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"Lisboa é imperfeita. Que bom"

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GLOBETROTTER. Tyler Brûlé passa 250 dias por ano a viajar. Uma vez por mês vai a Tóquio. O guru das tendências mundiais escreve todas as semanas a crónica “Fast Lane” no “Financial Times”

Criou a revista "Wallpaper", em 1996, considerada a bíblia do design e arquitetura. Voltou a reinventar-se em 2007 com uma marca de media inovadora, a "Monocle", que passou a ditar tendências globais. Estatuto, qualidade de vida, reinvenção do luxo e das regras do mercado fazem dela uma revista e uma 'cultura' globalmente cobiçada. Tyler Brûlé é a "Monocle". E todos querem ver o mundo pelo seu monóculo.

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

O que é qualidade de vida nos moldes contemporâneos? O que faz com que uma cidade, uma rua, um museu, um escritório, ou mesmo uma revista sejam considerados dos melhores do mundo? Tyler Brûlé, diretor da revista "Monocle", escolheu Lisboa para juntar uma série de agentes internacionais com ideias sobre o que uma cidade do futuro deve ser. Designers, arquitetos, empresários, comunicadores, diretores criativos de vários países vieram ajudar a definir o mundo que a "Monocle" imagina e aplaude. Um encontro de elite na primeira conferência "Qualidade de Vida" que a marca organizou no mês passado, em Lisboa, no Hotel Ritz, para uma audiência internacional de 165 pessoas que pagaram a entrada a peso de ouro. A "Monocle", uma revista de tendências que publica dez edições anuais, tem vindo a agigantar-se nos oito anos da sua existência.

Não é só uma publicação com um design sofisticado e matérias que dão conta do que de melhor se passa em Minneapolis, Tóquio, Lisboa ou Sydney - é também uma forte marca de media, com roupa e acessórios, lojas, cafés, livros e até uma rádio, a Monocle 24. No universo das cidades de todo o mundo, quer ser um barómetro e um aferidor do que é cool, inspirador, genuíno... Para isso faz anualmente o ranking "Monocle" das 25 melhores cidades do planeta. E ninguém quer ficar de fora. Lisboa não ficou, no ano passado alcançou o 22º lugar. Brûlé, 46 anos, tornou-se famoso pela sua criação anterior, de 1996, a revista "Wallpaper", conhecida como a bíblia do design.

Um golpe de mestre depois de abandonar a profissão de repórter na sequência de ter sido atingido em 1994 por um sniper em Cabul, Afeganistão. Estava ao serviço da revista alemã "Focus". Reza a lenda que decidiu passar a fazer tudo sozinho, reagindo ao cinismo do seu editor, que lhe enviou flores acompanhadas por uma nota a dizer: "Boa recuperação. Obrigado por ainda estares vivo." Em 2007, fundou em Londres a "Monocle". Em Lisboa, Tyler Brûlé, com um estilo tão clássico quanto pop, barba de três dias, cachuchos de prata em vários dedos, capaz de entusiasmar hipsters, subiu ao palco para falar da sua visão do luxo e da qualidade: tempo para viver e usufruir, encontrar autenticidade e personalidade nos lugares, valorizar a memória das cidades.

Porque é isso que pode ser o futuro.

A "Monocle" é vendida em 60 países, e no ano passado Portugal ocupava o 9º lugar na lista dos países que mais compravam a revista. Ainda é assim?
Agora ocupa o 8º lugar, subiu. E isso deve-se a uma série de coisas. Uma delas não é uma razão muito sexy, temos um ótimo distribuidor aqui. A revista vende muito bem porque esse distribuidor gosta do produto e sabe exatamente como colocá-lo no mercado. Por outro lado, existe uma grande afinidade dos leitores portugueses com a revista. É um público que olha muito para fora. Acho que os conteúdos da revista correspondem às visões das pessoas. De facto, é incrível, porque Portugal é muito pequeno.

Vendemos o dobro das revistas aqui em comparação com Espanha.

