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Suspeitas de negligência em morte de recluso 
com meningite

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Recluso de 38 anos morreu na segunda-feira de meningite. Doença foi detetada tarde demais

Ana Baião

Advogada garante que serviços clínicos prisionais confundiram doença mortal com um torcicolo e deixaram o preso a morrer. MP vai investigar.

A advogada do recluso do Estabelecimento Prisional de Sintra que morreu no início desta semana com meningite bacteriana acusa os serviços prisionais de “negligência grosseira e omissão de auxílio” e vai participar o caso à Procuradoria-Geral da República.

De acordo com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, o recluso, de 38 anos, sentiu-se mal “ao início da manhã de segunda-feira, pelo que foi assistido pelos serviços clínicos do estabelecimento e pelo INEM, que o conduziu ao Hospital de Cascais”, onde veio a morrer de meningite poucas horas depois. 

A versão é, no entanto, desmentida pela advogada do preso e por fonte da guarda prisional, que asseguram que o homem estava gravemente doente e a pedir auxílio pelo menos uma semana antes de ter sido levado ao Hospital de Cascais.

Segundo Vera Acabado, advogada do recluso de nacionalidade brasileira, que cumpria uma pena de 4 anos e 6 meses de prisão por tráfico de droga, Jerson queixava-se há vários dias de fortes dores no pescoço, um dos principais sintomas da meningite bacteriana. 

No passado dia 12, uma semana antes de morrer, foi levado ao Hospital Prisão de Caxias, para uma consulta de fisioterapia, onde lhe foi diagnosticado um simples torcicolo e receitada uma pomada para alívio das dores musculares. “Não lhe fizeram quaisquer análises ou exames”, critica a advogada, que vai apresentar esta segunda-feira uma participação ao Ministério Público para que o caso seja investigado.

“Nos dias que se seguiram, foi ficando cada vez pior, ao ponto de já não conseguir levantar-se da cama para nada. Estava moribundo. Os companheiros de cela imploraram várias vezes que fosse levado para o hospital, mas os serviços prisionais deixaram-no a morrer durante dias. Quando, finalmente, chamaram o INEM já estava em coma, praticamente morto”, conta Vera Acabado. “Não tenho dúvidas de que houve negligência grave e omissão de auxílio”, acusa.

Serviços prisionais 
em silêncio
Segundo relataram à advogada os companheiros de cela, o recluso, que tinha sida, foi visto no passado fim de semana por um enfermeiro da prisão, que aconselhou a sua ida ao hospital, o que acabou por não acontecer pelo facto de os guardas prisionais estarem em greve.

Em declarações ao Expresso, fonte da guarda prisional da cadeia de Sintra nega que a paralisação dos agentes tenha  impedido o transporte ao hospital e atira as culpas para os serviços clínicos: “Depois de ter  sido visto no Hospital Prisional de Caxias, onde lhe diagnosticaram um torcicolo, o recluso começou a piorar e nunca mais conseguiu sair da cela. Os enfermeiros ainda foram vê-lo pelo menos duas vezes nos dias que se seguiram, mas nunca disseram que tinha de ir para o hospital. Só se aperceberam realmente da gravidade da situação quando o homem já não acordava. Quando o INEM chegou, estava em coma.” 

Questionada pelo Expresso, a Direção-Geral de Reinserção e  Serviços Prisionais (DGRSP) limitou-se a referir que  o recluso  “era regularmente seguido nos serviços clínicos”, tendo ido a quatro consultas de diferentes especialidades só este mês. 

A DGRSP não esclareceu, no entanto, se foram feitas quaisquer análises ou exames ao recluso quando lhe foi diagnosticado um torcicolo, uma semana antes da morte, nem tão pouco se o preso voltou a ser visto nos dias que se seguiram. Da mesma forma, a Direção-Geral não respondeu se vai ou não abrir um inquérito sobre este caso.