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Filhos da quimio

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Raquel (na foto com o marido, Daniel, e a filha, Isabel, no Dubai, onde vivem) engravidou um mês antes de descobrir que tinha cancro da mama. Foi mãe no final de março e está sem sinais da doença

MIGUEL VETERANO JUNIOR

Nenhuma mulher está preparada para ouvir que tem cancro. Muito menos quando está grávida. Três histórias de quem enfrentou o inimaginável.

Raquel Soeiro lembra-se bem do que levava vestido no dia em que, no Dubai, lhe disseram que tinha cancro. Naquela tarde quente de agosto do ano passado, a assistente de bordo portuguesa, então com 32 anos, entrou no consultório de Houriya Kazim, “a melhor cirurgiã mamária do Golfo Pérsico”, com o ar de quem tinha o mundo a seus pés: macacão preto, sandálias de salto alto com tachas douradas, longos cabelos negros soltos e bem arranjados. Nada, a não ser a pele brilhante como uma pérola, denunciava o segredo do seu sorriso: estava grávida. 

Abriu a porta, deu dois passos, mas não teve sequer tempo de se sentar. A médica levantou a cabeça, fitou-a e atirou sem clemência: “Lamento imenso, mas tem cancro na mama.” Naquele momento, sentindo como se o sangue ainda lhe jorrasse do peito após o disparo à queima-roupa e com os olhos a inundarem-se de lágrimas, Raquel só teve “vontade de tirar uma sandália e furar o crânio da médica com o salto”. Ao invés, respirou fundo, sentou-se e perguntou: “Então, e agora? Como é que combatemos isto?”

Kazim, a primeira mulher especialista em cirurgia mamária nos Emirados Árabes Unidos, explicou-lhe que ainda era cedo para ter respostas. Antes era necessário fazer mais exames, analisar o tumor, perceber de que tipo era, que tamanho tinha. Se tivesse recetores hormonais, seria necessário interromper a gravidez. “Não! Nem pensar”, gritou Raquel, saltando da cadeira como que impulsionada por uma mola. O aborto estava fora de questão.

A portuguesa quis saber que opções tinha para manter a gestação até ao fim, mas metade das explicações perdiam-se pelo caminho. Era demasiada informação para processar. “Foi como se o meu cérebro fechasse para balanço, por tempo indeterminado. Se soubesse o que me esperava, tinha ido de pijama para a consulta”, brinca agora, com um sorriso de menina.

Quando saiu do consultório, deu a notícia por telefone ao marido, piloto de aviões, que estava em Paris. Nessa noite, dormiu em casa de uma amiga. Choraram muito. Depois, rezaram. “Devemos ter rezado com tanto fervor que Deus parece ter-nos ouvido.”

Raquel e Daniel tinham chegado ao Dubai há menos de um ano, com muitos sonhos na bagagem. Conheceram-se num voo em abril de 2012, casaram-se ano e meio depois, em outubro de 2013, um mês antes de se mudarem para o Dubai. Ele fora contratado por uma companhia aérea da região e o matrimónio era “um requisito legal obrigatório” para viverem juntos.

Em abril de 2014, Raquel notou um pequeno nódulo na mama esquerda. “Tumor potencialmente benigno” indicou a ecografia, mas a médica não ficou convencida. Encaminhou-a para Houriya Kazim, que só tinha vaga para agosto. Um mês antes da consulta, Raquel engravidou.

Miguel Veterano Júnior

E ali estava ela, em agosto de 2014, grávida e com cancro. Dá para imaginar a montanha-russa de emoções? O tumor era um carcinoma intraductal invasor com recetores hormonais positivos, o mais frequente dos cancros da mama, em estadio precoce, curável portanto. 

A assistente de bordo voou para Lisboa para ouvir a opinião de Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud com experiência no tratamento de cancro da mama durante a maternidade. Em conjunto com as duas equipas médicas, Raquel decidiu retirar o tumor em Portugal e prosseguir os tratamentos no Dubai: quimioterapia durante a gravidez e quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia depois do parto. A remoção do tumor era uma prenda antecipada: no dia seguinte o casal completava um ano de casamento. 

