira nacional 'sobreviveu' e faz 105 anos em dezembro. Já atravessou três regimes políticos

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Passaram 105 anos, e Portugal atravessou três regimes. O país despediu-se das colónias e virou-se para a Europa. Perdeu a moeda nacional [outro símbolo identitário] para aderir ao euro. Mas a bandeira que foi fabricada sob o olhar da comissão nomeada em 1910, "por um batalhão de operárias da oficina de bandeiras Cordoaria Nacional" é aquela que os portugueses continuam a desfraldar nos momentos em que precisam de se projetar no coletivo da nação.

Bandeira nacional com uma partitura do hino em fudo

Bandeira nacional com uma partitura do hino em fudo

Coleção particular António Pedro Vicente

Ao contrário do que acontecia na República e na ditadura do Estado Novo, em que a bandeira era venerada e honrada numa liturgia das elites políticas, a Democracia popularizou este símbolo. A grande viragem acontece já neste século, pela mão de um treinador de futebol brasileiro. Quem não se lembra do ano em que Portugal acolheu o Europeu de Futebol, e da resposta dada pelos portugueses ao apelo de Scolari nessa primavera de 2004. A bandeira popularizou-se, encheu os estádios, engalanou janelas. O mesmo aconteceu com o hino, A Portuguesa, com música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça.

A Portuguesa surgiu vinte anos antes da implantação da República, e foi uma das muitas reações à humilhação causada pelo Ultimato inglês [11 de janeiro de 1890], que exigia que Portugal entregasse à coroa de Sua Majestade a Rainha Victoria grande parte das possessões portuguesas em África.

"Depois da Revolução Francesa, a cidadania moderna utilizou muitas vezes a música como expressão de solidariedades políticas ou identidades nacionais", escreve Severiano Teixeira. A Portuguesa foi um dos muitos hinos que expressaram a indignação patriótica. Mas, ao contrário dos outros, foi a música que acompanhou a "marcha dos revolucionários republicanos, soldados e populares armados" na manhã do 5 de Outubro de 1910. A 19 de junho do ano seguinte, a Assembleia Constituinte da I República consagrou-a como símbolo nacional.


Diário do Governo de 4 de setembro de 1957 que fixa a versão oficial de A Portuguesa

Diário do Governo de 4 de setembro de 1957 que fixa a versão oficial de A Portuguesa

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O Estado Novo "manteve o regime republicano e conservou os símbolos nacionais. E não só os conservou, como se apropriou deles e os investiu da sua retórica nacionalista". Foi também durante a ditadura de Salazar que foi fixada a versão final de A Portuguesa, que, em boa verdade era o hino nacional desde 1911.

A revolução do 25 de Abril de 1974 mudou o país, e lançou as bases da descolonização e do fim do Portugal colonial. Mas manteve a bandeira e o hino nacional, sem que nunca nenhum deles tenha sido posto em causa.

E issso prova quão importantes são os símbolos no exercício da representação política. Por isso, é que o incidente ocorrido na Câmara Municipal de Lisboa a 5 de Outubro de 2012 escandalizou os portugueses e encheu páginas da imprensa nacional e europeia. Esta gafe de má memória atrapalhou o dia de Cavaco Silva e António Costa, quando Portugal celebrava o 112º aniversário da implantação da República. Por lapso de alguém, a bandeira nacional foi içada ao contrário. Com o país intervencionado pela troika, a imagem correu mundo e fez com que o jornal espanhol "El Mundo" titulasse: "La bandera de Portugal izada por error al revés, símbolo de un país patas arriba".