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A desafeição está lá, mas os protestos não metem medo

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José Caria

Os eleitores portugueses vão decidir o caminho que querem para o país. Na hora de votar, os últimos quatro anos estarão presentes na memória. o politólogo António Costa Pinto não espera revoluções.  

O susto espreita ao virar da esquina e tem um nome já conhecido: abstenção. A aproximação de dois momentos eleitorais determinantes - as legislativas e, depois, as Presidenciais - não permite esquecer que é ao votar que os eleitores fazem a avaliação dos governos. Mas é aí que está o perigo: e se eles não votarem?

"O aumento gradual mas sustentado da abstenção em todo o tipo de eleições em Portugal é um facto. Vamos ver se alguma polarização nas próximas legislativas inverte a tendência, mas não é de esperar grandes novidades em termos de participação política em Portugal", comenta António Costa Pinto, investigador do ICS.

Não é de prever uma revolução no nosso sistema partidário. Em Portugal, para já, a desconfiança nos atuais governantes não vai dar oportunidade quer a populismos quer aos polos do nosso espetro partidário, diz António Costa Pinto

Depois de uma grave crise económico-financeira, da presença da Troika e de figuras determinantes terem sido confrontadas com a Justiça, terá a atitude eleitoral dos portugueses mudado? 

"A desconfiança dos portugueses perante a classe política que tem governado o país é alta. Mas este elemento por si só não se demarca grandemente de outras democracias europeias", afirma Costa Pinto. No entanto, o elemento mais relevante deste tabuleiro de xadrez, em que as peças se movem ao sabor das expectativas e motivações dos eleitores, precisa de tempo para ser analisado.

"O que parece mais importante salientar é que mesmo numa conjuntura de grande crise e quebra acentuada do rendimento, com cortes salariais e de pensões, o dinamismo do protesto não foi grande, ainda que seja provável que alguma desafeição se manifeste nas próximas legislativas", alerta o politólogo. 

Para concluir: "Apesar do aumento ligeiro dos que afirmam ter participado em manifestações, não é de prever uma revolução no nosso sistema partidário. Em Portugal, para já, a desconfiança nos atuais governantes não vai dar oportunidade quer a populismos quer aos polos do nosso espetro partidário e é isto que merece ser explicado. Ironicamente, a triste anomia da nossa sociedade civil pode ter este simpático reverso da medalha. Pelo menos mais uns tempos".