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O Charlie Hebdo está vivo e rico, mas doente

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O cartoonista Luz não consegue viver o dia a dia da redação com a recordação do massacre e com os fantasmas dos mortos. Comentar a atualidade política e caricaturar o profeta Maomé deixou de lhe interessar

Aurelien Meunier / Getty Images

A anunciada saída de Luz, um dos mais conhecidos cartoonistas, espelha as dificuldades do semanário satírico francês para sobreviver à tragédia do atentado de há quatro meses.

Renald Luzier, que assina com o nome de Luz e tem assegurado boa parte das mais famosas primeiras páginas de “Charlie Hebdo”, tornou-se num símbolo do semanário satírico depois do atentado de 7 de janeiro que decapitou a redação – 12 mortos, entre eles cinco dos desenhadores mais conceituados de França (Charb, Cabu, Honoré, Tignous e Wolinski) e ainda mais sete colunistas, jornalistas e guarda-costas. 

Quatro meses depois, Luz diz não aguentar mais “a tortura” de ter de comentar semanalmente a atualidade e anuncia que deixará o jornal onde trabalha desde 1992. “É difícil porque agora, para mim, cada semana dura dez meses (…). Depois dos atentados fiz três primeiras páginas em cada quatro (…), cada fecho de edição é uma tortura porque os outros já não estão lá (…). A minha saída é uma decisão pessoal, para poder reconstruir-me e recuperar o controlo sobre mim mesmo”, explica numa entrevista publicada esta terça-feira no diário “Libération”, que ainda alberga provisoriamente a equipa do “Charlie Hebdo” na sua sede.

Luz não consegue viver o dia a dia da redação com a recordação do massacre e com os fantasmas dos mortos. Comentar a atualidade política e caricaturar o profeta Maomé já não lhe interessa. 

Acontece mais ou menos o mesmo com todos os sobreviventes do atentado e hoje, evidentemente, o estado de espírito de “Charlie Hebdo” já não tem nada a ver com o que existia no passado. Depois da terrível tragédia tudo mudou no semanário.

Crise interna agrava-se de dia para dia

O espírito fraterno, jovial e brincalhão abandonou a redação e a situação piora de dia para dia porque, agora, também estalaram divergências de fundo sobre o futuro editorial e económico do jornal. Antes do atentado, “Charlie” estava em crise financeira e tinha por isso a sua viabilidade ameaçada. Hoje é um jornal rico mas, paradoxalmente, a crise agravou-se no seu interior.

Luz desmente que a sua demissão tenha a ver com o facto de defender, com mais uma dúzia dos 20 empregados da sociedade, que o capital amealhado (12 milhões de euros com o produto das vendas) seja dividido por todos, transformando a empresa numa cooperativa. 

Ele não o diz mas certamente que tudo está ligado, porque as tensões no seio de “Charlie” são muito fortes – ainda há dias a direção anunciou a intenção de despedir a jornalista Zined El Rhazoui, supostamente por esta ser uma das pessoas que mais critica a atual gestão, que acusa de falta de transparência. Devido à polémica e à indignação que esta medida disciplinar contra Zined provocou em França, a direção recuou mas as profundas divisões persistem. 

Para tentar apaziguar o clima entre o pessoal, o empregador decidiu distribuir a totalidade dos donativos recebidos depois do atentado (4,3 milhões de euros, vindos de 36 mil doadores de 84 países) às famílias das vítimas. No entanto, recusa ceder às exigências da partilha entre os assalariados do capital acumulado de 12 milhões – 80% das partes estão na posse, em fatias iguais, da família do antigo diretor assassinado, Charb, e do atual, Riss, e os restantes 20% são detidos pelo diretor financeiro, Portheault. 

A questão da definição da fórmula de gestão criou dissensões graves, agudizadas pelas consequências psicológicas da tragédia. 

Quatro meses depois o ambiente permanece muito pesado, também porque três dos feridos ainda se encontram internados em hospitais – Philippe Lançon foi atingido por balas nos braços e na cara, Fabrice Nicolino ficou severamente ferido nas pernas e Simon Fieschi nos pulmões e na coluna vertebral. Riss, que tinha também sido atingido num ombro, já regressou em pleno ao trabalho.

O Presidente François Lolande (sic) faz a capa da edição desta quarta-feira de "Charlie Hebdo"

O Presidente François Lolande (sic) faz a capa da edição desta quarta-feira de "Charlie Hebdo"

Riss, desenhador aplaudido e diretor contestado

Na sua edição desta quarta-feira (ver foto), Luz publica uma pequena banda desenhada onde aborda com humor a sua saída do jornal, desenhando-se a si próprio em conversa, no quarto, com a sua companheira. “Já não tenho mais esta impressão da intrusão possível da intolerância no quotidiano”, diz ele a dado passo enquanto o telefone toca incessantemente com pedidos de entrevistas.

O desenhador publica também hoje um pequeno livro de banda desenhada. Chama-se “Catharsis” e nele relata o seu dia a dia depois do ataque terrorista.

A capa da edição deste 20 de maio de “Charlie Hebdo” é assinada por Coco, uma das sobreviventes, e a crise no ensino em França domina toda a primeira página, com um desenho do Presidente “François Lolande” (sic), defensor de uma reforma controversa do ensino nas escolas francesas. 

Visivelmente, o semanário deseja continuar a privilegiar o humor e o sarcasmo e por vezes ainda o consegue com mestria. Nesta edição, merece ser realçado um excelente desenho de Riss, que ocupa as duas páginas centrais, sobre o Festival de cinema de Cannes e a tragédia dos emigrantes do Mediterrâneo. “Tenho muita pena, é uma festa privada”, diz num dos "quadros" uma voz vinda de um iate, recusando desse modo o pedido de socorro de um náufrago. 

Riss é um brilhante cartoonista – num outro seu desenho, nesta edição, põe a ministra da Educação, Vallaud-Belkacem, a dar um pontapé no rabo do antigo Presidente Nicolas Sarkozy, que recentemente a criticou com dureza. “Vallaud-Belkacem, pelo ensino do karaté em vez do latim”, lê-se no comentário. 

No entanto, Riss, que é apreciado como caricaturista, é como diretor fortemente contestado pelos seus empregados e colegas cartoonistas.