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Fatinha e Fernando, vedetas improváveis do rali. "Já parecemos o Guedes do skate"

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Rui Duarte Silva

Esta história envolve a notável 4L, um casal ao volante serra acima e abaixo e ainda um anúncio que viralizou cá dentro e depois lá fora. O vídeo queria promover o Rally de Portugal e a Serra de Baião e acabou a criar um mistério: como é que Fatinha, que gosta de sombra mas não de Grey, e Fernando, que já é convidado para zonas VIP, foram parar ali?

Um dia depois do fim do Rally de Portugal, Fátima Carvalho, 71 anos, e Fernando Ribeiro, 70, aceitaram o repto do Expresso para reconstituírem o troço da Serra da Aboboreira percorrido há 15 dias “a 120 quilómetros/hora”, ao volante da já famosa 4L azul que estrelou o vídeo feito a pedido da autarquia de Baião. O encontro estava marcado para as 13h30 em frente à Câmara local e um e outro apresentaram-se tal como são: genuínos, sem ponta de artifício. O senhor Fernando, como todos o conhecem em Baião, com o seu inseparável chapéu preto de lavoura, a Fatinha arrependida de não ter trazido o seu chapéu de palha com que anda no quintal. Estava sol e ela confessa que gosta de sombra, “mas não de Grey”. Questionados sobre como é lidar com a fama numa terra onde todos os conhecem, Fernando ri-se e diz que não se atrapalha, contando que o sucesso do vídeo até lhe valeu ser convidado para a zona VIP nas classificativas de Baião e do Marão, no sábado.

Fátima, que ao contrário do seu vizinho da freguesia de Campelo não assistiu à prova, afiança que não teria aceitado o desafio se soubesse que o vídeo daria tanto brado. “Já pareço o Guedes do skate”, diz com o seu habitual sentido de humor, apesar de confessar que não está arrependida. Afinal, o que levou um e outro a trocar o sossego de reformados para se tornarem atores por um dia? “Somos cristãos, católicos romanos e por isso aceitamos fazer isto para bem da comunidade”, responde a ex-técnica de educação familiar, que durante mais de 40 anos trabalhou na área de ação social da Obra de Bem-Estar Rural de Baião, uma IPSS que dirige um Jardim de Infância, Centro de Idosos e apoio domiciliário à terceira idade.

Rui Duarte Silva

Fernando Ribeiro, até se reformar, foi motorista durante toda a vida do Centro de Saúde de Baião, tendo perdido a conta aos pacientes que transportou durante largos anos numa 4L. “Foi carro que nunca me deixou ficar mal, tanto que também cheguei a ter uma”. O primeiro carro de Fatinha foi também uma “cartela”, comprada sem o agrado do falecido marido, que sempre gostou de veículos maiores.

Num daqueles acasos em que o destino é fértil, uma 4L acabou por ser o carro escolhido para o vídeo de divulgação das classificativas de Baião e que acabou por ser adotado pelo Automóvel Clube de Portugal, organizador do rali. “Calhou o fotógrafo que também participou no vídeo ter uma 4L”, contam, lembrando que a famosa 4L azul acabou por fechar os troços do rali nas provas de sábado, antes do carro-vassoura. Antes de refazerem o percurso na Aboboreira com o Expresso, não hesitaram em ir à Câmara perguntar se não emprestavam a 4L branca propriedade da autarquia para “as fotografias”. Assim foi, não se coibindo de entoar o hit "Verde Vinho", de que só conhecem o refrão cantado sem ensaios na manhã das filmagens. “Quem sabe faz na hora. Saiu quase tudo à primeira, enquanto éramos filmados por uns drones”, afirma Fátima, sem disfarçar ter gostado, mesmo não sendo fã de corridas, de fazer de pendura ao lado do piloto de ralis de Baião Vítor Pascoal.

Rui Duarte Silva

O resto foi tudo genuíno, dos cavalos do Centro Hípico ao rebanho de cabras das cercanias e aos amantes de caminhadas que costumam andar por ali. “Com todo o tempo do mundo” desde que se reformou há seis anos, Fátima foi convencida a participar na brincadeira pelo filho, funcionário da autarquia que não desistiu às primeiras “negas” da mãe. Logo por altura da Páscoa, quando o vice-presidente da Câmara de Baião, Paulo Pereira, teve a ideia de divulgar o regresso do Rally de Portugal ao Norte após 14 anos a rolar pelo Sul, Fernando não se fez rogado em participar, até porque foi na altura dele como presidente da Junta de Campelo que foi aberto o sinuoso troço de 18 quilómetros que percorre a serra local.

Entre ser lançado a três dias do arranque e o início da prova, o vídeo somava já mais de 700 mil visualizações. A ex-contabilista da junta de Ovil, agora denominada Campelo / Ovil desde a fusão à força das freguesias, soube que era uma celebridade quando uma afilhado lhe ligou de Trás-os-Montes e uma familiar de França, enquanto o senhor Fernando atendia as inesperadas chamadas de uns parentes de Andorra. Para o ano voltam a alinhar? “Um ano na nossa idade é muito tempo”, comentam. E receberam cachet? “Claro que não”, arreliam-se, confessando que já houve quem insinuasse isso, “gente que acha que tudo se faz por dinheiro”. Fernando até já ouviu que há quem pense que ele carrega a cruz nos funerais em troca de 50 euros. “Um disparate”, refere. Agora, a sua única obrigação - e fá-la por gosto - é tratar do seu campo, onde colhe milho, batatas, cebolas, além dos 2 mil litros de vinho anuais. Verde, que Baião integra a rota dos cada vez mais premiados vinhos verdes. “Mas antes fossem maduros.”


Rui Duarte Silva