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Isto não é um mar de rosas

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CENTRO Cidade de Bergen, no norte da Noruega

Luísa Meireles

Os emigrantes portugueses que vivem em Bergen, na Noruega, passam um mau bocado antes de se adaptarem. Quando conseguem. Os noruegueses não lhes facilitam a vida.

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Cátia Caçote tem 28 anos, é assistente social, está há três anos no país e não conseguiu mais do que dois part-time em hotelaria. Sérgio Rocha tem 26 anos, uma licenciatura em Ciências do Meio Aquático, já vai a caminho do segundo mestrado na Noruega e ainda não passou da cozinha de um restaurante nos últimos cinco anos. Quanto a Wagner Évora, 38 anos, esse sim, cozinheiro de profissão, está feliz: tem um contrato efetivo de trabalho na sua área, na cantina do maior banco da Noruega.

Cátia Caçote e Wagner Évora, ela assistente social, ele cozinheiro

Cátia Caçote e Wagner Évora, ela assistente social, ele cozinheiro

Luísa Meireles

Emanuel Neto, aos 37, engenheiro eletrotécnico, está a fazer investigação em Alzheimer e é um provocador: diz que depois de concluir a sua pesquisa na Faculdade de Psicologia de Bergen e agora afirma que quer ser “eletricista”, que é a sua maneira de dizer que quer construir casas inteligentes, mas sempre neste país nórdico, aonde aportou em 2009 com a namorada, formada em Ciências Forenses.

Marta Silva ainda não teve tempo de formar uma opinião abalizada: está a fazer o Erasmus-mundi desde agosto passado e, para já, gosta muito.

Já Hugo Miguel é um caso à parte: vive há 20 anos no país, perfeitamente integrado, mas é filho de um norueguês. Nasceu no Alentejo, onde viveu até aos 14 anos, quando o pai perdeu o emprego e resolveu voltar à terra-mãe. Formou-se lá e faz investigação psiquiátrica.

Hugo Miguel, luso-norueguês, presidente da Associação Lusofonia

Hugo Miguel, luso-norueguês, presidente da Associação Lusofonia

Luísa Meireles

Foi ele que percebeu que a vida estava a ficar muito complicada para os emigrantes portugueses e da lusofonia em geral, que também os há em Bergen, e resolveu fundar uma Associação da Lusofonia, em 2012. Antes, não havia mais do que 30 ou 40 emigrantes lusófonos na cidade, cujo porto é património mundial da UNESCO, e agora há entre 400 e 500. A associação reúne 191 sócios.

Um antes e depois de 2009
Carlos Gonçalves das Neves, cônsul honorário para o norte da  Noruega, confirma. Há um pré e um pós 2009 quando se fala na emigração em geral, e na portuguesa em particular. Ele próprio vive no país desde 2002 e divide-se entre Tromso, uma cidade no norte da Noruega, e Oslo, a capital.

Licenciado em Medicina Veterinária, arribou àquele norte gelado para fazer a tese de licenciatura, sobre espécies selvagens, e foi ficando, fazendo depois um doutoramento e a seguir um pós-doc. Hoje, com 34 anos apenas, é diretor do departamento de Virologia do Instituto Nacional de Veterinária e professor (o mais novo e único estrangeiro).

“Quando aqui cheguei”, diz, “havia talvez uns 500 ou 800 portugueses na Noruega inteira, remanescentes da antiga emigração. Em Tromso, éramos cinco”. Agora, estão registados na embaixada em Oslo 3731, mas o número total não se sabe ao certo, porque não são obrigados a fazê-lo. Em Tromso, diz Carlos, são quase 40!

Os emigrantes afluíram e os noruegueses também mudaram e começaram a olhá-los de ponta. As contas do Serviço Nacional de Saúde (que é gratuito, bem como a Educação) mostraram que o país gastava mais com os emigrantes do que com os noruegueses. O país é rico, não está em crise, tem um fundo soberano de 850 mil milhões de euros e o nível dos salários atrai quando olhado de fora. Esquece-se que estão adaptados a um país com um dos níveis de vida mais altos do mundo.

