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O que os números relatam sobre as crianças que nascem hoje

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Esta terça-feira nasceram em Portugal 159 bebés entre as 00h e as 15h00. Viverão mais tempo, mas com menos família. Um terço vai viver até aos cem anos. Em média vão perder os pais aos 40.

Acabaram de nascer e têm 80,2 anos de vida pela frente. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os bebés nascidos hoje viverão em média mais 7,9 anos do que a geração dos seus pais. Um terço deverá mesmo ultrapassar os 100 anos, que atualmente só uma ínfima minoria consegue atingir. Tudo indica que, na geração deles, completar um século de vida será vulgar e já não terá honra de notícia no jornal local. 

Segundo um estudo britânico, um em cada três bebés nascidos agora viverão, pelo menos, um século. O INE não tem estudos semelhantes para Portugal, mas a realidade não deverá ser muito diferente, uma vez que a esperança média de vida nos dois países é muito próxima. A longevidade não tem parado de crescer em todo o mundo e o fenómeno também não passa despercebido em Portugal. Há 100 anos havia no país 395 centenários. No ano passado, eram quase 10 vezes mais. E o crescimento acelerou nos últimos anos. Desde 2011, o número de portugueses a atingir essa barreira tem aumentado a um ritmo de 30% ao ano.  

As crianças de hoje viverão mais tempo, mas com menos família. Como a idade média da mulher ao nascimento do primeiro filho tem vindo a aumentar, pais e filhos terão menos tempo para estar juntos. Estima-se que estes bebés ficarão órfãos por volta dos 40. Isto porque os pais, em média nascidos há 30 anos, deverão viver até aos 72,3, o que significa que têm aproximadamente mais quatro décadas pela frente. As crianças terão de descobrir como dar a volta aos muitos desafios que as esperam.

Os números comprovam que a queda do número de nascimentos transformou-se num problema nacional. O ano de 2014, quando comparado com 2013, revelou um abrandamento da tendência, que ainda não foi invertida. Portugal está nos mínimos. No ano passado nasceram 82.367 crianças. Muito insuficiente para garantir a substituição das gerações. E é assim desde o início da década de oitenta. Para termos certeza de que continuaremos a ter portugueses no futuro, cada mulher teria de ter 2,1 filhos, mas a média atual é de 1,21 bebés por mãe...

Ter irmãos está-se a tornar uma prenda de luxo. Filhos únicos atraem todas as atenções de pais, avós e tios. São o centro das atenções e das preocupações, com a autonomia e a liberdade a serem trocadas pela segurança. “Os casais estão a adiar o nascimento do segundo filho, adiam até que muitas vezes este acaba por não chegar, por razões biológicas e económicas. A criança vive na expectativa de ter um irmão, que pode nunca surgir”, afirma Filomena Mendes, professora da Universidade de Évora, especializada em demografia.  A investigadora alerta para os prós e os contras desta realidade mais solitária: “Se, por um lado, a criança é mais estimulada e cresce mais preparada devido à estratégia da compensação e da concentração de esforço, por outro lado atrai para si todas as atenções, o que pode não ser positivo.” Sobretudo, alerta, “ainda é cedo para se ter certeza das consequências desta realidade do filho único”. Para já, sabe-se que muitas são crianças mais urbanas, mais fechadas e mais vigiadas, menos autónomas... 

Pais mais educados e mais velhos

São filhos de pais mais escolarizados. O número de crianças nascidas de mães licenciadas não para de aumentar. Mas também são filhos de mulheres mais velhas. No ano passado bateu-se mais um recorde: a idade média do primeiro filho chegou aos 30 anos. Mais uma vez, é preciso ver as duas faces desta situação. Filomena Mendes acredita que “só existem consequências positivas em ter pais com maior nível de escolarização”. O mesmo já não afirma em relação à idade dos pais. “Como a longevidade da população está  a aumentar e a mortalidade está a ser empurrada cada vez para as idades mais velhas”, explica Filomena Mendes, tudo indica que “teremos pais a cuidarem menos tempo dos filhos e filhos a terem de cuidar mais tempo dos pais”, principalmente devido ao aumento de idosos com demências, por exemplo.

Se vão viver mais tempo, as crianças terão de ter atenção às condições de saúde com que vão viver. Mais alimentação não é sinónimo de melhor alimentação nem de mais saúde. A obesidade infantil é já uma preocupação nacional. Em Portugal, uma em cada três crianças tem este problema de saúde. Segundo um estudo de 2013-2014 que contou com 18.374 crianças (uma das maiores amostras neste tipo de investigação), 33,3% das crianças entre os 2 e os 12 anos têm excesso de peso, das quais 16,8% são obesas. De acordo com a Comissão Europeia, Portugal está entre os países da Europa com maior número de crianças afetadas por esta epidemia.

As crianças atuais vão ter mais qualificações do que a geração dos seus pais ou de qualquer outra em Portugal, mas tudo indica que terão um futuro mais precário. Já não vão saber sequer o que significa o conceito de emprego para a vida. Portugal foi o país da União Europeia (UE) que mais progrediu, entre 2010 e 2013, no combate ao abandono escolar precoce, baixando de 28,3% para 18,9% o número de jovens entre os 18 e os 24 anos que deixaram a escola sem concluir o ciclo em que se encontravam. Continua, no entanto, no final da tabela da UE: atrás de Portugal apenas  Malta e Espanha.

Quem não tem parado de estudar são as raparigas e se a generalidade dos jovens aposta no ensino superior, mesmo com reduzidas perspetivas de emprego, as mulheres investem em força na formação. Na última década, a percentagem da população portuguesa com ensino superior completo passou de 8,4% para 14,8% - e se 12,4% dos rapazes concluíram licenciaturas, 16,9% das raparigas também o fizeram. 

Quando chega a altura dos doutoramentos, elas são mesmo a maioria (56,1%). Estudar elas estudam, já trabalhar nem sempre conseguem... E caso de avalie o impacto do desemprego jovem, elas serão as mais afetadas (39%). 

“Não podemos sequer equacionar um retrocesso na área da educação. Temos de continuar a melhorar o acesso às oportunidades, é um desafio para a infância, mas, sobretudo, é um desafio para o país”, conclui a socióloga e economista Filomena Mendes.

  • Quase metade dos bebés nasce fora do casamento

    A percentagem de bebés nascidos fora do casamento em Portugal está acima da média da União Europeia desde 2009. É um reflexo da "secularização da sociedade", segundo o sociólogo Pedro Moura Ferreira do ICS. "As relações conjugais mantêm-se, mas são fora do casamento, fora da instituição formal."