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"O Cofre-Forte da Evasão Fiscal": 247 páginas de ocultação de contas bancárias

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ALEJANDRO GARCIA / EPA

Livro de Hervé Falciani, informático que revelou a lista de milhares de nomes em situação de evasão fiscal através do banco HSBC, garante que pelo menos as autoridades italianas conheciam as irregularidades e que não operou sozinho na obtenção da informação

"Não fui eu que retirei os dados do arquivo do banco e os inseri numa 'nuvem', onde eram memorizados, mas sim outros empregados do HSBC. Cabia-me a responsabilidade de verificar, todos os dias, o que fora armazenado, o que faltava e como outros elementos suplementares poderiam ser obtidos", escreve Falciani, que relata no livro "O Cofre-Forte da Evasão Fiscal" o funcionamento do banco e o esquema de ocultação das contas bancárias de políticos, traficantes de droga, diamantes e armas, desportistas, empresários e banqueiros, entre outros.

"Havíamos identificado a França como o país a que iríamos fornecer o material por nós recolhido. Por lá, dispúnhamos de contactos que poderiam ajudar-nos. Todavia, sabíamos que, para suscitar o interesse das autoridades francesas, tínhamos de mostrar-lhes o que possuíamos: nomes e dados dos clientes do HSBC que haviam levado dinheiro para fora do país. Em resumo, deveríamos apresentar os nomes dos possíveis evasores fiscais", explica o antigo engenheiro informático do Hong Kong and Shangai Bank Corporation (HSBC) - Private Bank em Genebra.

Por ter revelado as informações sobre 130 mil nomes em situação de evasão fiscal, incluindo portugueses, Falciani foi perseguido, preso, ameaçado de morte e julgado na Suíça por espionagem financeira, furto de informações, violação do sigilo comercial e do sigilo bancário.

No livro, Falciani refere que apesar de ter milhares de depósitos, os verdadeiros ganhos do HSBC (Private Bank de Genebra) provinham de 60 clientes - empresas, empresários, fundos de investimento - que tinham um poder enorme e que em troca do dinheiro que deixavam "podiam obter tudo o que queriam".  

Segundo Falciani, o poder do HSBC está ligado "aos clientes mais importantes" e ao controlo que pode exercer graças a "essas enormes fortunas e ao emaranhamento dos interesses do cliente", do gestor e dos políticos. 

"O homem mais rico de Espanha, Emilio Botín, do Banco Santander (de que foi proprietário até à morte, em setembro de 2014), era um dos clientes do HSBC de Genebra. A mãe do antigo primeiro-ministro grego Georges Papandreu tinha uma conta de 500 milhões de euros. O antigo presidente executivo do HSBC Stephen Green foi ministro do Comércio de David Cameron até 2013. O irmão de Jérôme Cahuzac, socialista francês que foi ministro do Orçamento, obrigado a demitir-se por envolvimento num escândalo de evasão fiscal, era responsável do HSBC em Paris. O presidente do grupo que controla a Bolsa suíça era administrador-delegado do HSBC (Private Bank de Genebra) e o antigo chefe dos advogados do HSBC é hoje o número um do Internal Revenue Service, o fisco norte-americano", exemplifica o informático.

"Quando consideramos estes casos, compreendemos o porquê de os políticos não fazerem nada para combater a evasão fiscal, o poder excessivo dos bancos e a corrupção. Protegendo os bancos, protegem-se a si próprios", lamenta Falciani, que critica abertamente o sistema e as organizações suíças, especialistas na "ocultação" do dinheiro que deveria ser tributado.

O livro inclui um prefácio do jornalista italiano Angelo Mincuzzi, que relata a perseguição de que Falciani foi alvo após a divulgação da lista, além da presença de vários serviços secretos em todo o processo relacionado com as contas do HSBC.

"É possível, portanto, que os ficheiros informáticos do HSBC tenham sido um instrumento de negociações subterrâneas em benefício dos Estados Unidos", especula Mincuzzi na introdução do livro, acrescentando que pelo menos os serviços secretos italianos já conheciam as irregularidades que o HSBC encerrava na ocultação de contas bancárias.

Hervé Falciani, italo-francês nascido no Mónaco, 43 anos, é engenheiro informático e atualmente está ligado a projetos de banca ética, em França.

O livro "O Cofre-Forte da Evasão Fiscal", de Hervé Falciani com colaboração de Angelo Mincuzzi (Temas e Debates, Círculo dos Leitores, 247 páginas), foi lançado em Portugal e publica a documentação interna do HSCB com exemplos de correspondência entre os gestores e os clientes com fundos em movimento em contas 'offshore', incluindo uma transação na Região Autónoma da Madeira.