A sua revista escreve sobre tendências e negócios mundiais de Sydney a Tóquio. Porque é que isso atrai tanto os consumidores de um país periférico?
Não consigo explicar, a sério. Esse fenómeno acontece com Portugal e Singapura. Singapura é o nosso maior mercado, porém vendemos quase todos os exemplares no aeroporto de lá, que é um um dos maiores a nível internacional. Por isso, não se trata apenas de leitores de Singapura, mas de público internacional. Portugal é um fenómeno quase estranho...

Nos últimos anos, a "Monocle" tem dado grande destaque a Portugal, particularmente a Lisboa. A tal ponto que escolheram fazer esta vossa primeira conferência "Quality of Life" na nossa capital. Porquê?
Observamos um grande número de coisas em Lisboa que corresponde à "Monocle". Por um lado, é uma cidade que oferece oportunidades. Portugal passou recentemente por um período muito difícil em termos económicos, mas isso proporcionou oportunidades. As rendas são baixas, o que permite a uma pessoa aventurar-se num negócio que não seria possível, por exemplo, em Paris, Londres ou Munique, economias muito mais desenvolvidas. Este é um ponto a favor de Lisboa. Por outro lado, é uma cidade imperfeita, que bom! Não é como Genebra ou Zurique, onde tudo é perfeitinho.

Quer dizer que ainda há muito que pode ser feito para melhorar?
Sim. E o mais importante é que não se deve renovar ao ponto de tudo ficar parecido com a Disneylândia. É preciso que continue a crescer erva entre a calçada portuguesa. Isso é importante porque revela personalidade, de outra forma é como se a cidade tivesse excesso de botox. Se as cidades sofrerem demasiada cirurgia plástica começam a ficar com uma personalidade diferente, perde-se a autenticidade. A razão pela qual Lisboa é assim é porque não há toneladas de dinheiro, nem tudo pode ser renovado, não se podem contratar os melhores arquitetos, o que é bom! Jantei há duas noites no Gambrinus, que é um restaurante brilhante...simplesmente porque não muda.

Pode experimentar um menu dos anos 70!
Exato!

As rendas para os portugueses não são assim tão baixas, principalmente no centro da cidade, mesmo que as comparemos com as de outras cidades...
Sim, mas mesmo que as rendas não sejam baixas para os locais, elas são de facto baixas. Faz-me lembrar um pouco Berlim.

Quer com isso dizer que parte do nosso encanto e salvação é não termos tido muito dinheiro para investir na cidade? É por isso que ainda se encontram muitas coisas originais?
Sim, e não só. Lisboa e Portugal têm um ponto de partida de grande qualidade.

É um local incrível, com um império no passado, uma história extraordinária, uma arquitetura admirável de muitos períodos diferentes. Há exemplos tão bons dos anos 60 e 70 como do final do século XVIII. A cidade está cheia de textura, não se limita à arquitetura do final do século XIX, há também um formidável sentido de modernismo.

MONÓCULO Tyler elege o aeroporto de Helsínquia, o mercado de rua Ostermalms, em Estocolmo, a zona de James Street, em Brisbane, o Hotel Okura, em Tóquio, e a Star Street, em Hong Kong, como cinco dos mais interessantes espaços a conhecer no mundo

MONÓCULO Tyler elege o aeroporto de Helsínquia, o mercado de rua Ostermalms, em Estocolmo, a zona de James Street, em Brisbane, o Hotel Okura, em Tóquio, e a Star Street, em Hong Kong, como cinco dos mais interessantes espaços a conhecer no mundo

Estamos a conversar no Intendente, uma zona em renovação que foi durante décadas conotada com a prostituição e a droga. Já não é a primeira vez que visita Lisboa. Acha que o Intendente e outros bairros históricos já têm demasiado botox?
Estão no limite. É evidente que há muita coisa restaurada ou renovada.

[Olha em redor] Algumas intervenções são exageradas, deveriam ter sido feitas com consideração e equilíbrio. Neste momento em Londres há grandes protestos contra o que se passa no Soho. O bairro está a ficar demasiado higienizado.