Dura realidade
Na prática, a realidade é dura. A crise levou muita gente a emigrar e, se não se levam contactos ou promessas reais, a realidade é dura. “A Noruega não é um paraíso, a qualidade de vida é alta e o sistema social desenvolvido, mas a língua e o emprego são uma limitação”, afirma o cônsul honorário.

Sérgio Rocha, uma licenciatura, dois mestrados e um emprego de cozinheiro

Sérgio Rocha, uma licenciatura, dois mestrados e um emprego de cozinheiro

Luísa Meireles

Sérgio que o diga. Veio do Porto para fazer um mestrado em nutrição marinha e, quando chegou a hora de procurar emprego, cadê? Cozinheiro foi o melhor que conseguiu, a ganhar pouco e só consegue equilibrar as finanças porque partilha casa e despesas com um amigo, e não tem carro nem família. A escuridão durante o Inverno é difícil de aguentar, mas prefere ainda assim ir tentando a sorte com um novo mestrado (Biologia Marinha), porque sabe que em Portugal não tem emprego.

Emanuel Neto, engenheiro-electrotécnico que pesquisa em Alzheimer

Emanuel Neto, engenheiro-electrotécnico que pesquisa em Alzheimer

Luísa Meireles

Para um estrangeiro o idioma é a primeira das dificuldades, porque os noruegueses impuseram um exame da língua como primeiro passo para a legalização que permitirá depois o emprego. Cátia diz o mesmo e queixa-se que, embora frequente as aulas, nunca consegue falar o suficiente porque, como trabalha em hotelaria, raramente fala norueguês. Está desiludida e confessa mesmo que só se aguenta porque vive com o namorado (Wagner). Tem o dilema entre o mal-estar na emigração e o regresso para o desemprego: “isto não é um mar de rosas de maneira nenhuma”.

Um bilhete de identidade norueguês é uma coisa curiosa de se ver: de um lado é um cartão de crédito ou de débito e do outro um cartão de cidadão. Mas com o avançar do número de emigrantes, a concessão de crédito a estrangeiros foi abolida. Politicamente, o facto também teve consequências: o Partido do Progresso (anti-imigração) está hoje no poder, coligado com o Partido Conservador, da primeira-ministra, Erna Solberg.

Com a crise, diz Carlos, primeiro começaram a vir os jovens qualificados, até porque, segundo diz, os noruegueses fazem uma procura ativa de quadros. Só mais recentemente é que começaram a chegar os outros e, para esses, a vida é ainda pior: “a construção civil está por conta dos polacos, os táxis dos paquistaneses e os serviços de restauração dos jovens suecos, que estão adaptados ao clima e à língua”.

Na Suécia, é verdade, o desemprego juvenil está acima dos 20% e muitos jovens fazem dois ou três anos de trabalho na Noruega para ganhar algum dinheiro. O que resta a um português que chega à aventura de procurar trabalho? Muito pouco, precário e mal pago.

Depois, há o difícil tempo da adaptação, aos rigores do tempo às rotinas e aos hábitos e costumes da terra. “Nunca me habituarei  à rotina de trabalho”, dizia Carlos das Neves. “Trabalhar das 8-15.30h é demasiado cedo, tanto para acordar como para acabar o trabalho”.

Marta Silva, estudante de Erasmus

Marta Silva, estudante de Erasmus

Luísa Meireles

Para outros, porém, é a virtude: a estudante Marta, que ainda não entrou na fase da procura de emprego, como pretende, acha que é ótimo poder conciliar assim trabalho e família. E quanto ao feitio mais fechado dos noruegueses, o remédio é habituar-se. Compreendê-los e não forçar, como dizia Emanuel. Quando chegou foi cantar para um coro, afirma. Fez amigos e é por lá mesmo que quer ficar. Mas são poucos os que o pretendem. Isto na emigração é como o mar, há ir e voltar.