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O poder das redes: história de uma notícia que se tornou viral sete anos depois de ser publicada

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REUTERS

Aconteceu esta quarta-feira, envolve um artigo publicado no Expresso e reflete vários fenómenos - um deles é que nem sempre olhamos para a data das notícias que lemos

A pergunta é esta: pode uma notícia publicada em 2008 ser uma das mais lidas esta quarta-feira, sete anos depois? Pode. E uma das explicações está no ciclo de vida “eterno” de uma notícia publicada na Internet, além da própria natureza das redes sociais, do tipo de conteúdos que são partilhados e do cuidado e atenção de quem os partilha.

A 15 de fevereiro de 2008 foi publicada no site do Expresso uma notícia com o título “Tripés de máquinas de filmar precisam de licença”. O texto dava conta de situações em que fiscais da Câmara de Lisboa e agentes da Polícia Municipal exigiam a repórteres de imagem da SIC e da RTP, e a um professor de uma escola de formação, licenças para colocar o tripé da câmara de filmar no espaço público. Em alguns casos, foram pedidos elementos com vista à aplicação de coimas.

Sete anos depois, na manhã desta quarta-feira, a notícia era uma das mais lidas. Como? Tudo começou com uma partilha dessa notícia nas redes sociais. Quando Luiz Carvalho, antigo fotojornalista do Expresso, a partilhou no Facebook, não deu conta da data de publicação do artigo. Cruzou-se com a notícia, leu-a e, ainda que estivesse a par do tema, as histórias relatadas no texto pareceram-lhe novas. “Não eram os exemplos que conhecia. Não fui ver a data e partilhei logo. Devia ter visto a data, mas não vi”, explica, lembrando, no entanto, que o que a notícia veicula “existiu e é grave”. “O Facebook não é jornalismo, é uma rede social, não é uma ferramenta jornalística”, acrescenta.

Como é que uma notícia com sete anos se torna viral nas redes sociais? Na opinião de Paulo Querido, jornalista e especialista em novos media, o caso reflete “duas coisas”. Por um lado, “a falta de cuidado da esmagadora maioria das pessoas em relação aos links que partilham”. 

Em causa está a “ânsia da partilha” que acaba por a transformar numa “banalização”. Mas faz parte da natureza das redes sociais não haver “um tempo definido” para a partilha das notícias – o que explica situações como esta ou como outros casos, mais graves, em que são partilhadas notícias com dados que já estão desatualizados. 

Além dessa parte, por outro lado está também a forma como as redes sociais, ou a Internet em geral, “amalgamam as notícias”. “Estávamos habituados a que as notícias tivessem um tempo de vida”, explica Paulo Querido. Ou seja, uma notícia pertencia ao jornal impresso daquele dia e acabava num arquivo ou num monte de jornais. “O ciclo de vida das notícias estava limitado pelo suporte. Na Internet, vivem para sempre e as pessoas não estão habituadas.”

Para António Granado, jornalista e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, “uma explicação é que muita gente partilha os artigos sem os abrir”. 

Em fevereiro do ano passado, um artigo publicado no site "Verge" fez referência a um estudo da Chartbeat, uma empresa americana especializada em medições de tráfego na Web, que concluiu não haver uma relação direta entre o número de partilhas de notícias nas redes sociais e a sua leitura.

O mesmo defende Paulo Querido: “Não é por um artigo ser mais visto que significa que seja mais lido”. Defendendo que os jornais e os jornalistas “estão demasiado focados na métrica errada”, o especialista lembra que pelo número de partilhas de um artigo “não se consegue aferir uma relação com o leitor”.

Exigência das licenças foi fugaz

Em 2008, os episódios relatados pelo Expresso não se repetiram após a publicação da notícia. Essa é a convicção de Carlos Santos, então formador numa escola profissional na área dos audiovisuais e uma das pessoas advertidas de que não podia usar a câmara. Conta agora que "não houve notícia de que tenham voltado a ocorrer" tais situações. E mesmo os casos então relatados ocorreram num período de tempo curto.

Para o também na altura repórter de imagem da SIC, terá havido "excesso de zelo" de alguns fiscais. Com a nitidez que a memória de encontros com mais de sete anos permitem, Carlos Santos recorda que, "pela cara, os fiscais pareciam novos", na idade e na função. "É como se tivessem acabado de decorar o regulamento" então em vigor, que terão interpretado mal. "Baralharam o espetáculo público ou a rodagem de um filme, envolvendo meios mais pesados, com a informação ou com a reportagem diária", que não precisa de qualquer licença.

Há sete anos, perante a divulgação da notícia, imperou o bom senso no executivo da Câmara – então presidida por António Costa, que estava com cerca de seis meses de mandato no cargo. E tanto os serviços de fiscalização como a Polícia Municipal acabariam rapidamente por deixar de interpelar jornalistas que estacionam o tripé no espaço público de Lisboa.