É um cenário que se repete em muitos centros antigos de cidades europeias...
Sim, mandam-se embora as prostitutas, encerram-se as sex shops. Tudo o que caracteriza o Soho está a desaparecer. As sex shops sempre lá estiveram! Porque é que de repente no século XXI deixam de ser aceitáveis?

Como acha que uma cidade como Lisboa poderá resistir a um certo turismo de massas que sai dos barcos de cruzeiros às centenas, desloca-se de tuk-tuk e compra telas da Mona Lisa perto da Sé? Como poderemos manter a personalidade, autenticidade e qualidade de que fala?
Depende do equilíbrio. Talvez o Estado agora precise de atrair para o país tudo o que puder, mas o sector do Turismo tem de refletir bem uma estratégia. A certa altura vai ter de dizer que Lisboa não aceita barcos com mais de 900 pessoas a bordo, por exemplo. Precisa de ter uma estratégia concentrada num determinado nível de turistas. Não é exclusivo de Lisboa, é um problema global. Veja-se a pobre Veneza, como falámos na conferência. Também torna a vida impossível para os habitantes no verão...

Catarina Portas tem tido presença frequente na "Monocle". Na conferência que fizeram foi uma das duas únicas personalidades portuguesas convidadas a falar entre muitas figuras internacionais. [A outra foi Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto] Porquê sempre essa escolha? Catarina é Portugal para vocês?
Para nós, ela é uma representação positiva do que está a acontecer em Portugal. Alguém que é capaz de ser curadora, pesquisar, filtrar e juntar os artesãos e produtores que valem a pena. Para um público internacional é fácil de perceber que ela tem capacidade de estimular negócios, de criar um certo nível de orgulho nas coisas que são fabricadas em Portugal. Não é só ela. Seja a Catarina ou o Kamal Mouzawak [ativista alimentar libanês que participou na conferência], há muitas versões de pessoas assim pelo mundo com um exemplo muito bom e positivo.

A "Monocle" está de olhos em Portugal há anos, tem correspondentes e consultores a estudar a nossa realidade. Até agora não encontraram outras personalidades com projetos tão interessantes como o dela?
A Catarina é muito boa... Claro que há outras marcas individuais e companhias portuguesas interessantes. Por exemplo, há uma empresa no norte de Portugal, não no Porto, mas na zona do Porto, com quem poderemos vir a fazer um trabalho. E estamos em contacto e diálogo com muitos outros.

Quem são?
Têm de esperar para ver na "Monocle". O acordo não está fechado.

Considera que o projeto de Catarina Portas de revitalizar a produção tradicional tem permitido um certo desenvolvimento de Portugal?
Ela consegue fazer os seus próprios projetos resultar e abrir ao mesmo tempo possibilidades para outras pessoas fazerem o mesmo. Mas ela é apenas uma. Provavelmente, teria de haver mais esforços concertados para que a sua mensagem crescesse. Portugal tem uma incrível base de manufatura. Não percebo porque é que não há uma H&M ou uma Zara portuguesa. É de loucos! Vocês estão a produzir todos os tipos de roupa para muitos países, mas nenhuma marca portuguesa emergiu à escala global como a GAP. Isso seria muito bom para o comércio nacional. Há pessoas que sabem que em Portugal há qualidade na manufatura e nos materiais. Acontece que as empresas ocidentais ainda escondem que as suas roupas são made in Portugal porque querem fingir que são feitas em Itália ou na Suíça.

Quem são os leitores da "Monocle"? Hipsters que querem ser cool, parecer viajados e sofisticados? Ou são pessoas com dinheiro que têm uma qualidade de vida acima da média? Tem mudado ao longo do tempo?
Acho que os leitores são muito semelhantes aos do início, mas agora é um público mais alargado. Estavam representados na conferência no Ritz. Não acho que lá houvesse hipsters. OK, havia pessoas com um certo estilo, até eram mais maduras...Sim, havia algumas barbas...

