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O Diogo atirou o gato da varanda. É só mais um exercício de Física ou um caso infeliz?

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José Ventura

O Diogo e o gato fazem parte de um enunciado que estava num livro de exercícios destinado a alunos do 9º ano. Trata-se apenas de "um exemplo infeliz" de quem o escreveu? Ou pode ter uma influência, consciente ou não, na atitude dos jovens perante os animais?  Dois psicólogos evidenciam ao Expresso visões distintas.

"O Diogo largou um gato na varanda do seu quarto, situada a 5 metros do solo." Era este o início do enunciado de um exercício de Físico-Química de um livro escolar da Areal Editores, destinado aos alunos do 9º ano de escolaridade (com idades próximas dos 14 anos). Nele, pedia-se para representar a "força aplicada ao gato durante a queda", "a energia cinética" e "potencial" e o "valor da velocidade" com que o gato chega à "posição B".  

O exercício gerou polémica, dentro e fora das redes sociais, de tal forma que a editora pediu esta quinta-feira desculpa pela "infelicidade" do exemplo, na sua página de Facebook - acrescentando que este "não constará na versão que será disponibilizada aos alunos" (uma vez que a comercialização do livro estava prevista apenas para agosto).  

Um exercício deste tipo pode ter influência em atitudes e ações futuras por parte dos alunos que o tentam resolver ou os estudantes centram-se exclusivamente na resolução da pergunta? A resposta não é tão simples como parece ser e nem os dois psicólogos contactados pelo Expresso concordam na influência que perguntas deste género podem ter no comportamento dos alunos.   

Paulo Jesus, da Universidade de Lisboa, sublinha que o essencial neste caso "é uma questão ética", ou seja, "o facto de um livro pedagógico não ter consciência ética nos seus conteúdos". O psicólogo refere ainda que, ainda que os autores não o façam de má-fé, existe neste caso uma espécie de "laxismo ético", que assenta na "objetificação do animal". 

"Certamente, os autores do manual consideraram que um adolescente é capaz de se distanciar em relação ao conteúdo - e, em parte, existe essa capacidade, mas ainda é vulnerável", explica Paulo Jesus. "A relação entre os adolescentes e os animais está longe de estar configurada nestas idades." Para reforçar o seu ponto de vista, o psicólogo dá o exemplo do bullying: "Se os adolescentes são suscetíveis de mimetizarem atos de bullying contra colegas, contra os animais será ainda mais fácil", especialmente se não estiverem adultos por perto e se estiverem em grupo. 

Paulo Jesus reforça que existem vários estudos que mostram a influência de representações, como imagens e vídeos, no comportamento violento de crianças e jovens, mas sublinha que esta não é uma relação de causalidade direta. Fatores como "a relação prévia desses sujeitos com a violência animal", os seus "valores éticos" e "o modo como uma ocasião similar se apresenta ou não" têm um peso importante no comportamento e atitudes dos estudantes. A idade também é outra dessas variáveis: "Quanto menor for a idade, e a complexidade cognitiva do jovem, mais problemática é a interpretação do conteúdo".  

Lengalengas e ironias com gatos 

Jorge Humberto, psicólogo do agrupamento de escolas de Valongo, tem uma opinião diferente. "Parece-me que a polémica não é justificada e é, em parte, consequência de um período de demasiada sensibilidade em relação a tudo o que acontece nas escolas." O psicólogo escolar considera que, num caso como este, os alunos "concentram-se exclusivamente no exercício em si" e que o exemplo "dificilmente será transposto para o quotidiano". E exemplifica, novamente com estes pequenos felinos: "É como aquela lengalenga infantil, 'Atirei o pau ao gato'. As crianças estão mais focadas na música do que no seu significado", sublinha.  

O psicólogo escolar não deixa de referir que "os autores do exercício poderiam ter encontrado um exemplo mais feliz", mas realça que este não terá "influência emocional" nas crianças e jovens, que "não se focam nele" e estão, "hoje em dia, bastante sensibilizadas para a questão dos animais".  

Paulo Jesus vai ainda mais longe e propõe uma formulação alternativa do enunciado, que considera mostrar um certo "humor deslocado" por parte de quem o elaborou. Mas, para ser realmente um exercício humorístico, segundo o psicólogo da Universidade de Lisboa, este teria que perguntar "qual a velocidade necessária para salvar o gato?". Assim, "o exercício já teria uma certa ironia e seria mais pedagógico."