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Nuno Crato. “Queremos que os alunos passem, mas sabendo”

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NUNO VEIGA/ LUSA

Com a prova de Português do 4.º ano, arranca esta segunda-feira a temporada de exames. Mais de 200 mil alunos realizam esta semana as provas finais do 4.º e 6.º ano, que contam 30% para a nota final. Quanto mais cedo se aprender a lidar com a avaliação mais fácil será progredir no futuro, defende o ministro da Educação, em entrevista ao Expresso.

O ministro da Educação acredita que a realização de exames nacionais a partir do 4º ano é importante para verificar se os alunos estão a atingir os objetivos traçados. Quanto mais cedo se aprender a lidar com a avaliação mais fácil será progredir no futuro, diz Nuno Crato, que garante ter dado mais apoios às escolas.

Portugal é o único país da União Europeia a ter provas nacionais no 4.º ano. O que justificou esta decisão?
A avaliação dos conhecimentos dos alunos no final do 1.º ciclo (cuja duração é variável nos vários sistemas) é uma prática generalizada, com processos que diferem de país para país. A introdução de provas finais no fim de cada ciclo é uma medida de promoção do sucesso dos alunos, particularmente importante quando temos hoje uma escolaridade obrigatória de 12 anos. É natural que haja metas traçadas, que seja verificado se os alunos as atingem e que o esforço de cada um seja reconhecido. Porque queremos o sucesso de todos, introduzimos medidas de apoio e demos mais horas para as escolas disponibilizarem um acompanhamento adicional aos seus alunos sempre que tal se justifique e a qualquer momento. Após a realização das reuniões de avaliação final, há ainda um período de acompanhamento extraordinário, mais individualizado para os que dele necessitam, e esse tem vindo a mostrar-se importante para o sucesso de mais alunos. Ao longo da vida estamos frequentemente a ser avaliados. E quanto mais cedo aprendermos a lidar com a avaliação mais fácil nos será progredir.

Com a importância crescente atribuída aos exames — as escolas recebem recursos em função dos resultados —, não há o risco de os professores hipervalorizarem as matérias aí testadas em detrimento de outros conteúdos?
Não, as provas incidem sobre duas disciplinas (Português e Matemática) e contam apenas 30% da classificação final. O peso da avaliação interna é maior do que o da avaliação externa. Além de que as provas externas incidem sobre os conteúdos essenciais tratados nas aulas ao longo dos anos. A preparação para as provas deve coincidir com a preparação para o domínio dos conhecimentos e capacidades estabelecidos nas respetivas metas curriculares e programas, que são hoje mais claros e que permitem o acompanhamento por parte das famílias. O crédito adicional é um incentivo à melhoria dos resultados nas provas externas. 

Os chumbos no ensino básico aumentaram nos últimos dois anos. Só no 2.º ano, há 10% que reprovam. Como se explica esta evolução?
Poderá decorrer do aumento do número de alunos com mais de 15 anos que não obtiveram aprovação em resultado do alargamento da escolaridade obrigatória. Estes alunos, ou parte deles, não seriam antes abrangidos pelas estatísticas da retenção. O ligeiro aumento que se verifica no ensino básico também poderá ser explicado por alguma adaptação da exigência por parte dos professores e pela existência de provas finais adequadas àquilo que deve ser pedido aos alunos. Por seu lado, a melhoria na redução da retenção no secundário reflete certamente o ajustamento progressivo a uma maior exigência traduzida pela existência de exames.

Num relatório recente, o Conselho Nacional de Educação considerou que chumbar os alunos é uma “má solução”, que não tem ajudado a resolver as dificuldades dos jovens. Como comenta?
Queremos reduzir progressivamente as taxas de retenção, mas não de forma artificial. Queremos que os alunos passem, mas passem sabendo. A fragilidade do conhecimento poderá trazer custos muito mais elevados a longo prazo, e a autoestima dos alunos não se promove sem exigência. Tomámos medidas para promover o sucesso, entre as quais as novas metas curriculares, a possibilidade de disponibilização de apoio extra aos alunos e de criação temporária de grupos de homogeneidade relativa, as coadjuvações e o sistema de incentivos às escolas com a atribuição de créditos horários (horas extra). No âmbito da autonomia curricular, as escolas podem aumentar o tempo dedicado às disciplinas nas quais os alunos revelem maiores dificuldades. Nos primeiros anos, em particular, a retenção deve ser reduzida para valores residuais.