Algumas barbas, óculos retro de massa, roupas e estilo muito ao jeito de quem aparece nas capas da "Monocle"...Hipsters, portanto.
Não acho que fosse território deles. Acho que temos leitores globais, pessoas como as que vieram à conferência, que podem pagar um bilhete de 1500 euros para participar na conferência, além das viagens para aqui chegar.

Todos os 165 participantes pagaram?
Toda a gente pagou.

O que leva as pessoas a virem de todo o mundo e a pagarem uma quantia tão avultada para passarem um dia a ouvir falar de qualidade de vida?
Falei com algumas pessoas que vieram por curiosidade genuína. Foi a primeira conferência, o que intrigou toda a gente. Acho que a qualidade de vida é um assunto quente, no sentido da cidade, do desenvolvimento de um projeto de arquitetura...há muitas intersecções para este assunto. O mais interessante é a diversidade dos participantes. Se se for a uma conferência de luxo como a que o "New York Times" organiza esta semana em Florença, muitos dos presentes serão retalhistas ou do mundo da moda. A nossa conferência teve pessoas que gerem negócios de sapatos na Alemanha, representantes de governos locais, conselheiros do Governo de Angola, uma grande misturada! Todos vieram para trocar opiniões e encontrar outros com ideias semelhantes.

Mas a componente de negócio também está muito presente...
Sim, o negócio tem de estar presente, porque, se deixamos a questão da qualidade de vida entregue aos presidentes de Câmara, vamos ter de esperar muito, muito tempo para ver algo acontecer. Muitas revistas falam da qualidade de vida apenas do ponto de vista da arquitetura, outras da sustentabilidade, eu acho que há outras questões envolvidas. Por isso tentámos explorá-las tanto quanto possível.

Porque é que "qualidade de vida" é um assunto "quente" neste momento?
Porque as cidades estão a lutar imenso por investimentos internos. Pensa-se em Portugal ou em Lisboa e no Porto? Quando se pensa onde instalar um centro de investigação ou uma família pensa-se em termos de cidades. Por isso, é muito mais fácil promover mudanças a nível municipal.

Acho que a competição global entre cidades torna o assunto "qualidade de vida" competitivo. Oslo está a pensar nisso, o Porto também, Minneapolis igualmente. Todos lutam pela posição que vão querer ocupar no futuro.

E estão também certamente a lutar por um bom lugar no ranking das 25 melhores cidades [ranking anual da "Monocle"]. Um irresistível potencial turístico...
O ranking faz parte disso, mas não tem um reconhecimento instantâneo.

Ligamos Lisboa à qualidade de vida por ter praias limpas, bom nível de educação, bons hospitais... Penso que pela renda mensal que pagaria em Lisboa poderia desfrutar de uma situação de vida mesmo muito agradável. E a cada dia é provável que o sol apareça, o que também é muito importante.

Sabemos que o Turismo de Portugal participou com 190 mil euros. E que mais?
Sim, isso foi no ano passado, quando viemos avaliar o que seria necessário para realizar a conferência. Daí para a frente, não houve mais investimento da parte deles. Trouxemos a Lisboa 60 pessoas [entre oradores e pessoal], para o que tivemos o apoio da TAP, através de uma parceria com o Governo. Mas não houve mais dinheiro em cima da mesa.

IMPERADOR DO COOL. Fez-se jornalista na BBC, mas deixou a profissão após ter sido ferido no Afeganistão. Em 2007 começou a construir o seu império “Monocle”

IMPERADOR DO COOL. Fez-se jornalista na BBC, mas deixou a profissão após ter sido ferido no Afeganistão. Em 2007 começou a construir o seu império “Monocle”

Na conferência conhecemos uma designer americana de coleiras de pele para cão fabricadas em Itália. Ela confessava-se perdida enquanto designer por causa dos progressos do digital e das tecnologias. Veio a Lisboa por querer ser uma empresária de sucesso. Este encontro da "Monocle" também serve para orientar estas pessoas
Somos muito claros sobre aquilo que a conferência pretende. Se essa designer veio para encontrar pessoas que partilham a sua visão do mundo, estava no lugar certo. Não acho que ela tivesse vindo tratar de questões de distribuição da sua produção. A maneira como os participantes podem inspirar-se com as histórias uns dos outros é lateral. Se se for conselheiro do Governo de Angola ou se se estiver a produzir coleiras de pele para cães tem-se visões muito diferentes. Não foi um encontro entre pessoas que fornecem ilhoses para coleiras de cães nem gente a falar dos seus projetos no sudeste africano.