Se não estivesse grávida, Raquel teria iniciado então um protocolo de hormonoterapia, porque o tumor era de natureza hormonal, mas esta terapia não é compatível com a gestação. Por isso, no regresso ao Dubai, fez quatro sessões de quimioterapia. “Decidimos fazer quimio porque não podia ficar sem tratamento. Provavelmente, foi um sobretratamento, mas como era esse ou nenhum... Era a melhor estratégia para cuidar bem da mãe e salvaguardar o nascimento da criança”, explica Fátima Cardoso, que no consultório guarda as fotos dos filhos das mulheres que tratou. “São os meus chemo babies”, sorri.

Raquel garante que nunca teve um dia mau, de desânimo ou tristeza durante a quimioterapia. Ao ouvi-la, quase parece fácil. “Sempre que o Daniel não estava, uma amiga minha, a Ana Luísa, ia comigo às sessões de quimioterapia, e riamo-nos muito. Às vezes as enfermeiras iam avisar-nos para nos rirmos mais baixinho”, conta. Em dezembro, pediu ao marido para lhe cortar o cabelo. Daniel ficou fã. “Por ele nunca mais deixaria crescer o cabelo”.

Isabel, a “peixinha atómica”, nasceu no Dubai às 14h42 do dia 19 de março, de parto natural, às 38 semanas de gestação. Pesava 2775 gramas e media 50 centímetros. A mãe queria uma carequinha como ela, mas saiu-lhe “uma sobrinha do lobisomem, cheia de pelos nos braços e nas costas”, diz Raquel, sorrindo mais uma vez. “Hoje percebo o quanto a minha filha estava destinada a existir na nossa vida. Talvez tenha sido por causa dela que a minha doença foi descoberta tão cedo, não me pondo a mim em risco”, resume. Depois de mais um ciclo de quimioterapia (12 sessões) vai começar agora o tratamento hormonal, que se prolongará por 10 anos, e ainda fará radioterapia, durante três semanas.

Casos como o de Raquel são extremamente raros. O cancro da mama — o mais comum entre as mulheres — é diagnosticado em apenas uma em cada 3000 grávidas. Por exemplo, o Centro de Mama do Centro Hospitalar de São João, no Porto, tratou quatro pacientes desde 2000. A realidade, porém, tem-se tornado cada mais frequente. A principal razão, nota Fátima Cardoso, “é o facto de as mulheres engravidarem mais tarde”, porque o risco de cancro da mama é maior à medida que se envelhece. E apesar da maioria dos casos ainda surgir nas mulheres entre os 50 e os 60 anos, a prática clínica parece indicar que há cada vez mais casos em mulheres jovens. “É algo que as estatísticas ainda não mostram, mas é essa a nossa perceção.”

Salvaguardar o feto
A história de Raquel é também um bom exemplo da mudança de paradigma no tratamento das grávidas com cancro. Até há menos de uma década, a atitude da comunidade médica era tirar a criança do ventre da mãe o mais depressa possível, logo que ela fosse viável, para cuidar da paciente. Agora, a mensagem é tratar o cancro, mas, ao mesmo tempo, proteger o feto em desenvolvimento. “A experiência mostra-nos que aquilo que leva a maiores problemas de saúde e a maior mortalidade é o facto de a criança nascer prematura”, explica a oncologista, que acompanhou nos últimos anos uma dezena de grávidas com cancro.

Esta evolução é possível porque, ao contrário do que se acreditava, vários estudos têm demonstrado que a utilização de alguns fármacos na quimioterapia entre o segundo e terceiro trimestres de gestação (do quarto ao nono mês) não aumentava o risco de malformações do feto. “A placenta protege a criança dos químicos que a mãe recebe, por isso não há razão nenhuma para não deixar a gravidez ir até ao fim.” A quimioterapia não é, porém, uma opção durante o primeiro trimestre, “porque o embrião é muito sensível e qualquer fármaco pode levar a alterações”.

