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Inspetora da PJ que tinha sido absolvida condenada a 17 anos de prisão

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Tribunal da Relação de Coimbra condena Ana Saltão pelo homicídio da avó do marido. Advogada da inspetora diz-se "surpreendidíssima".

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A inspetora da PJ do Porto, Ana Saltão, foi condenada esta quarta-feira a 17 anos de prisão pelo Tribunal da Relação de Coimbra. 

Mónica Quintela, advogada da inspetora, diz que está "surpreendidíssima" com a decisão da Relação de Coimbra e garante que irá "recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça". 

O acórdão da desembargadora Olga Maurício determina ainda que Ana Saltão seja imediatamente afastada da Polícia Judiciária, onde trabalhava no departamento de "Inteligence". 

Ana Saltão foi condenada a 16 anos de prisão por homicídio qualificado e quatro por peculato. O cúmulo jurídico é de 17 anos de prisão efetiva, que Ana Saltão só cumprirá se o Supremo confirmar a decisão da Relação de Coimbra. Por enquanto fica em liberdade. 

A condenação da Relação prende-se com a morte de Filomena Gonçalves, avó do marido da inspetora, assassinada com 14 tiros, em novembro de 2012.

Absolvição em 2014
Em setembro do ano passado, a inspetora, que estava acusada de vários crimes, entre os quais homicídio qualificado, foi totalmente absolvida pelo Tribunal de Coimbra. "Não ficámos supreendidas porque defendemos a inocência desde o início do julgamento", disse na altura Mónica Quintela. "O resultado não podia ser outro." 

O Ministério Público, que tinha pedido a pena máxima de 25 anos de prisão, recorreu da absolvição. 

Assim que encontraram o cadáver de Filomena Gonçalves, os inspetores da brigada de homicídios da PJ de Coimbra classificaram o caso como grau 4 - classificação dada quando o suspeito é um elemento da própria PJ ou uma figura pública de relevo. Isto é, desde o primeiro momento que a inspetora Ana Saltão passou a ser a única suspeita de ter assassinado com 14 tiros a avó do marido para poder beneficiar de um eventual herança ou para não ter de pagar um empréstimo de 1500 euros.

Ana Saltão era suspeita porque Filomena Gonçalves, que tinha 80 anos e algum dinheiro amealhado com a exploração e venda de um talho, foi morta com 14 balas compatíveis com as disparadas pelas armas da PJ. E 15 dias antes do homicídio, a arma de serviço de uma colega de Ana Saltão desapareceu do móvel onde estava guardada.

Ana Saltão e o marido, também inspetor da PJ, viviam com relativa dificuldade. O dinheiro mal dava para pagar todas as contas, tinham dívidas com os cartões de crédito e tiveram de pedir dinheiro emprestado à vítima: 1500 euros que iam pagando todos os meses. Para a acusação, Ana Saltão matou não só para não ter de pagar a dívida como também para poder beneficiar de uma herança através do marido. 

Uma das provas mais fortes da acusação era um casaco de Ana Saltão com vestígios de pólvora. A peça de vestuário foi entregue pela suspeita aos colegas e terá sido atirada para o chão de um gabinete da PJ de Coimbra, onde esteve guardada antes de ser sujeita a análises. Além de criticar este procedimento "inexplicável", o tribunal conclui que o casaco pode ter sido contaminado.

A arma do crime não foi encontrada pela PJ, que deduziu tratar-se da Glock 9 mm que desapareceu do armário da inspetora Liliana Vasconcelos, colega de Ana Saltão. 

No dia do crime, Ana Saltão desligou o telefone para, segundo a acusação, não ser detetada em Coimbra. "Não teria sido mais simples mantê-lo em casa e não atender as chamadas?"