O objetivo da conferência não é ser um mercado comercial.

Diria que a "Monocle" representa um tipo de consumo necessariamente caro?
Não, de todo! Acho que isso é um equívoco. Porém, há que pagar pelo que é bom.

O que considera então caro?
Pensando em media, revistas sobre iates e jatos privados. A "Monocle" não é isso.

Ler a "Monocle" confere estatuto. Permite sonhar com um estilo de vida que a revista veicula?
Claro. Todos os media sempre foram isso! As pessoas acham que isto [aponta para os iPhone] é que são os verdadeiros media de hoje. Estes aparelhos não dizem nada sobre elas. Qualquer tablet, ou telemóvel Samsung, iPhone, Blackberry, qualquer um deles não diz absolutamente nada sobre a pessoa que o usa. Só têm o poder associado à marca. Ao contrário, se um indivíduo for leitor do "Financial Times" ou do "Telegraph" já é uma afirmação, diz alguma coisa sobre si. Nós acreditamos realmente que este tipo de ideia é nuclear para uma revista. Não se deita a "Monocle" para o lixo, exibe-se a revista na estante.

E exibe-se a sua leitura numa esplanada como esta para se ser visto?
Sim, as pessoas gostam que a revista seja um acessório como outros, é um acessório intelectual.

E se um leitor do "Financial Times" ou do "Telegraph" ler só a versão digital? É ainda a mesma marca e continua a dizer o mesmo da pessoa que o consome? 
Em primeiro lugar, não se pode ler a "Monocle" numa aplicação digital, e isso é bom. O que estou a dizer é que as empresas de media estão confundidas. Se continuarem a pensar que o "Financial Times", o "New York Times" ou seja o que for tem tanto poder aqui [volta a apontar para o iPhone] como nas folhas cor de rosa, eu diria que não! Estão erradas. Não acho nada que o futuro passe apenas por estar nos smartphones.

Nem mesmo a combinação dos dois media, digital e papel?
A combinação dos dois ajuda. Acontece que muitos dos media - não é o caso da "Monocle" - que estão a tentar transferir-se para o mundo digital não vão durar muito.

Dá muita atenção à Ásia. Pelo menos uma vez por mês vai a Tóquio. Faz negócios por lá. Porquê? [No ano passado, Tyler vendeu uma participação minoritária na "Monocle" ao grupo de media japonês Nikkei, e a revista passou a valer 87,6 milhões de euros]
Tóquio tem um compromisso com a qualidade e é mal compreendida. É incrivelmente fascinante num mundo globalizado. O Japão continua a fazer as suas próprias coisas, o que é muito refrescante. E é na Ásia que está o crescimento das revistas. As economias emergentes, como a Indonésia, a Malásia, a Tailândia, têm uma nova geração de leitores, que consomem também media em língua inglesa. São pessoas com formação elevada, que viajam, consomem revistas internacionais, procuram oportunidades de negócio e gostam de ler sobre locais inspiradores no mundo. A Ásia para nós é um foco nuclear, porque é um bom mercado de publicidade. Refiro-me neste caso à Ásia dos mercados maduros, Japão, Coreia e Austrália. A Austrália é o nosso terceiro maior mercado, tão importante como Singapura e Hong Kong. Outra razão desta atenção da "Monocle" à Ásia é o facto de os negócios terem de ser feitos cara a cara. É impossível fazê-los via Skype.