Outros tratamentos para o cancro são bem menos seguros durante a gestação. É o caso da hormonoterapia, fundamental para tratar tumores com forte influência hormonal, e das chamadas terapias dirigidas — fármacos que têm como alvo alterações específicas das células cancerígenas, impedindo o seu crescimento — que são incompatíveis com a gravidez, só podendo ser administradas após o parto. A radioterapia é também desaconselhada na maioria dos casos, podendo ser utilizada em algumas situações, com muitas precauções, dependendo da localização do tumor. A cirurgia de remoção de tumores é geralmente segura durante a gravidez.

Porém, nem sempre é possível salvaguardar o feto sem pôr em risco a vida da mãe. Com tumores líquidos, como as leucemias ou linfomas, que envolvem frequentemente uma quimioterapia que destrói quase por completo as células da medula óssea, ainda que temporariamente, a interrupção da gravidez ou o parto prematuro têm que ser considerados. O mesmo acontece com cancros ginecológicos, como os do útero ou dos ovários, casos delicados pela sua localização. “Nomeadamente, o cancro do útero precisa de radioterapia e não a podemos administrar enquanto a paciente está grávida”, explica Fátima Cardoso. Alguns cancros da mama mais agressivos, se necessitarem de tratamento imediato no primeiro trimestre de gestação, podem também obrigar à interrupção da gravidez. 

Sempre que é administrada quimioterapia durante a gestação é feita uma ecografia obstétrica após cada sessão, para avaliar a frequência cardíaca, o crescimento do feto e o seu desenvolvimento. Na maioria dos casos não há complicações. Por vezes, pode haver um pequeno aumento da frequência cardíaca e cerca de um terço dos bebés nascem com um peso abaixo do normal, mas que é rapidamente recuperado nos primeiros meses de vida. “Há uma pequeníssima quantidade de químicos que passa a placenta e vai para o bebé, e que pode ter algumas consequências a longo prazo. Há estudos que seguiram crianças até à idade adulta, mas não existem outros sobre o que poderá acontecer quando essas crianças tiverem 30 ou 40 anos. Não há garantias”, alerta a diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud.

Atenção redobrada

Um dos grandes obstáculos ao tratamento do cancro da mama na gravidez está na dificuldade em realizar um diagnóstico precoce. Muitas vezes, os pacientes, e os próprios médicos, desvalorizam eventuais alterações, relacionando-as com as mudanças hormonais que ocorrem durante a gravidez. Por outro lado, como os seios se tornam maiores e mais irregulares, é mais difícil para uma mulher ou mesmo para um médico encontrar um caroço. E bastam poucos meses para passar de um tumor potencialmente curável para um que já não o pode ser. “Todos sabemos que quanto mais precoce for o diagnóstico, maior a probabilidade de cura”, lembra a médica.

A história de Cândido e Gintare podia ser a de um conto de fadas. Conheceram-se há nove anos em Vilnius, na Lituânia, onde ele estava a fazer o programa Erasmus. Ela, uma loira de olhos azul-celeste e sorriso franco, encantou-se por aquele português que brilhava na pista de dança. Falaram pouco, mas dançaram muito. Ela ficou tão impressionada que, ao final da noite, quando decidiu regressar a casa e ele — “sempre um totó” — não se ofereceu para a acompanhar nem lhe pediu o número de telefone, ela decidiu tomar o destino nas próprias mãos. Sentou-se com a prima nas escadas da catedral e esperou que ele e um amigo passassem por ali a caminho da residência de estudantes. “Então, o que fazem aqui?”, perguntou-lhes Cândido. “Nada, ficámos a conversar e não vimos o tempo passar. Talvez nos queiram fazer companhia ao pequeno-almoço”, sugeriu Gintare. Dias depois, o português roubou-lhe o primeiro beijo e a lituana quis saber se namoravam. “Disse-me que não podia beijar quem não namorava”, conta Cândido.

