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Os 'doutores' da cidade estão em Aljustrel

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Aljustrel perdeu metade da população entre 1960 e 1980. Nunca mais recuperou

José Carlos Carvalho

Em duas décadas, Aljustrel perdeu metade da população e nunca mais a recuperou. Sofre do mal de baixa densidade. Esta sexta-feira, académicos, jornalistas e ativistas sociais estão lá para discutir os efeitos da desertificação. E não só.

Nos dias de semana, a vila mineira de Aljustrel tem mais população. São os técnicos migrantes que trabalham na grande indústria local que tantos filhos consumiu à terra, pessoas que regressam a suas casas nos fins-de-semama. A mina, ou melhor o complexo mineiro de Aljustrel, é também um importante pólo de emprego industrial, decisivo para a oferta de emprego naquele concelho que entre 1960 e 2011 perdeu metade da população.

Não tendo nascido em Aljustrel mas numa terra próxima, José Carlos Albino, é um desses alentejanos que saiu na década de 1960. Não o fez por motivos económicos porque tinha 10 anos quando saiu. Mas, ao contrário de muitos alentejanos que deixaram as suas terras a partir de 1960, Albino voltou no final da década de 1980 com o projeto de trabalhar para atrair o olhar de quem mora na cidade para as terras do interior. E é um dos dinamizadores da segunda edição das Conferências de Aljustrel que esta sexta-feira reúnem na vila mina mineira académicos, jornalistas e ativistas do desenvolvimento local para debater o futuro daquilo que designam por "territórios atrativos". Ou seja, vão discutir experiências bem sucedidas de combate à baixa densidade para tirar conclusões e ensinamentos.

Baixa densidade, é um daqueles conceitos que já ouvimos designar por outras expressões; a título de exemplo, já se utilizou combate à desertificação e desenvolvimento local entre outras designações. A última, a que agora é tida como boa pela Agenda XXI para falar destes territórios, é baixa densidade, ou seja um território com poucos habitantes por quilómetro quadrado e que enfrenta problemas derivados da perda constante de população, baixa natalidade, dificuldades em criar emprego, interioridade, etc. Afeta 164 municípios portugueses.

Complexo mineiro de Aljustrel, núcleo de Fetais

Complexo mineiro de Aljustrel, núcleo de Fetais

José Ventura


Entre 1960 e 2011, Portugal ganhou 1,5 milhões de habitantes e a área metropolitana de Lisboa (AEM) 1,3 milhões. Para que isso acontecesse, entre outros motivos, houve 164 munícipios, a maioria do interior que viram partir grande parte das pessoas que lá viviam.

No concelho de Aljustrel, os que ficaram, abandonaram o trabalho na agricultura, o chamado sector primário, e mudaram-se em força para o terciário, os serviços. O censo de 1960 diz que 56,1% dos 18 181 residentes naquele concelho mineiro trabalhavam na agricultura, e em 2011 já só 'sobreviviam' nos campos 8,4% dos 9257 moradores. Agora, mais de 60% dos que ficaram preferem trabalhar nos serviços. O emprego na indústria manteve-se razoavelmente estável, na faixa dos 30%, embora o censo de 1981 revele uma quebra acentuada, resultante de problemas nas minas.