Já fala japonês?
Um bocadinho. Tive aulas. Talvez já saiba dizer "restaurante" e "táxi" em japonês. Apesar dos grandes avanços tecnológicos que acontecem no Japão, o país está de certa maneira congelado no tempo.

Nasceu no Canadá. É filho de pai futebolista e de mãe artista. Muito cedo tornou-se jornalista freelancer. Como nasce esse interesse pelos media?
Em minha casa nunca se discutiu em que é que eu me iria tornar um dia. Talvez o facto de os meus pais serem consumidores de revistas tenha influenciado. Cresci rodeado de grandes títulos, revistas de negócios, arquitetura, moda, decoração... Em pequeno havia muitas coisas que não podia comprar, não estava autorizado a gastar dinheiro em chocolates, pastilhas, rebuçados. Mas se quisesse comprar revistas, a minha mãe pagava as que eu quisesse. Foi uma inspiração indireta.

Cobriu um pouco de tudo, desde a guerra à moda. Escreveu para o "Guardian", a "Stern", o "Sunday Times" e a "Vanity Fair"... Que tipo de jornalista quis ser?
Comecei por me interessar por jornalismo televisivo. Era o meu foco quando decidi ir para uma escola de jornalismo. Queria ser produtor de notícias e correspondente no estrangeiro. Depois de me formar, comecei a trabalhar numa estação de televisão local no Canadá. Foi uma entrada no jornalismo muito standardizada. Só depois mudei, passei pela BBC. Mas no início não estava interessado no jornalismo de imprensa escrita. Queria estar na arena televisiva a tratar de assuntos internacionais.

Tem uma coluna de opinião no "Financial Times" há 12 anos, "Fast Lane". É uma parte fácil do seu trabalho, porque descreve a sua própria vida em viagem...
Eu não diria que é fácil de fazer. Ter uma coluna ao longo de 12 anos que tem de ser entregue todas as terças de manhã, no meio de tudo o que faço, não é fácil.

Mas não desiste da coluna, pois não?
O meu colega de página [Harry Eyres com "The Slow Lane"] despediu-se há uma semana ao fim de 12 anos... Vamos ver, quem sabe...

Na sua crónica mostra-se uma pessoa maçada nos aeroportos e nos aviões, a criticar os estilos dos outros à sua volta. O tom chega a ser irritante, arrogante, para quem o lê. Tem consciência disso?
A coluna é escrita com um tom firme e ousado. É séria, mas claro que é irónica. As pessoas que percebem, percebem... As que não percebem não pertencem provavelmente ao núcleo dos meus leitores. Há muitas que têm seguido a coluna e que compreendem o meu tom de voz, outras talvez não tenham sentido de humor...

Passemos ao futuro da "Monocle". Depois da rádio. qual é o próximo passo? Um canal de televisão?
Não sei. Será que vamos ter canais de televisão no futuro? Será que vamos todos ler através dos nossos óculos? Não sei...

Não acredita que a imprensa em papel esteja condenada?
Não, de todo! Como se constrói a personalidade e a cultura de uma marca de media como a vossa ao mesmo tempo que se multiplicam os vossos canais? A cultura de base tem de ser forte. A filosofia interna é que nos permite alargar o negócio. A nossa cultura de crescimento constrói-se a partir do núcleo. Se quisermos fazer livros, não vamos contratar o melhor editor do mercado. Vamos apostar numa pessoa do núcleo da equipa, que se vai concentrar nisso daqui para a frente. Aprendemos que somos quem melhor sabe aquilo que quer.

Esta atitude de se manterem fora das redes sociais vai continuar?
Não estou lá agora, não me sinto obrigado a ir para lá...

E não é isso o futuro, do seu ponto de vista?
Não, não é!

Porque não?
Porque as pessoas desataram a correr para esses media e, no fundo, não percebem que a única coisa que fazem é dar mais gás à competição. O Facebook e o Twitter são a competição direta com as nossas publicações. Estou fora. Ou seja, a publicidade está a fugir das publicações para as redes sociais. Quem deixou que isso acontecesse foram os media como a BBC, a CNN, e não percebo como é que as pessoas não viram que estavam a virar o negócio contra si próprias.