Quando ele voltou para Portugal, ela enviou-lhe um SMS. “Está a chover porque a Lituânia chora a tua partida. Não a deixes, volta rápido!” E ele assim fez. Ficou apenas “dois, três meses”, o tempo de acabar o curso de Engenharia Eletrotécnica. Três anos mais tarde, vieram os dois para Sintra. “Oito meses de inverno por ano é demasiado para um português aguentar”, justifica-se Cândido. Casaram-se em 2012, numa cerimónia civil, simples, no Palácio de Monserrate. Dois meses depois, Gintare engravidou, cumprindo o plano que ambos tinham traçado. Não era possível serem mais felizes.

A partir daqui, a história podia ter sido escrita por Shakespeare. A nuvem negra surgiu sob a forma de um pequeno caroço no peito, ao terceiro mês de gravidez. Gintare, que assentava todas as dúvidas num livrinho para depois perguntar à obstetra, desvalorizou-o. Só voltou a lembrar-se dele quando, dois meses depois, no Natal de 2012, percebeu que tinha aumentado. O resultado da biópsia chegou em janeiro: tumor maligno, do tipo triplo positivo, o mais agressivo de todos. “Foi como se nos tirassem o chão debaixo dos pés.”

Mal saíram do hospital de Cascais, Gintare disse ao marido que queria ter o bebé. E, por isso, quando no IPO de Lisboa lhes explicaram que as alternativas eram abortar, para iniciar a quimioterapia de imediato, ou provocar o parto às 24 semanas, o casal recorreu à Fundação Champalimaud. “A médica [Fátima Cardoso] explicou-nos que era possível salvaguardar a gravidez até ao final da gestação e tratar devidamente o cancro. Era tudo o que queríamos ouvir.” Gintare faria quimioterapia ainda durante a gravidez e removeria o que restasse do tumor após o parto. Só depois poderia avançar com a radioterapia.

O bebé nasceu às 40 semanas, com 2,710 gramas. Chamaram-lhe Salvador, porque tinha sido graças a ele que se descobrira o tumor da mãe.

Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud, já acompanhou uma dezena de casos de grávidas com cancro. Na imagem, segura uma foto de Salvador, filho de Cândido e Gintare

Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud, já acompanhou uma dezena de casos de grávidas com cancro. Na imagem, segura uma foto de Salvador, filho de Cândido e Gintare

António Pedro Ferreira

Gintare foi operada poucos dias depois do parto. Na semana seguinte, foi festejar com as amigas a remoção do tumor. Não havia sinais da doença, mas todos sabiam que ela ainda não estava curada. Seriam precisos vários anos nessas condições para cantar vitória.

Foram felizes durante nove meses, apesar de Gintare — tal como Raquel — não poder amamentar, devido aos tratamentos. Durante um fim de semana em Sevilha, a lituana acordou com dores no pescoço, que pioraram nos dias seguintes. Depois vieram os vómitos. Finalmente, a sentença: tumor no cerebelo, grau IV. Incurável. Cândido quis saber quanto tempo restava à esposa, queria aproveitar todos os momentos com ela. Era impossível prever, mas “talvez três, quatro anos”, disseram-lhe.

É Cândido quem conta a história deste amor trágico. Passava pouco da meia-noite. Ele lembra-se bem da hora, porque pouco tempo antes tinha adormecido ao lado da esposa, no hospital, depois de ela ter recebido a primeira sessão de quimioterapia para combater o novo tumor. Quando voltou a acordar, já o corpo dela “estava inerte e frio”, soluça, com a voz entrecortada pela emoção e lágrimas de saudade. Gintare morreu a 12 de julho, menos de dois meses depois do diagnóstico. Tinha 32 anos.

Às vezes, Cândido engana-se quando fala com o filho. Chama-lhe Gintare. Salvador ainda é muito novo para perceber que não tem mãe. Tinha 10 meses quando a perdeu. Mas chegará o dia em que, inevitavelmente, irá perguntar por ela. Por isso, o pai criou um blogue (amaedosalvador.com) inspirado na série “How I Met Your Mother”, para que ele possa conhecê-la mais tarde. Mas fá-lo também por catarse. Foi lá que escreveu: “Todos me dizem que o tempo ajuda, mas não é bem assim. No início, parece um sonho mau, que a mãe fez uma viagem à Lituânia e já volta. O tempo mostra que essa viagem jamais vai acabar. O tempo não ajuda, isso é falso. O que ajuda é falar dela.”

