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Sandy, que fez diferente para ser igual. E que decidiu o fim

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Ela queria a igualdade a que tinha direito mas que a sociedade não lhe salvaguardava. Por isso, fez diferente para ser igual: antes de casar, assinou um contrato com o marido que garantia a divisão das tarefas caseiras. Ela era assim. Faz um ano que morreu, por vontade própria - mandou vir do México uma substância fatal

Luís M. Faria

Jornalista

O dia e a hora da nossa morte pertencem a quem? Se o que distingue os baby boomers é a vontade de assumir o controlo e a responsabilidade do seu próprio destino em todos os aspetos da sua vida pessoal, não há razão para não o fazerem também nesse. Pelo menos é o que diz Robin Marantz Hening, autora de um perfil da psicóloga norte-americana Sandy Bem (nome completo: Sandra Ruth Lipsitz Bem), publicado agora na revista dominical do New York Times. Sandy terminou a sua própria vida no ano passado – na companhia do marido e depois de avisar a família inteira – por ter a doença de Alzheimer e não suportar a ideia de perder a sua identidade, com a erosão inevitável que a doença imporia à pessoa que sempre fora.

Sandy Bem era uma figura chave do feminismo contemporâneo. Nascida em 1944, cresceu numa época em que a maioria das mulheres ficava em casa. Mesmo as que faziam estudos superiores, quando se casavam normalmente renunciavam às suas carreiras. Ela não queria e por isso adiou o casamento. Só quando o homem que a amava lhe propôs um contrato em que os dois se comprometiam a repartir as tarefas caseiras e a apoiarem-se um ao outro é que ela aceitou desposá-lo. Em 1972, o casal, que já era um exemplo vivo da igualdade entre os sexos, tornou-se símbolo público dela ao aparecer no primeiro número da revista Ms., órgão semioficial do movimento feminista.

Ao longo dos anos, Sandy Bem foi adquirindo proeminência na sua área profissional. Especialista em estudos de género, criou o chamado Bem Sex Role Inventory, um instrumento para medir como as pessoas se identificam sexualmente em função de sessenta traços diferentes de personalidade. Escusado será dizer que ela não acreditava na existência de dois domínios, o masculino e o feminino, concebidos como mutuamente exclusivos, e achava que essa forma tradicional de pensar tinha efeitos negativos sobre a pessoa. A novidade dos seus pontos de vista não a impediu de assumir lugares de topo em universidades como Stanford e Cornell (embora a primeira lhe tenha negado um lugar permanente nos seus corpos, o que a levou a mudar para a segunda).

A terrível contagem

Há seis anos, percebeu que a sua memória estava a falhar e foi ao médico. Recebeu um diagnóstico que soava relativamente inofensivo – amnestic mild cognitive impairment; isto é, deficiência cognitiva amnésica leve, numa tradução leiga – mas na prática dava-lhe uma probabilidade muito alta de desenvolver Alzheimer a curto prazo. Assim aconteceu de facto. Dez meses depois, recebeu a confirmação de que tinha Alzheimer. A partir daí, começou a terrível contagem decrescente.

Ela parece ter tomado a sua decisão logo. Informou a família que não tencionava esperar até ser uma sombra de si própria, e eles aceitaram – até por perceberem que jamais conseguiriam dissuadi-la.  A escolha do momento certo foi o mais difícil. Não queria partir cedo demais, nem deixar para tão tarde que ficasse incapaz de ser ela a executar sozinha a sua vontade. Outra dificuldade entretanto surgida foi a ligação próxima que desenvolveu com um dos seus netos pequenos.

Acima de tudo, Sandy Bem não queria comprometer ninguém. Escolheu ela o método da sua morte, que não quis que fosse violento. Mandou vir do México uma substância fatal, e deixou-a numa prateleira. Era uma visão que a tranquilizava. Quando achou que o momento tinha chegado, despediu-se da família e dos amigos, tranquilamente. Dois dias depois, na companhia do marido, ingeriu a dose fatal, pelas suas próprias mãos. Fez agora um ano.