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“Calhou-me uma instituição crocante para a comunicação social”

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Sónia Pires, autora de uma investigação sobre o Hospital de Santa Maria, escreveu que a instituição é dominada por interesses da maçonaria, partidos políticos e Opus Dei. Esta quinta-feira, pronunciou-se sobre o caso. Presidente do hospital admite processar os autores do estudo.

A investigadora da Universidade Nova de Lisboa Sónia Pires, autora do polémico estudo sobre o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, considerou esta quinta-feira que a “instituição ainda tem um longo caminho a percorrer” e, a sorrir, começou a apresentação do seu trabalho dizendo aos jornalistas “calhou-me uma instituição crocante para a comunicação social”.

Na conferência de imprensa, que decorreu em Lisboa, a investigadora disse que no hospital “o panorama tem tons cinzentos, mais ou menos escuros” e que não chegou a estas conclusões “de ânimo leve”.

Em entrevista à Lusa, o presidente do Santa Maria admitiu processar os autores do estudo encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no qual esta unidade de saúde é referida como estando minada pela corrupção.

"O que está em causa é toda uma instituição que é património de SNS e dos portugueses. Uma instituição como o [Hospital] Santa Maria não pode ser tratada desta forma, nem se pode reescrever a história", diz Carlos Martins.

Segundo o administrador, o hospital vai enviar o estudo para "as entidades que têm competência inspetiva e de auditoria externas" e para o escritório de advogados da instituição para que verifiquem de que forma é que podem "valer o bom nome da instituição".

Questionado sobre a intenção de processar a Fundação Francisco Manuel dos Santos, Carlos Martins foi perentório: "Não descarto nenhuma hipótese, nenhuma em absoluto".

Segundo o estudo "Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal", encomendado pela fundação, o Hospital de Santa Maria está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas.

"A Maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos ainda são três realidades externas que intersetam a esfera do Hospital de Santa Maria", refere o estudo.

Carlos Martins, que desde 2013 dirige o conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), de que fazem parte o Santa Maria e o Pulido Valente, recebeu as notícias sobre o estudo com "surpresa e indignação".

"Surpresa porque, de acordo com o compromisso assumido pela equipa de investigadoras com esta instituição, o estudo tinha um âmbito académico, um grau elevado de confidencialidade, seguia as boas práticas científicas e seria do conhecimento do conselho de administração o seu relatório preliminar", disse à Lusa.

A indignação do administrador deveu-se ao facto de, em termos de rigor científico e em relação ao compromisso entre a equipa de investigadores e a instituição, "nada disso foi cumprido".

"Mais lamentável é que se coloque em causa, perante um país, uma instituição com 60 anos de serviço público", afirmou.

Para Carlos Martins, este estudo "lança sobre toda a instituição uma imagem de más práticas de gestão, de interesses organizados, de captura, de orfandade, de abandono pelos acionistas da instituição", o que "é de uma irresponsabilidade tremenda".

"Quem diz que a instituição está órfã e está capturada tem de provar", sublinhou.

O administrador reconhece que se vive hoje "um momento politicamente mais quente que o normal: estamos em ano de eleições legislativas".

"Sei que, internamente, também é um momento com uma temperatura mais elevada, já que há eleições para a faculdade [de Medicina] - também visada no estudo - e o conselho de administração termina o seu mandato no final do ano".

"Não acredito que há bruxas, mas começam a existir circunstâncias demasiado estranhas", desabafou.

Entretanto, um comunicado, a Reitoria da Universidade Nova de Lisboa veio esclarecer que o estudo em causa "é da exclusiva responsabilidade dos investigadores envolvidos e não reflete a posição institucional desta universidade".

Também a organização Opus Dei desmentiu "categórica e integralmente" as afirmações que constam do estudo de que nos processos de nomeação dentro do Hospital de Santa Maria interferem "dinâmicas externas próprias à sociedade portuguesa --- como (...) a Opus Dei".

A Inspeção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) decidiu alargar o âmbito de uma auditoria em curso sobre o hospital, pedida pelo próprio ministro da Saúde, na sequência de denúncias do anterior diretor clínico do hospital, Miguel Oliveira e Silva e analisar os dados agora tornados públicos.