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A aplicação que mostra como o nível do mar pode subir à sua porta

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Ana Baião

Ver como a subida do nível do mar pode submergir o Terreiro do Paço, em Lisboa, por exemplo, é um dos cenários traçados pelo Sealevels.info. O portal interativo, que tem dedo português, permite cruzar de uma forma simples informação científica de origem diversa. 

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Em 2100, a Praça do Comércio poderá assemelhar-se à de S.Marco, em Veneza, na maré alta. E a Ria Formosa, no Algarve, poderá deixar de ter ilhas e ilhotes e submergir parte do aeroporto de Faro. Estes são dois cenário possíveis no futuro, pensando num aumento médio do nível do mar de apenas um metro, se nada for feito para defender estes espaços e infraestruturas e adaptá-los às alterações climáticas.

A imagem que descrevemos salta à vista (na nossa imaginação) quando entramos no site da Sealevels, um portal interativo inovador que permite cruzar de uma forma simples informação científica sobre a subida do nível do mar em todo o Planeta. A patente é da empresa Scientinel, dirigida por um cientista de origem portuguesa, Diogo de Gusmão Sørensen, que vive em Copenhaga.

À distância de dois cliques qualquer pessoa pode observar quanto o nível do mar irá subir quase à sua porta, na cidade onde vive ou em qualquer ponto costeiro ou ribeirinho do globo. A viagem virtual é gratuita e está disponível desde meados de maio a qualquer pessoa interessada. 

Basta abrir http://sealevels.info, carregar em “start”, aceitar as regras, procurar a zona do globo que pretende perscrutar e fazer “zoom in” duas vezes para visualizar as manchas violeta, que simbolizam  áreas de potencial inundação no mundo inteiro. Ao clicar num “pop up” surgem as projeções da subida do nível do mar com base num aumento de dois graus da temperatura média do planeta, traçadas pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC) para diferentes regiões do globo, para cenários atuais e para daqui a 10, 35, 60 ou 75 anos. 

Uma questão de zoom

Fazendo o zoom a Portugal, verifica-se que a projeção mais elevada para a costa de Lisboa indica que o mar pode subir até quase um metro no fim do século XXI, o que pode deixar a Praça do Comércio debaixo de água e inundar toda a zona da Lezíria do Tejo, submergindo a área para onde chegou a ser pensado o novo aeroporto de Alcochete. 

A sul, no litoral de Faro, apesar de a subida do nível do mar ser um pouco menor (0,85 centímetros), percebe-se como a ria deixará de o ser, passando a um contínuo de mar se nada for feito para evitá-lo. É que estas projeções não têm em conta obras de defesa costeira em curso ou projetadas para o futuro, mas apenas aquilo que os satélites da NASA captaram das marés e que a Scientinel cruzou com as projeções do IPCC para 2050 e 2100.

Em tom violeta surgem as áreas inundáveis, a laranja as principais redes de transporte rodoviário, ferroviário, portuário ou aeroportuário, a verde os estabelecimentos de saúde, a amarelo os de ensino e a vermelho os edifícios ou infraestruturas de Estado que podem ser afetados por futuras inundações. 

Pioneiro

“Existem vários portais que mostram áreas inundáveis no mundo inteiro, mas o sealevels.info é único porque permite cruzar a informação da IPCC com dados da NASA e fornecer informação fácil de compreender por qualquer pessoa”, explica Diogo de Gusmão-Sørensen, diretor da empresa que elaborou este projeto, a Scientinel, sediada em Copenhaga.  

“O objetivo é transferir informação científica complexa para uma plataforma de acesso público de fácil compreensão”, explica o investigador e empresário, de dupla nacionalidade (portuguesa e britânica), que montou este projeto de levar a ciência para o domínio público. Para tal contou com apoio do programa de ambiente da ONU. O projeto foi apresentado publicamente a 12 de maio, em Copenhaga, na conferência dedicada à Adaptação às Alterações climáticas — “Bridging the Gap Between Climate Science and Adaptation”.