Não acha que está pessoalmente a perder alguma coisa deste tempo estando fora do Twitter ou do Facebook?
Não é só porque as coisas existem que temos de estar nelas. Não é por haver ar condicionado que temos de o ter ligado. Talvez prefira abrir uma janela, em alternativa.

Mas há muitas pessoas a darem opiniões, a formarem movimentos e a partilharem ideias nessas redes sociais que poderia aproveitar, acompanhar...
Não me interessa.

Diz-se que é o Steve Jobs da imprensa, porque gere uma revista de sucesso e, mais do que tudo, criou um modelo de negócio inovador, uma marca de media que faz dinheiro. Ao mesmo tempo, jornais de prestígio ou fecham ou fogem do papel. O que pensa disso?
O meu negócio é pequeníssimo...Sim, tem lucro, mas comparado com o Steve Jobs... por favor! Somos uma marca muito, muito pequena, temos 80 mil pessoas a comprar-nos a revista. O facto de eu não estar nas redes sociais parece que ameaça as pessoas, mas nós somos mínimos, sem qualquer comparação com a Apple!

Criticou a campanha do Turismo de Portugal, em 2007, "Portugal, the west coast of Europe". Afirmou que mar e sol não deveriam ser os cartões de visita do país. Qual deveria ser então o nosso cartão de visita?
O orgulho na manufatura. A história legítima do país, uma história que contribuiu para que o mundo esteja onde está hoje. Isto é vital para Portugal numa altura em que temos de ter em consideração a distância que as camisolas viajam até que as usemos. É preciso ter consciência de que elas podem vir de uma fábrica no Bangladesh de onde os operários nem saem para dormir. Uma parte do cartão de visita de Portugal é o país pertencer à União Europeia, os operários terem salários, pensões e assistência médica. Tudo isto faz parte da mensagem. Isso é caro? Que seja! É esta a minha visão: obtém-se aquilo que se paga. Se o produto custa mais três euros para que o que defendo seja cumprido, fantástico!

Qual é o seu sonho seguinte?
Algo ligado a cidades e a desenvolvimento, seja reconstruir alguma coisa ou construir de raiz. Talvez fazer a nossa próxima sede ou, como se falava na conferência, desenvolver um projeto de residência. Temos falado tanto de arquitetura que essa poderia ser uma área onde investir dinheiro. Na verdade, somos conservadores, não corremos riscos. Há razões para sermos cautelosos, não temos bolsos fundos. Se falhar, falha mesmo e já não há mais negócio. É em parte por isso que escolhemos não alinhar com as redes sociais, porque eu vejo--as como uma ameaça direta à nossa vitalidade. Bastaria perdermos dez por cento da publicidade para ser um grande golpe.

Algumas cidades vão desenvolver--se de forma mais interessantes do que outras. Cita Berlim como um bom exemplo cultural em work in progress. O que vê nela?
É uma cidade de renome mundial, também passou por fases difíceis, a sua cultura própria é muito definida pelas partes não acabadas e é um local interessante para jovens empresários, jovens investidores, jovens artistas, o que é exatamente o que se passa em Lisboa... só que daqui pode ver-se o mar.

A Europa continua afundada em crise. Qual é a sua ideia de futuro para a Europa?Quanto tempo temos? Essa pergunta exige um livro! Acho que tem de haver uma voz mais confiante a lidar com a Rússia. A Europa tem de ser mais ativa em relação à imigração, porque não é sustentável morrerem pessoas às centenas todas as semanas. Não é possível que continue a acontecer isso. [No dia da entrevista era noticiado um naufrágio no Mediterrâneo onde morreram 400 pessoas] É preciso que a Europa seja mais confiante e, ocasionalmente, menos diplomática. Ocasionalmente, sublinho ocasionalmente.


Texto publicado originalmente na edição de 25 de abril de 2015 do Expresso