O grande simulador

O carcinoma da mama é bastante incomum durante a gestação, mas o caso de Catarina Abreu é ainda mais. “Fui a primeira mulher em Portugal a ter este tumor durante a gravidez”, garante a assistente dentária madeirense, hoje com 34 anos. O tumor de que Catarina fala, diagnosticado há quatro anos, é um feocromocitoma, uma patologia rara nas glândulas suprarrenais, muito difícil de detetar. “Muitas vezes só se consegue ver na autópsia, porque fica camuflado, confundindo-se com outras doenças”, explica. Chamam-lhe “o grande simulador”. Benigno em 90% dos casos, provoca um aumento anormal da pressão arterial.

Os sintomas surgiram ainda antes da gravidez. Catarina tinha crises súbitas de taquicardia, muitas dores de cabeça, vómitos, desmaios. Foi a vários especialistas, fez uma bateria interminável de exames, mas nunca se detetou nada. “Diziam-me que podia ser depressão, ataques de pânico ou crises de ansiedade, porque naquela altura não estava a conseguir engravidar.”

Mas quando, por fim, a inseminação artificial resultou, os sintomas não desapareceram. Pelo contrário, agravaram-se. Às 15 semanas de gestação foi-lhe diagnosticada diabetes, outro dos sintomas associados ao tumor, mas que também é comum durante a gravidez. A tensão disparou até aos 16/10, primeiro estágio de hipertensão. Às 29 semanas, nova crise. Desmaiou, ficou com uma nuvem na vista direita que quase a impediu de ver durante duas semanas, foi internada.

No Hospital Nélio Mendonça, no Funchal, mais exames. Quando os resultados chegaram, nunca lhe falaram em tumor para mantê-la calma durante a gravidez. “Disseram-me apenas que tinha uma massa dentro de mim, com cerca de 15 centímetros, e que tinha que ser removida. Só não sabiam bem como, porque era a primeira vez que lidavam com um caso destes numa grávida.”

O crescimento da bebé comprimia o tumor, agravando os sintomas, mas os médicos queriam levar a gestação o mais longe possível. O problema era conseguir chegar ao tumor sem provocar um aumento súbito da tensão arterial que colocasse em perigo a vida de Catarina. “Disse aos médicos que se tivessem que escolher, que a escolhessem a ela.”

Catarina permaneceu internada, em repouso absoluto, até às 36 semanas de gestação, altura em que os médicos decidiram avançar para o parto por cesariana. A bebé nasceu às 11h45 de 12 de maio de 2011, com quase dois quilos e 30 centímetros.

Catarina Abreu com a filha Vitória, de quatro anos. A criança foi um triunfo a dobrar: foi gerada por inseminação artificial e nasceu quando a mãe se debatia com um tumor

Catarina Abreu com a filha Vitória, de quatro anos. A criança foi um triunfo a dobrar: foi gerada por inseminação artificial e nasceu quando a mãe se debatia com um tumor

O estado de saúde da mãe agravou-se subitamente dias depois do parto. Voltou aos cuidados intensivos, muito debilitada, a tensão estratosférica, a bílis a escorrer-lhe pela boca. Foi operada de urgência para remover o tumor. “Desta vez, já não me esconderam nada. Disseram-me que era uma cirurgia muito complicada. Podia morrer.” Catarina saiu do hospital três meses depois de ter sido internada, com 80 pontos na barriga como lembrança do maldito feocromocitoma. Tinha entrado com 72 quilos, pesava agora 40, menos 16 do que o seu peso habitual. Teve que reaprender a andar e não pode voltar a engravidar. Entretanto, divorciou-se.

A filha fez 4 anos na semana passada. Apesar de à nascença lhe ter sido diagnosticada uma diplegia espástica, uma forma de paralisia cerebral frequente em bebés prematuros que afeta os membros inferiores, a mãe assegura que não ficou com sequelas. Quando conseguiu finalmente engravidar, tinha decidido chamar-lhe Vitória. “Depois disto tudo, era uma Vitória ainda maior.”