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Prisão preventiva para mãe que enclausurou o filho

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Homem de 38 anos terá vivido preso numa moradia na Amoreira, em Cascais, nos últimos anos. A separá-lo da liberdade estava um portão de ferro fechado com correntes e cadeado. Tribunal de Cascais determinou a medida de coação mais grave para a mãe

A mulher detida esta terça-feira na Amoreira, Cascais, por manter o filho enclausurado em casa há cerca de oito anos, fica em prisão preventiva, decidiu hoje um juiz de instrução criminal do Tribunal de Cascais após o primeiro inquérito judicial. Em causa estarão crimes de maus-tratos e sequestro. 

A medida de coação de Maria Varela foi divulgada, em comunicado, pela GNR. Foi o subdestacamento territorial de Alcabideche que, na terça-feira, se dirigiu até ao Lote 24, da Rua Nova da Ribeira na sequência de uma denúncia de agressões na via pública. Na vivenda de paredes sem tinta descobriu mais do que a autora dos desacatos: encontrou António, de 38 anos, preso numa pequena divisão interior com um portão fechado a correntes e cadeado. Era o seu filho, segundo ela deficiente mental e agressivo. 

Maria Varela, cabo-verdiana, de 62 anos, vive há duas décadas em Portugal. Uma primeira avaliação psiquiátrica, de urgência, realizada ainda na terça-feira no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, não revelou que sofresse de qualquer perturbação, como as autoridades suspeitaram inicialmente devido ao seu discurso incoerente e errático. Após a aplicação da medida de coação, a arguida foi conduzida ao Estabelecimento Prisional de Tires, onde aguardará o desenrolar da investigação. 

António foi levado para o Hospital de Cascais. Ana, a irmã mais nova de 26 anos, também. As autoridades acreditam que a jovem vivesse igualmente com liberdade condicionada. Ele continua internado, ela já teve alta. O marido de Maria, e pai dos dois adultos, foi interrogado pelas autoridades e ficou em liberdade.

Agressões revelaram um sequestro
Na terça-feira de manhã numa questão de minutos, o telefone tocou quatro vezes no posto da GNR de Alcabideche. Havia desacatos na Rua Nova da Ribeira, na Amoreira. Junto ao Lote 24, uma sexagenária agredia um vizinho. Nas mãos tinha um pau, uma pá e uma faca pequena. Uma investida em cheio num joelho obrigou o ferido a assistência hospitalar. Não era a primeira visita das autoridades àquele local por agressões, ameaças e injúrias. Mas as últimas ocorrências já tinham anos, e nunca deram sequer lugar a queixas formais ou processos judiciais.

Á porta da vivenda, quando tentavam acalmar Maria Varela que “estava alterada, nervosa, resistente”, os militares da GNR ouviram “grunhidos de pessoa” vindos do interior. Espreitaram e dali conseguiram ver António preso numa divisão mínima e escura. “Era um espaço muito pequeno, muito sujo, sem janelas, com um colchão fininho no chão. Não tinha casa de banho, só uns baldes e um amontoado de coisas difíceis de descrever”, explica o tenente Filipe Costa ao Expresso. “Aliás, toda a casa estava assim”, acrescenta.

Cruzando relatos dos vizinhos, a GNR avança que a vítima poderá estar privada de liberdade há cerca de oito anos, data em que foi vista no exterior pela última vez. António tinha o cabelo e a barba muito grandes. “Não tinha marcas de agressões violentas, não estava ferido nem com magreza excessiva, mas revelava fraca alimentação”, descreve o militar. 

[Notícia atualizada às 16h50]