Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

População: poucos, muito ocupados e divididos

  • 333

Luis Barra

As mães têm maiores habilitações literárias, mas envelheceram. As crianças estão mais sozinhas e a ideia de um segundo filho passou, em muitos casos, para a prateleira dos sonhos adiados dos casais portugueses. Assim, o país não se renova. 

O ano de 2011 foi mesmo o último em que se registaram mais de 95 mil nascimentos . Desde então, foi sempre a descer, com 2014 a registar novos mínimos: 82.367 nascimentos. A meio da legislatura, o Governo até tentou lançar um programa de incentivo, mas não parece ter entusiasmado a população. Desde 1982 que a substituição geracional no país não está assegurada porque, como explica Maria João Valente Rosa, demógrafa e diretora da Pordata, "para que tal acontecesse era necessário que cada mãe tivesse em média 2,1 filhos, mas o número médio de filhos por mulher foi de 1,21 em 2013, o mais baixo de sempre".

Para haver substituição geracional era necessário que cada mãe tivesse em média 2,1 filhos, mas o número médio de filhos por mulher foi de 1,21 em 2013, o mais baixo de sempre.

Em 2011, em relação a este indicador, Portugal ocupava o 24ª posição entre os 28 países da União Europeia, mas, desde 2012, passou para o último lugar, título que acumula com o de país com o número médio de filhos mais baixo da Europa. 

"As mulheres não só têm menos filhos em média, como continuam a adiar este projeto para idades cada vez mais tardias. A idade média das mães ao nascimento do primeiro filho foi, em Portugal, de 30 anos, um novo máximo histórico desde 1960", afirma Valente Rosa. Sublinha ainda que o projeto da maternidade é cada vez mais planeado e para o qual as mulheres com escolaridade superior contribuem de forma crescente. De tal forma que, em 2011, o número de licenciadas responsáveis pelos nascimentos ocorridos foi de 32% e no ano passado eram já de 37%.

Para explicar os baixos níveis de fecundidade e de natalidade em Portugal, Maria João Valente Rosa não tem dúvidas: "A igualdade de género está ainda mal resolvida na sociedade portuguesa no que respeita à partilha das responsabilidades parentais, mais penalizadora, mesmo para as novas gerações, para as mulheres/mães", divididas entre a casa e a carreira, desdobrando-se em vários papéis, como explica a investigadora. 

"A afirmação das mulheres vai muito para além da sua esfera doméstica. Mas, se são cada vez maiores as suas apostas na qualificação e na afirmação profissional, ainda não está conseguida a desejável articulação de tempos para o trabalho e o desenvolvimento de outros projetos pessoais, nomeadamente parentais".

As mulheres não só têm menos filhos, como continuam a adiar este projeto para idades cada vez mais tardias. A idade média das mães ao nascimento do primeiro filho foi, em Portugal, de 30 anos, um novo máximo histórico desde 1960

E, nesta área, Portugal vai acumulando recordes difíceis de compatibilizar. No contexto europeu, pertence ao grupo de países com maior número de horas trabalhadas por semana e, simultaneamente, ao grupo com menor produtividade por hora de trabalho. Valente Rosa lembra que "quando se analisam as percentagens de pessoas empregadas a tempo parcial, em especial no caso das mulheres, os valores são bastante baixos". 

Em 2014, apenas 15% das mulheres empregadas trabalhavam a tempo parcial, o que representa mesmo um recuo face a 2011. Menos de metade da média da UE (33%) e de países como a Bélgica, Reino Unido, Alemanha ou Holanda, com percentagens de trabalho feminino a tempo parcial superiores a 40%.

"A progressiva afirmação das mulheres na sociedade, pela via do conhecimento, da qualificação e do trabalho, é um dado positivo. Assacar-lhes a culpa da falta de filhos e pretender o seu regresso a casa, à maneira do passado, é uma falácia. Embora a decisão de ter filhos seja privada, o caminho para algum estímulo aos nascimentos para quem tenciona ter filhos, implica com a sociedade. E não é de dispensar um caminho que ainda está longe de ter sido alcançado em Portugal, no sentido da promoção de uma maior igualização de géneros e de uma avaliação do trabalho essencialmente centrada nos resultados, isto é, naquilo que se consegue e não no número de horas que se leva a conseguir", alerta Valente Rosa.