Para empresas privadas, a Scientinel “dispõe de informação paga com melhor resolução e pormenor”, explica o diretor. Entre os clientes encontram-se “empresas de transporte marítimo e de construção de portos que querem saber o que devem esperar para se adaptarem à subida do nível do mar”, explica Gusmão-Sørensen, assim “como grupos hoteleiros que querem saber se vale a pena erguer novos complexos turísticos em determinadas zonas do litoral”.

“Não terminou aqui”

Diogo de Gusmão nasceu em Lisboa há 42 anos. Aos 20 anos largou o curso de engenharia informática no Instituto Superior Técnico e rumou a Inglaterra, onde enveredou pelas ciências do ambiente, na Universidade de Bradford, seguindo-se uma pós-graduação em Gestão Ambiental na Universidade de Aberdeen (Escócia). 

Findos os estudos, trabalhou como gestor de risco de cheias na Agência do Ambiente inglesa e como climatologista no Met Office Hadley Centre, em Inglaterra. Foi revisor especialista do capítulo sobre sistemas costeiros, impactos, adaptação e vulnerabilidade do quinto relatório do IPCC. O casamento com um dinamarquês levou-o a mudar-se para Copenhaga e a acrescentar Sørensen ao nome.

Foi na capital da Dinamarca que nasceu a Scientinel. Em dois anos, a pequena empresa desenvolveu o Sealevels.info. “Mas o projeto não terminou aqui”, afiança Diogo. Novos dados do IPCC surgirão no futuro e já receberam “pedidos para acelerar os mecanismos de partilha de informação, assim como adicionar outras infraestruturas críticas, nomeadamente relacionadas com a geração e distribuição de energia, isto para o mundo inteiro”, conta. Porém, acrescenta, “terá de haver um investimento para que haja uma expansão, e sinceramente, para já pelo menos, do ponto de vista comercial esta não é uma prioridade”.

Diogo Gusmão Sorensen

Diogo Gusmão Sorensen

O que a ciência nos diz

Há incertezas em relação ao degelo nas zonas polares, mas um artigo recente publicado na revista “Science” indica que os glaciares da Antártida estão a derreter a um ritmo muito mais  rápido do que era habitual. Uma equipa coordenada por  Bert Wouters, da Universidade de Bristol, fez cálculos que indicam que os glaciares estão a sofrer um degelo anual de 60 quilómetros cúbicos, o que equivale a um aumento extra de 0,16 milímetros anuais do nível médio do mar. 

A comprovar-se a veracidade destes dados, as projeções do próximo relatório do IPCC terão de ser alteradas. “O que a ciência nos diz é que isto é mais rápido do que se estava à espera”, lembra Gusmão- Sørense. “O cenário mais alto do IPCC indica que, em 2025, o nível médio das águas do mar terá subido 20 centímetros. Mas sabemos que na Europa já estamos 18 centímetros acima do padrão de 1990”, acrescenta. E, sem querer ser alarmista, lembra: “Se a Gronelândia derreter isso levará a uma subida de 5,5 metros do nível do mar... e quando começamos a adicionar tudo isto e juntamos o degelo das calotas polares, temos de pensar em nos adaptarmos”.

Cidades como Copenhaga já começam a preparar medidas de adaptação perante cenários de elevação do nível do mar, nomeadamente pensando erguer uma barreira de betão no mar ao largo da cidade, para atenuar inundações. “Também países como a Noruega e a Holanda têm já planeado e concretizado soluções de adaptação às alterações climáticas, sobretudo medidas de defesa de infraestruturas críticas como aeroportos ou hospitais”, explica Gusmão-Sørensen.

Em Portugal, projetos científicos como o ClimaAdaPt, coordenado por Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (também financiado por fundos EEA Grants), têm desenvolvido parcerias com várias autarquias. “Almada e Cascais são dois dos municípios que estão a desenvolver medidas de adaptação às alterações climáticas”, esclarece o investigador. Mas, lembra, para pôr em prática a estratégia nacional de adaptação necessária “é preciso dinheiro”.

Com a Cimeira do Clima à porta, marcada para dezembro em Paris, comunicar de forma simples o que pode aí vir pode ser uma forma de pressionar os Estados a agir, já que a comunidade científica teme que os seus alertas não sejam suficientes e que os líderes políticos não se entendam sobre um compromisso global para minimizar as alterações climáticas e as suas consequências até ao final do século.